quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Um Deus Desconhecido de John Steinbeck




Sinopse
As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Cumprindo a promessa feita ao pai antes da sua morte, Joseph Wayne parte para o Oeste com o desejo de criar uma quinta próspera na Califórnia. Aí encontra uma bela e imponente árvore e acredita estar nela incorporado o espírito do pai. Os irmãos e respetivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta cresce — até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, fazendo com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A Um Deus Desconhecido é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente.






Opinião 

Joseph Wayne é um homem solitário que decide deixar a sua família, em Vermont, e procurar o seu próprio destino. A terra onde vive não chega para todos e tendo ouvido falar que havia terrenos, na Califórnia, parte, como muitos outros nessa época, atrás do seu sonho para o Oeste. 

Escolhe um terreno perto da fronteira mexicana e depara-se com as tradições e costumes índios de muita gente que habita essa região. As diferenças conquistam-no, a relação da divindade com a natureza atrai-o e ele começa a sentir a terra como algo que faz parte de si mesmo.

Junto á casa que constrói existe um enorme e velho carvalho. Joseph , no momento em que lê a carta que anuncia a morte do seu pai, pouco tempo depois de chegar, olha para a árvore e pareceu-lhe que as folhas se agitaram e que ganharam outra vida. O remorso de não ter acompanhado o seu pai, naqueles últimos momentos da sua vida, persegue-o mas, para ultrapassar isso, ele acha que o espirito do seu pai se introduziu naquele carvalho e a partir desse momento estabelece, com ele, uma relação de culto ou mesmo adoração. 

Toda a sua vida vai estar intimamente ligada com a seiva que corre por entre as folhas, ramos e tronco da árvore. A ela recorre nas dúvidas, nos bons e maus momentos, refletindo em silêncio. 

Uma necessidade enorme estabelecia-se no seu íntimo, de acreditar em algo mais transcendente, um “Deus desconhecido” que ele agora encontrava vivo na natureza, muito mais próximo de si, no velho carvalho, no lugar sagrado dos índios que encontra no topo da propriedade, um lugar antigo, místico e na própria comunhão com a terra que lhe corre pelo sangue, como se fossem um só. 

Um romance que nos fala da organização da família no velho oeste, o rancho que se desenvolve em função da figura patriarcal, que vive em função da terra e da criação do gado.

No entanto é muito mais do que isto, é uma procura do Homem pelo seu Deus? Ou a união do homem com um Deus vivo e presente na Natureza….

Joseph é uma personagem muito forte, muito marcante nas suas relações, quer no seu meio familiar que vive quase em função dele, quer como personagem da qual não nos conseguimos identificar, mas à qual nos sentimos presos como uma mariposa em volta da chama.

 "Ignoro se há homens nascidos fora da Humanidade, ou se alguns deles são tão humanos que fazem os outros parecer irreais. Talvez uma divindade venha viver para a Terra, de vez em quando. O Joseph possui força sob uma visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como os relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido. Quando estiveres longe dele, tenta pensar nele e verás o que quero dizer com isto. A sua figura crescerá até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistível impulso do vento." (diálogo entre Rama, a cunhada e Elizabeth a mulher)



Edição ou reimpressão: 03-2007
Editor: Livros do Brasil
Páginas: 256
Coleção: Obras de John Steinbeck
ISBN: 9789723828337

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Tormento dos Céus de Ursula K. Le Guin





Sinopse:

E se, quando acordamos, descobríssemos que os nosso sonhos se tinham tornado reais? George Orr é um homem insignificante, em que ninguém repararia, ao passar. Mas quando Orr descobre que os seus sonhos podem mudar a realidade, começa a ter medo de sonhar, Ao tentar suprimir os sonhos, é enviado, por abuso indevido de medicação, a um psiquiatra que se dedica a investigar os diferentes estados de sono produzidos pela mente. O Dr. Haber, um homem autoconfiante e autocomplacente, que se acha capaz de conhecer e manipular a mente dos seus pacientes, depressa se apercebe de que Orr possui de facto a capacidade de alterar a realidade. Submete-o então a sucessivas experiências com máquinas cada vez mais sofisticadas para conseguir, através dele, alterar o que está mal no mundo, e chegar à criação de um verdadeiro "admirável mundo novo". Orr, porém, acha que toda esta cega manipulação é na verdade aberrante.

A partir deste enredo, Ursula K. Le Guin escreve uma obra-prima de complexidade e subtileza, datada de 1971 mas ainda hoje surpreendentemente actual na sua percepção do mundo relativamente a temas como ambiente, geopolítica, racismo, avanços da medicina e relação de todas estas coisas como o poder.


Opinião:

Ursula Le Guin é uma escritora que ficará de certeza na lista dos meus escritores favoritos, pois gosto bastante da sua escrita e das histórias que nos conta.

“O Tormento dos Céus” não sendo um dos meus livros favoritos desta autora (é preciso referir que ainda me faltam muitos para ler) é sem dúvida um livro interessante quer pela temática, quer pela sua originalidade.

A história passa-se em 2002 (30 anos após a data em que foi escrito), num mundo quase que apocalíptico onde todas as acções do ser humano estão controladas, e onde a relação homem / natureza se perdeu.

George Orr tem uma característica incomum: muitos dos seus sonhos tornam-se realidade, no verdadeiro sentido da palavra, desde que sejam sonhos “eficazes”. Para muitos esta característica levaria a uma exclamação do tipo: “olha que bom!” mas para Orr é mais uma maldição que ele quer evitar de qualquer forma. Esta luta leva-o a tentar não sonhar e a consumir fármacos que o ajudem a não dormir. Numa sociedade em que o que cada um consome é controlado e doseado, rapidamente descobrem que anda a utilizar cartões de outras pessoas para se abastecer. Como é uma pessoa pacífica, a penalização passa apenas por tratamento psiquiátrico junto de um especialista em questões de sono.

Haber, assim se chama o psiquiatra, vê naquele doente um manancial de descobertas e de possibilidades de alterar quer a sua vida pessoal, quer a sociedade em que vivem. E assim se vai desfolhando o livro de alteração em alteração do mundo, da sociedade e deles próprios.

A autora chama-nos a atenção sobre a avidez humana pelo poder, por querer sempre mais, pois paralelamente ao desejo de mudar o mundo, torná-lo mais humano, há o desejo pessoal, há o conflito armado, a guerra latente que de uma forma ou de outra está sempre presente. As mudanças trazem sempre outras mudanças associadas e é um caminho sem fim.

É um livro interessante que tem um final curioso. Recomendo a quem gosta de Ursula Le Guin e a quem nada leu da sua vastíssima obra também o recomendo, se bem que aconselharia a começar por outros livros, a saga Earthsea por exemplo.


Edição ou reimpressão: 04-2004
Editor: Editorial Presença
Páginas: 180
Coleção: Viajantes no Tempo
ISBN: 9789722331562








terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"O meu nome é vermelho" de Orhan Pamuk




SINOPSE


Orhan Pamuk é o grande vencedor do prémio Nobel da literatura 2006. A Academia Sueca não lhe poupou elogios: «na procura pela alma melancólica da sua cidade natal descobriu novos símbolos para o confronto e entrelaçamento de culturas». Um dos mais reconhecidos romancistas, Pamuk tem o seu trabalho traduzido em 45 línguas. Nos seus livros, os leitores são levados a submergir num labirinto de histórias e crenças, onde as personagens com as quais nos identificamos podem a qualquer momento tornar-se estranhas, avançando noutra direcção, para outra vida ou outra cultura. A sua cidade de origem é uma referência incontornável no percurso literário do Nobel, um local onde os leitores de todo o mundo podem viver outra vida com o sentimento de que aquele lugar também lhes pertence.

Em O Meu Nome É Vermelho, inicia-se uma viagem até Istambul, do século XVI onde um iluminista da corte aparece morto no fundo de um poço. A partir daqui desenrola-se uma história que pode ser lida não só como um mistério, mas também como uma história de amor. A narrativa desenrola-se em torno das investigações deste homicídio, sendo contada alternadamente por diferentes personagens, a maioria humanas, mas também por animais e objectos. Um romance exótico onde se espelha a tensão entre Ocidente e Oriente.





A conselho de uma amiga comprei na Feira do Livro (a um preço mais convidativo) o meu primeiro livro de Orhan Pamuk, escritor turco que recebeu o Nobel da literatura em 2006. Não conhecia nada deste autor e fui surpreendida pela sua escrita muito agradável e pelas inúmeras histórias que enchem as páginas desta belíssima obra. 

Orhan Pamuk transporta-nos para o final do século XVI , em Istambul, para o seio da comunidade de miniaturistas que trabalham para o sultão otomano. Com eles percorremos um caminho traçado de histórias, crenças, de paixões e questões metafisicas e religiosas que se entrelaçam entre o Ocidente e Oriente. 

A história principal é simples: um miniaturista é encontrado morto num fundo de um poço e importa pois descobrir quem o matou. No entanto é a partir deste crime que o autor nos leva aos meandros da arte e da sua representação, das pinturas orientais e das influências cada vez mais fortes (na época) das tendências ocidentais, nomeadamente da perspectiva e do retrato. 

O sultão encomendara a execução de um livro secreto, que seria um presente para uma comitiva veneziana e as suas iluminuras deveriam retratar a glória do império otomano através da arte islâmica. Quatro miniaturistas desenvolviam o trabalho, tendo como orientador o “Tio” que servia de elo entre estes e o próprio sultão, e que pretendia tornar esta obra num exemplar único em toda a arte otomana. Com a morte de um deles todos os outros se tornam suspeitos e as pistas são as próprias miniaturas que produziram. Paralelamente o romance surge, envolvendo dois dos protagonistas principais e com ele surge também todo o ambiente próprio da época à roda da alcoviteira que leva e traz bilhetes e recados no meio das suas trouxas de roupas. 

Uma das questões verdadeiramente fantásticas neste livro, na minha opinião é claro, é a narrativa ser contada por todas as personagens, ou seja todas elas intervêm directamente com o leitor e contam a sua versão ou opinião sobre os factos. As personagens são desde o cadáver que conta o que lhe aconteceu, ao assassino que, sem se identificar, explica as razões que o levaram a tomar aquela atitude, a todos as outras que se ligam ao ambiente onde se desenvolve a acção e mesmo um conjunto de personagens completamente inesperadas, como uma árvore, a morte, o dinheiro (hilariante!), a cor vermelha e mesmo um cão que explica as desventuras sobre a interpretação do Alcorão para denegrir a bom imagem da raça canina.

No entanto o mais fascinante da obra é que, ao colocar a história nas várias personagens que a vão narrando, Pamuk dá-nos uma visão muito mais abrangente do que apenas a abordagem estilística do romance, dá-nos a visão de cada um do mundo que o rodeia, os seus medos, as suas crenças, as suas críticas e espectativas sobre a sua própria vida. É sobretudo a visão do ser humano e do nosso autoconhecimento face a um acontecimento que acaba por ser a questão central do livro. 

“O meu nome é vermelho” foi publicado em 1998 e recebeu o prestigiado prémio, cinco anos depois, IMPAC Dublin Literary Award.




Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 480
Editor: Presença
Colecção: Grandes narrativas
ISBN: 9789722338349