terça-feira, 30 de maio de 2017

Contos de Cães e Maus Lobos de Valter Hugo Mãe



Sinopse


A escrita encantatória de Valter Hugo Mãe chega ao conto como uma delicadíssima forma de inclusão. Estes contos são para todas as idades e são feitos de uma esperança profunda. Entre a confiança e o receio, cães e lobos são apenas um símbolo para a ansiedade perante a vida e a fundamental aprendizagem de valores e da capacidade de amar. Entre a confiança e o receio estabelecemos as entregas e a prudência de que precisamos para construir a felicidade. Com a participação plástica de: Ana Aragão | Cadão Volpato | Daniela Nunes | David de la Mano | Duarte Vitória | Filipe Rodrigues | Graça Morais | JAS | Joana Vasconcelos com Alice Vasconcelos | José Rodrigues | Luís Silveirinha | Nino Cais | Paulo Damião







«Há nesta antologia de contos o convite ao regresso a um canto de que nunca saímos, um reencantamento da infância, uma cumplicidade de quem partilha vazios e silêncios». 
Mia Couto (Prefácio) 


Este foi o primeiro livro de Valter Hugo Mãe que li. Confesso que há muito tempo que andava com curiosidade em ler alguma obra dele, mas as opiniões que ouvi eram diversas e fiquei sempre na dúvida por onde e quando começar. Uma boa amiga resolveu-me o problema, oferecendo este belo livro de contos. 

É claro que de imediato peguei nele, e foi saboreando lentamente as onze pequenas histórias que ele nos oferece. Digo saboreando, porque é mesmo assim, não é um livro que se leia de seguida, mas sim conto a conto, onde vamos degustando, com todos os sentidos possíveis as suas palavras, as suas histórias, o seu mundo… 

Com uma escrita extremamente simples, “Contos de cães e maus lobos” transportam-nos para um imaginário onde os sonhos se cruzam e os corações batem mais fortes. Há como que um “doce viver”, uma singeleza, em cada um destes contos.


«Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pela imaginação. Por isso é que os textos são mais do que gigantescos, são absurdos de um tamanho que nem dá para calcular. Mesmo os contos, de pequenos não têm nada. Se os soubermos entender, crescemos também, até nos tornarmos monumentais pessoas. Edifícios humanos de profundo esplendor».
Conto "A biblioteca"

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Um Deus Desconhecido de John Steinbeck




Sinopse
As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Cumprindo a promessa feita ao pai antes da sua morte, Joseph Wayne parte para o Oeste com o desejo de criar uma quinta próspera na Califórnia. Aí encontra uma bela e imponente árvore e acredita estar nela incorporado o espírito do pai. Os irmãos e respetivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta cresce — até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, fazendo com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A Um Deus Desconhecido é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente.






Opinião 

Joseph Wayne é um homem solitário que decide deixar a sua família, em Vermont, e procurar o seu próprio destino. A terra onde vive não chega para todos e tendo ouvido falar que havia terrenos, na Califórnia, parte, como muitos outros nessa época, atrás do seu sonho para o Oeste. 

Escolhe um terreno perto da fronteira mexicana e depara-se com as tradições e costumes índios de muita gente que habita essa região. As diferenças conquistam-no, a relação da divindade com a natureza atrai-o e ele começa a sentir a terra como algo que faz parte de si mesmo.

Junto á casa que constrói existe um enorme e velho carvalho. Joseph , no momento em que lê a carta que anuncia a morte do seu pai, pouco tempo depois de chegar, olha para a árvore e pareceu-lhe que as folhas se agitaram e que ganharam outra vida. O remorso de não ter acompanhado o seu pai, naqueles últimos momentos da sua vida, persegue-o mas, para ultrapassar isso, ele acha que o espirito do seu pai se introduziu naquele carvalho e a partir desse momento estabelece, com ele, uma relação de culto ou mesmo adoração. 

Toda a sua vida vai estar intimamente ligada com a seiva que corre por entre as folhas, ramos e tronco da árvore. A ela recorre nas dúvidas, nos bons e maus momentos, refletindo em silêncio. 

Uma necessidade enorme estabelecia-se no seu íntimo, de acreditar em algo mais transcendente, um “Deus desconhecido” que ele agora encontrava vivo na natureza, muito mais próximo de si, no velho carvalho, no lugar sagrado dos índios que encontra no topo da propriedade, um lugar antigo, místico e na própria comunhão com a terra que lhe corre pelo sangue, como se fossem um só. 

Um romance que nos fala da organização da família no velho oeste, o rancho que se desenvolve em função da figura patriarcal, que vive em função da terra e da criação do gado.

No entanto é muito mais do que isto, é uma procura do Homem pelo seu Deus? Ou a união do homem com um Deus vivo e presente na Natureza….

Joseph é uma personagem muito forte, muito marcante nas suas relações, quer no seu meio familiar que vive quase em função dele, quer como personagem da qual não nos conseguimos identificar, mas à qual nos sentimos presos como uma mariposa em volta da chama.

 "Ignoro se há homens nascidos fora da Humanidade, ou se alguns deles são tão humanos que fazem os outros parecer irreais. Talvez uma divindade venha viver para a Terra, de vez em quando. O Joseph possui força sob uma visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como os relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido. Quando estiveres longe dele, tenta pensar nele e verás o que quero dizer com isto. A sua figura crescerá até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistível impulso do vento." (diálogo entre Rama, a cunhada e Elizabeth a mulher)



Edição ou reimpressão: 03-2007
Editor: Livros do Brasil
Páginas: 256
Coleção: Obras de John Steinbeck
ISBN: 9789723828337

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Tormento dos Céus de Ursula K. Le Guin





Sinopse:

E se, quando acordamos, descobríssemos que os nosso sonhos se tinham tornado reais? George Orr é um homem insignificante, em que ninguém repararia, ao passar. Mas quando Orr descobre que os seus sonhos podem mudar a realidade, começa a ter medo de sonhar, Ao tentar suprimir os sonhos, é enviado, por abuso indevido de medicação, a um psiquiatra que se dedica a investigar os diferentes estados de sono produzidos pela mente. O Dr. Haber, um homem autoconfiante e autocomplacente, que se acha capaz de conhecer e manipular a mente dos seus pacientes, depressa se apercebe de que Orr possui de facto a capacidade de alterar a realidade. Submete-o então a sucessivas experiências com máquinas cada vez mais sofisticadas para conseguir, através dele, alterar o que está mal no mundo, e chegar à criação de um verdadeiro "admirável mundo novo". Orr, porém, acha que toda esta cega manipulação é na verdade aberrante.

A partir deste enredo, Ursula K. Le Guin escreve uma obra-prima de complexidade e subtileza, datada de 1971 mas ainda hoje surpreendentemente actual na sua percepção do mundo relativamente a temas como ambiente, geopolítica, racismo, avanços da medicina e relação de todas estas coisas como o poder.


Opinião:

Ursula Le Guin é uma escritora que ficará de certeza na lista dos meus escritores favoritos, pois gosto bastante da sua escrita e das histórias que nos conta.

“O Tormento dos Céus” não sendo um dos meus livros favoritos desta autora (é preciso referir que ainda me faltam muitos para ler) é sem dúvida um livro interessante quer pela temática, quer pela sua originalidade.

A história passa-se em 2002 (30 anos após a data em que foi escrito), num mundo quase que apocalíptico onde todas as acções do ser humano estão controladas, e onde a relação homem / natureza se perdeu.

George Orr tem uma característica incomum: muitos dos seus sonhos tornam-se realidade, no verdadeiro sentido da palavra, desde que sejam sonhos “eficazes”. Para muitos esta característica levaria a uma exclamação do tipo: “olha que bom!” mas para Orr é mais uma maldição que ele quer evitar de qualquer forma. Esta luta leva-o a tentar não sonhar e a consumir fármacos que o ajudem a não dormir. Numa sociedade em que o que cada um consome é controlado e doseado, rapidamente descobrem que anda a utilizar cartões de outras pessoas para se abastecer. Como é uma pessoa pacífica, a penalização passa apenas por tratamento psiquiátrico junto de um especialista em questões de sono.

Haber, assim se chama o psiquiatra, vê naquele doente um manancial de descobertas e de possibilidades de alterar quer a sua vida pessoal, quer a sociedade em que vivem. E assim se vai desfolhando o livro de alteração em alteração do mundo, da sociedade e deles próprios.

A autora chama-nos a atenção sobre a avidez humana pelo poder, por querer sempre mais, pois paralelamente ao desejo de mudar o mundo, torná-lo mais humano, há o desejo pessoal, há o conflito armado, a guerra latente que de uma forma ou de outra está sempre presente. As mudanças trazem sempre outras mudanças associadas e é um caminho sem fim.

É um livro interessante que tem um final curioso. Recomendo a quem gosta de Ursula Le Guin e a quem nada leu da sua vastíssima obra também o recomendo, se bem que aconselharia a começar por outros livros, a saga Earthsea por exemplo.


Edição ou reimpressão: 04-2004
Editor: Editorial Presença
Páginas: 180
Coleção: Viajantes no Tempo
ISBN: 9789722331562








terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"O meu nome é vermelho" de Orhan Pamuk




SINOPSE


Orhan Pamuk é o grande vencedor do prémio Nobel da literatura 2006. A Academia Sueca não lhe poupou elogios: «na procura pela alma melancólica da sua cidade natal descobriu novos símbolos para o confronto e entrelaçamento de culturas». Um dos mais reconhecidos romancistas, Pamuk tem o seu trabalho traduzido em 45 línguas. Nos seus livros, os leitores são levados a submergir num labirinto de histórias e crenças, onde as personagens com as quais nos identificamos podem a qualquer momento tornar-se estranhas, avançando noutra direcção, para outra vida ou outra cultura. A sua cidade de origem é uma referência incontornável no percurso literário do Nobel, um local onde os leitores de todo o mundo podem viver outra vida com o sentimento de que aquele lugar também lhes pertence.

Em O Meu Nome É Vermelho, inicia-se uma viagem até Istambul, do século XVI onde um iluminista da corte aparece morto no fundo de um poço. A partir daqui desenrola-se uma história que pode ser lida não só como um mistério, mas também como uma história de amor. A narrativa desenrola-se em torno das investigações deste homicídio, sendo contada alternadamente por diferentes personagens, a maioria humanas, mas também por animais e objectos. Um romance exótico onde se espelha a tensão entre Ocidente e Oriente.





A conselho de uma amiga comprei na Feira do Livro (a um preço mais convidativo) o meu primeiro livro de Orhan Pamuk, escritor turco que recebeu o Nobel da literatura em 2006. Não conhecia nada deste autor e fui surpreendida pela sua escrita muito agradável e pelas inúmeras histórias que enchem as páginas desta belíssima obra. 

Orhan Pamuk transporta-nos para o final do século XVI , em Istambul, para o seio da comunidade de miniaturistas que trabalham para o sultão otomano. Com eles percorremos um caminho traçado de histórias, crenças, de paixões e questões metafisicas e religiosas que se entrelaçam entre o Ocidente e Oriente. 

A história principal é simples: um miniaturista é encontrado morto num fundo de um poço e importa pois descobrir quem o matou. No entanto é a partir deste crime que o autor nos leva aos meandros da arte e da sua representação, das pinturas orientais e das influências cada vez mais fortes (na época) das tendências ocidentais, nomeadamente da perspectiva e do retrato. 

O sultão encomendara a execução de um livro secreto, que seria um presente para uma comitiva veneziana e as suas iluminuras deveriam retratar a glória do império otomano através da arte islâmica. Quatro miniaturistas desenvolviam o trabalho, tendo como orientador o “Tio” que servia de elo entre estes e o próprio sultão, e que pretendia tornar esta obra num exemplar único em toda a arte otomana. Com a morte de um deles todos os outros se tornam suspeitos e as pistas são as próprias miniaturas que produziram. Paralelamente o romance surge, envolvendo dois dos protagonistas principais e com ele surge também todo o ambiente próprio da época à roda da alcoviteira que leva e traz bilhetes e recados no meio das suas trouxas de roupas. 

Uma das questões verdadeiramente fantásticas neste livro, na minha opinião é claro, é a narrativa ser contada por todas as personagens, ou seja todas elas intervêm directamente com o leitor e contam a sua versão ou opinião sobre os factos. As personagens são desde o cadáver que conta o que lhe aconteceu, ao assassino que, sem se identificar, explica as razões que o levaram a tomar aquela atitude, a todos as outras que se ligam ao ambiente onde se desenvolve a acção e mesmo um conjunto de personagens completamente inesperadas, como uma árvore, a morte, o dinheiro (hilariante!), a cor vermelha e mesmo um cão que explica as desventuras sobre a interpretação do Alcorão para denegrir a bom imagem da raça canina.

No entanto o mais fascinante da obra é que, ao colocar a história nas várias personagens que a vão narrando, Pamuk dá-nos uma visão muito mais abrangente do que apenas a abordagem estilística do romance, dá-nos a visão de cada um do mundo que o rodeia, os seus medos, as suas crenças, as suas críticas e espectativas sobre a sua própria vida. É sobretudo a visão do ser humano e do nosso autoconhecimento face a um acontecimento que acaba por ser a questão central do livro. 

“O meu nome é vermelho” foi publicado em 1998 e recebeu o prestigiado prémio, cinco anos depois, IMPAC Dublin Literary Award.




Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 480
Editor: Presença
Colecção: Grandes narrativas
ISBN: 9789722338349


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A Raposa Azul de Sjón



Sinopse

O ano é 1883. A fria e irreal paisagem do Inverno islandês é o pano de fundo. Seguimos o padre, Baldur Skuggason, na sua perseguição à enigmática raposa azul. E no momento em que o padre prime o gatilho somos transportados para o mundo do naturalista Fridrik B. Fridriksson e da sua protegida, Abba, que sofre da síndrome de Down. Quando ela foi encontrada acorrentada às vigas de um navio naufragado em 1868, Fridrik fora casualmente em seu socorro. O destino de todas estas personagens está intrinsecamente ligado e, a pouco e pouco, de um modo surpreendente, é revelado neste fascinante romance que contrapõe à poética violência da natureza a barbaridade dos homens.






Um livro de pequenas dimensões, com apenas 112 páginas que passará desapercebido a muitos leitores. Pelo menos assim aconteceria comigo se não fossem duas particularidades: a capa azul, lindíssima, com a imagem de um focinho de raposa “azul” do ártico e a vontade que tenho de ler livros sobre a Islândia. 

Assim na Feira do Livro do ano passado, trouxe-o a um preço bem convidativo da Cavalo de Ferro. 

Não poderei dizer que o livro se lê num ápice, porque estaria a mentir. 

Lê-se calmamente e sobretudo sente-se. Sente-se o frio gelado de uma procura, o frio de uma vasta região desértica em que nada vinga a não ser a neve e o gelo. Sente-se o frio humano, o marginalizar de situações, de seres, de condições e sobretudo sente-se a presa, a caça, o disparo da arma e a “vingança” da natureza. A beleza natural de uma região tão inóspita quanto misteriosa aliada à crueldade humana são os principais ingredientes deste pequeno/grande livro.

A histórica gira à volta de três personagens no século XIX: um padre de uma pequena paróquia - Baldur Skuggason que parte numa caçada ao raro animal que dá nome ao livro, um naturalista - Fridrik B. Fridriksson viajante na sua juventude, mas que se dedica ao estudo de plantas na região, isolando-se da sua vida anterior e uma jovem portadora de Síndrome de Down - Abba, encontrada acorrentada num navio abandonado, transportando consigo uma caixa que contém o segredo da sua história, mas que só poderá ser revelado após a sua morte. Apenas no desenlace final se entende qual a relação entre todos num mundo tão árido em sentimentos humanos quanto a paisagem envolvente.

Os capítulos são curtos, por vezes como que pequenas poesias em forma de prosa, que nos deixam a pensar. Pequenos momentos intemporais e mudança de narrador fazem com que nos sintamos parte do livro e que possamos entender tudo aquilo que nunca chega a ser revelado.

O autor transporta-nos para as paisagens geladas da Islândia, onde através de um conjunto de elementos míticos, muito próprios desse país, nos oferece uma leitura diferente que na minha opinião é memorável. Toda a história da humanidade é-nos oferecida num diálogo entre raposa e caçador/reverendo. 


Edição/reimpressão:2010
Páginas: 112
Editor: Cavalo de Ferro
ISBN: 9789896231118
Tradução: Maria João Freire de Andrade




Sjón ou Sigurjón Birgir Sigurðsson é um escritor da Islândia, é famoso por ser o autor de muitas das letras de  canções para Björk e Lars von Trier; viveu em Londres e vive agora Reykjavík.

Vencedora do "Nordic Concil Literature Prize" em 2005, 'A Raposa Azul' é considerada a obra mais importante da literatura islandesa actual.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

"Firmin" de Sam Savage


Sinopse
Nascido na cave da Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin aprendeu a ler devorando as páginas de um livro. Mas uma ratazana culta é uma ratazana solitária.

Marginalizado pela família, procura a amizade do seu herói, o livreiro, e de um escritor fracassado. À medida que Firmin desenvolve uma fome insaciável pelos livros, a sua emoção e os seus medos tornam-se humanos. É uma alma delicada presa num corpo de ratazana e essa é a sua tragédia.

Num estilo ora sarcástico ora enternecedor, Firmin é uma história sobre a condição humana em que a paixão pela literatura, a solidão e a amizade, a imaginação e a realidade, fazem parte de um mundo que acarinhava os seus cinemas de reprise, os seus personagens únicos e a glória amarelada das suas livrarias. Firmin é divertido e trágico. Como todos nós.


Confesso que se não fosse um conselho de uma boa amiga, Firmin ter-me-ia passado ao lado e seria uma enorme perda.

Gostei muito de ler este pequeno livro e de conhecer Firmin uma ratazana, de pelo negro e aparentemente como tantas outras que vivem em buracos escuros, frios e húmidos e comem restos de comida.

No entanto Firmin não é uma ratazana vulgar, é o mais novo de uma ninhada de treze filhos de uma mãe que vai bebendo os restos das bebedeiras humanas e que invariavelmente chega a casa bêbada. Sendo o mais fraco, apenas lhe restam as últimas gotas de leite libertas do álcool ingerido pela Mama. Talvez por isso ele, o renegado pela família, tenha encontrado nos livros a fonte para saciar todas as suas carências.

Nascido na cave de uma velha livraria, a Pembroke Books, em Boston nos anos 60, Firmin começou a sua vida deliciando-se com as páginas de Finegans Wake de James Joyce, que a sua mãe despedaçou para com elas fazer o berço dos seus filhos.

Dia a dia ele vai alimentando o corpo e o espírito de livros, ele come, lê e vive os livros. De uma abertura no tecto da livraria, observa as pessoas que entram e saem e vai aprendendo a viver com elas, conhecendo exactamente quais os gostos de cada um e os locais onde se encontra cada livro que procuram. Sabe quais as categorias dos livros e viaja com eles, desde as mais longínquas aldeias do globo terrestre aos locais mais ínfimos do corpo humano.


"Nunca fui muito valente no aspecto físico, aliás nem em qualquer outro aspecto, e foi-me muito difícil aceitar a pura estupidez de uma vida vulgar, sem história, de modo que comecei bastante cedo a consolar-me com a ideia ridícula de que tinha um Destino. E resolvi viajar pelos livros, no espaço e no tempo, à procura dele. Com Daniel Defoe visitei a Londres da peste negra. Ouvi o sineiro gritar "Tragam cá para fora os vossos mortos" e cheirei o fumo dos cadáveres queimados. Continua entranhado nas minhas narinas. 
(...)  
Pus Baudelaire na jangada com Huck e Jim. Fez-lhe bem. E tornei algumas pessoas tristes mais felizes. Deixei Keats casar com Fanny antes de morrer. 
(...)
Deixei os livros entrar nos meus sonhos e por vezes sonhei que eu é que estava nos livros. Tive a cintura de vespa da Natasha Rostova, senti a mão dela no meu ombro e dançámos os dois e, flutuando ao sabor da valsa (....) 
Fui em tempos - apesar do meu porte desagradável - um irremediável romântico, esse personagem tão ridículo. E um humanista também, igualmente irremediável. E no entanto apesar - ou será por causa? - desses sentimentos conheci uma data de gente fabulosa, bem como uma data de génios, no decorrer da minha educação básica. Conversei com todos os Grandes.. Dostoievski e Strindberg por exemplo. Neles não tardei a reconhecer colegas de sofrimento, histéricos como eu. E aprendi com eles uma lição valiosa - por mais pequenos que sejamos, a nossa loucura pode ser tão grande como a de qualquer outra pessoa."


Através de uma linguagem simples, e na primeira pessoa, vamos acompanhando o crescimento deste personagem que acredita no poder da amizade e que busca a felicidade acima de tudo. O seu maior desgosto é não conseguir comunicar com a espécie humana, essa espécie que ele vai aprendendo a conhecer através da livraria, através de Fred Astaire e Ginger e das belas mulheres dos filmes que vai assistindo no velho cine-teatro Rialto do outro lado da praça, onde ele vai procurar o seu alimento. Ele sonha com Astaire, ele vive pelos mundos dos livros que lê e ele desilude-se com a vida real fora das paredes onde vive. O ser humano revela-se egoísta e mesquinho causando-lhe sofrimento, levando-o a refugiar-se no sonho e nos livros. Ele apenas deseja amar e ser amado intensamente.

Com Jerry, um escritor falhado, ele consegue ser feliz. Entendem-se mutuamente nos seus gostos e nos livros que são a essência da vida para ambos, e Firmin encontra nesse ser o reflexo da sua alma de camundongo num ser humano.  É a seu lado que vive os melhores dias da sua vida, pois, segundo ele próprio, abandona o seu estilo de vida burguês.

No entanto a vida é traiçoeira, mesmo para uma pequena ratazana pacífica e cobra os seus preços. Todo o bairro onde se localiza a velha livraria e o cine-teatro Rialto está inserido num programa de reforma urbana, cujo projecto avança com a demolição de todas as construções existentes. A pouco e pouco a vida vai-se escoando, não há visitantes, o cinema encontra-se vazio e a comida escasseia.

Uma fábula divertida e dramática em que o autor nos oferece  uma visão da condição humana, da solidão, do desejo que todos temos em sermos reconhecidos como verdadeiramente somos, de amarmos e de sermos amados. Através das suas reflexões Firmin predispõe-nos a pensar nas nossas atitudes, nas nossas procuras e sobretudo naquilo que é o Destino.  


Muito bom.
Ilustrações de Fernando Krahn
Edição/reimpressão:2009
Páginas: 160
Editor: Editorial Planeta
ISBN: 9789896570019




segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Excertos de "A raposa azul" de Sjón




"As raposas azuis são tão curiosamente semelhantes a pedras que isso é motivo de maravilhamento. No Inverno, quando se deitam ao seu lado não existe qualquer possibilidade de as distinguir das rochas: na verdade, são muito mais astutas do que as raposas brancas, que lançam sempre uma sombra ou parecem amareladas contra a neve.

Uma raposa azul deita-se muito perto de uma pedra, e deixa que a neve que sopra de barlavento se acumule sobre ela. Vira as costas à intempérie, enrola-se e enfia o focinho debaixo da coxa, baixa as pálpebras até restar apenas o mais ténue dos vestígios de uma pupila. E assim mantém um olho atento sobre o homem que não se moveu desde que se abrigou sob um banco de neve saliente, ali nas vertentes superiores do Asheimar, há cerca de dezoito horas. A neve caiu sobre ele, até o homem se assemelhar apenas aos restos de um muro arruinado. 

animal tem de tentar não se esquecer que o homem é um caçador."
 
(...)


"O homem olhou-a com maior atenção. 

Focou os seus pensamentos nela, a tentar entrever algum indício do que ela tencionava fazer, por que caminho seguiria quando acabasse de farejar o cume. De repente, o animal desatou a correr, o homem não percebeu porquê. O seu comportamento demonstrava que ela sentira uma enorme ameaça. No entanto, não podia ter a mais pequena das suspeitas quanto ao homem - por meios normais.

Devia ter sido uma premonição das intenções dele: É um homem com a caça na mente." 
 

(...)

"Quando o homem emergiu sob o rochedo gigantesco que bloqueia o Asheimar, está prestes a perder a raposa.

Apenas a conseguiu detectar quando ela deu três voltas e deixou-se cair contra uma pedra, a esconder-se e a enrolar a cauda sobre o focinho.

O homem fez o mesmo.

A orla do dia desvanecia-se.

Nos átrios celestiais estava agora suficientemente escuro para as irmãs Aurora Boreal começarem sua animada dança de véus. Com um encantador jogo de cores elas esvoaçaram leves e rápidas sobre  o imenso palco dos céus, a sacudirem os seus vestidos dourados, os seus colares de pérolas a desfazerem-se, a espalharem-se por aqui e por ali por entre os seus saltos selváticos. É pouco depois de o entardecer que este espectáculo se torna mais brilhante.

Depois a cortina cai; a noite instala-se."