sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

As Regras de Verão de Shaun Tan

É verdade que tenho estado um bocado ausente e muitos livros esperam calmamente, ali encostados numa pilha, que eu escreva algumas linhas sobre eles. 

Pois bem, a fase de ausência está afastada e começo por um dos meus escritores/ ilustradores favoritos. Já aqui dediquei uma semana a ele, comentando diariamente cada um dos seus livros que eu tinha e agora regresso a ele com o seu mais recente livro editado em Portugal.





“As Regras do Verão” de Shaun Tan


Talvez as saudades dos dias quentes e solarengos do Verão fizeram com que escolhesse este livro, no meio da pilha.

Quantos de nós não teve já aquela sensação de que o ano começava verdadeiramente após o Verão? Após as férias, onde tudo acontecia, onde crescíamos muito mais em crianças e onde o inicio pós férias grandes era a grande etapa que só culminaria no próximo Verão?

Pois é com este espírito que me chegou a mensagem que Shaun Tan quis passar com estas “regras de Verão”. 




Uma história de cumplicidade entre dois irmãos, sempre presentes, onde o mais velho vai protegendo e auxiliando o mais novo e ditando-lhe as regras pelas quais passa o seu crescimento, tal como aconteceu com ele no ano anterior.














“Foi isto o que aprendi no verão passado: “





Assim começa o autor. As regras surgem, uma a uma, como que certezas nesse mundo onde todos mergulhámos um dia enquanto crescemos. Nesse espaço temporal, onde existe um vaivém de incertezas e de perguntas que não são respondidas e que nos levam a questionar : “mas porquê?” e em que as respostas são quase sempre: “porque sim!”

“Nunca quebres as regras. Sobretudo se não as compreendes.”

Página a página, elas desfilam perante os nossos olhos como inabaláveis. As imagens são marcantes, como avisos gigantes do perigo em que ocorremos se as quebramos!



Algumas são regras que pertencem ao bom senso e com as quais temos de aprender a viver e que são claramente óbvias na linguagem do autor.
















“Nunca dês as tuas chaves a um estranho.”



Outras, porém, são bastante mais liminares e como que fazem parte de um conjunto de situações instituídas pela sociedade em que vivemos.











“Nunca comas a última azeitona numa festa.”




Outras são o reflexo de algo superior, de algo que tem poder. Um poder paternal, ou judicial…


“Nunca discutas com um árbitro.”

ou o cuidado com os mais frágeis, os mais simples, a natureza....


"Nunca pises um caracol."

ou mesmo um poder por si só, mesmo que não se compreenda …

“Nunca perguntes o porquê.”

Um mundo próprio do autor passa através dos seus desenhos. As personagens já nossas conhecidas: animais gigantescos que deambulam pelas ruas estreitas, figuras mecanizadas vivas e inertes que interagem com as crianças. O fantástico aliado ao realismo de um mundo onde as regras são mesmo para cumprir, mesmo que não se saiba porquê….




As cores são pinceladas fortes que enchem as páginas e que nos prendem a cada pormenor. Cada imagem é um mundo de imagens, vemo-las e tornamos a descobrir novos pormenores, novas figuras da vez seguinte.











Muito bom, como Shaun Tan já nos vem habituando.





"Nunca percas o último dia de Verão.

E é tudo.”




Título: As Regras do Verão
Autor: Shaun Tan
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 46
Editor: Kalandraka
ISBN: 978 989 749 021 7

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A Lenda de Jack O'Lantern

Hoje, na noite de Halloween partilho convosco uma história sobre uma personagem que todos conhecem, mas que poucos conhecem (penso eu) a sua origem.

Jack O'Lantern é uma história tradicional irlandesa e que foi levada pelos emigrantes deste país para os Estados Unidos, constituindo uma figura central nas comemorações deste dia.




 “A LENDA DE JACK DA LANTERNA”


Há muito tempo atrás, vivia na Irlanda, um homem de nome Jack que era muito grosseiro para todas as pessoas. Jack não respeitava ninguém: maltratava a esposa, os filhos, os amigos... Aliás, ele não tinha mais amigos, justamente por causa dessa forma grosseira com que os tratava. Jack fazia tantas coisas erradas, era tão sem escrúpulos que foi apelidado de "Jack Miserável". 

Um dia o Diabo estava a ver a Terra através do fogo mágico do inferno e viu Jack. Ele viu um Jack maldoso, do qual gostou muito. Daí em diante, todos os dias, o Diabo tirava um tempo para se divertir com as maldades que Jack fazia. Decidiu que, quando Jack morresse, iria morar com ele no inferno, mas Jack estava ainda longe da sua hora da morte e como o diabo tinha muita pressa em ter a sua companhia, decidiu ir até à Terra e trazê-lo para o inferno de uma vez por todas. 

Quando o Diabo chegou, Jack estava numa taberna sentado à mesa com o seu modo grosseiro de sempre exigindo da taberneira uma garrafa de vinho. 

O Diabo sentou-se à sua mesa e antes que Jack reclamasse alguma coisa, disse numa voz tenebrosa: 

̶ Jack... Chegou a sua hora... Vim para levar a sua alma... Ela pertence-me. Como a morte ainda está longe, eu vim reivindicá-la pessoalmente, pois não quero extravios... Você, Jack é um de meus súditos mais perfeito no que diz respeito à maldade. Não vou permitir que se torne uma alma boa... Você diverte-me muito... Quero-o na minha casa, e já... 

Jack assustou-se, mas como sempre foi um bom burlador, não se intimidou. Disse ao diabo: 

̶  Mas o senhor chegou muito cedo. Eu ainda não bebi nem um gole do vinho que acabei de pedir... Não, eu não estou pronto ainda. Se quiser levar-me, vai ter de esperar que eu beba o melhor vinho da minha vida! E para não ficar aí sem fazer nada, eu o convido a saboreá-lo comigo. Afinal, com o calor que faz na sua casa, duvido que já tenha alguma vez tenha bebido algo tão bom. 

O diabo animou-se e aceitou o convite. O vinho era tão bom que uma única garrafa não foi suficiente para os dois. Tomaram várias garrafas até que o diabo reclamou que estava na hora de irem andando. 

̶  Vamos embora, meu seguidor! A sua hora chegou... Pague a conta e vamos... 

Jack, que era muito finório, enfiou a mão no bolso para tirar o dinheiro. O Diabo não lê o pensamento dos homens e por isso não podia ler o que Jack estava a tramar. Assim, Jack fez de conta que apanhou um susto: 

̶  Eh! onde está o meu dinheiro? Parece que algum ladrão roubou-o sem que eu percebesse... E agora? Como vou pagar essa conta? 

̶ Nem mais... Irás pagar como sempre fizestes, passando a perna na taberneira. – Disse calmamente o diabo que de maldade entendia muito bem, mas Jack retrucou dando um pulo: 

̶  Isso é que não! Se tem uma coisa que nunca deixei de fazer foi de pagar a conta do vinho que bebo. Está a pensar que vou deixar essa gentalha pensar que vou embora? Não, de jeito nenhum! Não saio daqui sem pagar minha conta! E começou a berrar. 

O Diabo, temendo chamar atenção sobre si, começou a ficar nervoso. Perguntou a Jack: 

̶  O que é que você propõe que se faça para resolver o problema? 

Esta frase era tudo o que Jack queria escutar. Rapidamente apresentou a proposta: 

̶  Você disse que é o Diabo, certo? 

̶  Sim, eu sou o Diabo. 

̶  Pois então... Você não é o todo poderoso que se pode transformar em qualquer coisa? 

̶ Mas é claro que sim, – disse o Diabo todo orgulhoso. – E o que isto tem a ver com sua história de pagar a conta? 

̶ Você transforma-se em dinheiro. Eu pago a conta e depois transforma-se novamente e encontra-se comigo lá fora. 

O diabo pensou que Jack estava a querer fugir da taberna. Deu um sorrisinho maroto e disse para si mesmo: 

“Esse esperto está a pensar que pode fugir de mim. Vou fazer o que ele quer e quando ele menos esperar, eu me materializo ao lado dele, eh eh.” 

E ZUUUPPT XÁ! Bem rápido, num milésimo de segundo o diabo transformou-se numa moeda de ouro sobre a mesa. 

Mais que rápido que nunca, Jack apanhou a moeda. Contudo, ao invés de pagar a conta, ele guardou-a numa sacola para moedas que tinha um crucifixo gravado no couro. O Diabo ficou preso. Não podia sair do porta-moedas de Jack. Apanhado numa ratoeira, começou a implorar que o tirasse dali. Jack, esperto, propôs: 

̶   Eu tiro-o daí sim, mas só se você me prometer uma coisa... 

̶  Diga logo o que quer. – Retorquiu o diabo. 

̶  Pois muito bem, eu quero que você me deixe em paz por um ano. Depois de um ano pode vir buscar-me. Eu ainda quero ficar por aqui um pouco mais. 

Nesse momento Jack pensou que, se dentro de um ano ele se tornasse um homem bom, o diabo não iria querer levá-lo. O Diabo, porém, tinha uma norma que não deixava de seguir: quem fizesse um pacto com ele tinha que cumprir. Muito esperto, o diabo perguntou a Jack: 

̶ Quer dizer que se eu o deixar em paz por um ano, quando eu voltar para o levar, você promete que vai comigo sem reclamar? 

̶  Prometo. – Disse Jack. 

O Diabo tornou a perguntar: 

̶  Quer dizer que você está a fazer um pacto comigo de que se eu o deixar em paz por um ano você vai comigo quando eu o vier buscar? 

̶   Sim. é isso mesmo que eu estou a dizer. 

O Diabo deu um risinho de canto de boca e respondeu a Jack: 

̶   Pois então, pacto feito! 

Jack respirou aliviado. Tirou a moeda da carteira e colocou-a de volta ao tampo da mesa. O diabo voltou à sua forma e falou: 

̶  Pacto feito, Jack! Daqui a um ano, no dia 31 de outubro, eu volto para o levar. 

E assim falando, desapareceu numa nuvem de fumo deixando um enorme cheiro de enxofre no ar. 

Jack respirou aliviado. Ele não sabia que um pacto feito com o diabo não podia ser desfeito. Mesmo assim, tomou a decisão de ser uma pessoa melhor. Pagou a conta e saiu da taberna em direção a sua casa. 

A partir daquele dia Jack resolveu mudar seu modo de agir e começar a tratar bem a esposa e os filhos, passou a ir à igreja e até mesmo a fazer caridade. 

No entanto, ao fim de algum tempo, não estava satisfeito com sua nova vida. Afinal, ele gostava mesmo era de ser malvado, por isso a mudança não durou muito tempo! Um belo dia esqueceu-se do pacto que tinha feito com o diabo e voltou a ser uma pessoa ruim. 

Chegou novamente o dia 31 de outubro. 

Jack estava de regresso a casa, depois de uma noite de farra, quando o Diabo apareceu. Apanhou um susto, mas esperto, fez de conta que não se assustou. 

̶ Bem vindo, Diabo, como demorou! 

O Diabo espantou-se com a atitude de Jack: 

̶  Não me diga que estava ansioso que eu chegasse... – Disse desconfiado. 

Jack apressou-se a explicar: 

̶  Pois é, estava sim... É que a semana passada, quando vi essa macieira carregada, fiquei a pensar em como deve ser bom assar maçãs lá no braseiro da sua casa... 

O Diabo sorriu... Olhou a macieira e pensou que seria uma novidade no inferno... Chegou até a sentir o cheiro das maçãs assadas... Quando Jack viu o olhar sonhador dele, e a sua língua a passar sobre os lábios, lambendo-os, viu que o ele iria cair na sua conversa. Colocou o seu plano em ação: 

̶ É, seria bom... Pena que não vai poder ser... – Jack falou como quem estava pensativo, meio lamentando... e suspirou dizendo rápido: 

̶ Bem, estou pronto, Diabo. Pode-me levar. 

O diabo espantou-se com a pressa e perguntou: 

̶  E as maçãs assadas? 

Jack viu que o seu plano estava a dar certo. Respondeu, olhando a copa da macieira carregada, como quem estava desanimado e resignado: 

̶  Deixa para lá... Não vai dar certo mesmo... 

̶  Por que não vai dar? – Perguntou o Diabo mais curioso ainda. 

̶ Ora, eu não vou poder colher maçãs, pois não sei subir à macieira e você, com certeza, sendo o rei dos infernos, não vai querer subir a essa árvore para colher maçãs como um empregado qualquer. Portanto, vamos embora e que as maçãs fiquem aí. 

Desta forma, Jack convenceu o Diabo a pegar umas maçãs da árvore para levar para assar no inferno. Quando o diabo subiu no primeiro galho, Jack tirou um canivete do seu bolso e desenhou uma cruz no tronco. Assim o Diabo ficou preso na árvore e não pode mais descer. Desesperado começou a implorar a Jack que o tirasse dali. Mas este retorquiu dizendo que ainda era muito cedo para morrer. O Diabo, então, promete partir por mais dez anos. 

Jack não aceitou a proposta. O Diabo então perguntou-lhe: 

- O que, então, você quer para me tirar daqui? 

Jack sorriu, maravilhado. Ele podia pedir tudo ao Diabo naquele momento... 

̶  Eu tiro você daí se você prometer fazer de mim um homem muito rico e que nunca mais virá para me aborrecer. 


- Está bem, - disse o Diabo já a pensar em ir embora sem atender ao pedido de Jack, mas este lembrou-se das palavras dos pactos. O Diabo não disse "Pacto feito" disse "Está bem" e ele sabia que bem, Diabo não faz. 


̶ Está bem, não. Quero saber se o Pacto está feito. Como é Diabo... Pacto Feito? 

O Diabo perdeu a esperança de enganar Jack. Poderia até tentar outros truques, mas a cruz que tinha na árvore já o estava transformar em árvore para sempre. Se demorasse mais um pouco nunca mais ele seria o Diabo outra vez. Não lhe restou outra alternativa senão aceitar o pacto.

̶  Pacto feito! Pacto feito! Tire-me daqui! 

Jack libertou-o. Assim que se viu livre, o Diabo, deu a Jack o prometido e foi-se embora danado da vida por ter-se deixado enganar mais uma vez. Jurou, no entanto, que um dia Jack pagaria por ter gozado com ele. 

O tempo foi passando e Jack ficou velho. Certo dia ele apanhou uma gripe muito forte e como continuava a ser uma pessoa muito malvada, não achou quem quisesse cuidar dele. Resultado: Jack foi piorando... Piorando... Até que um dia ele morreu. 

A sua alma saiu do corpo e voou até a porta do Céu. Quando chegou lá, Deus disse-lhe que não podia ficar no céu, pois lá só podia entrar quem tivesse sido uma boa pessoa na Terra. Jack tentou até enganar Deus, mas acontece que Deus sabe tudo o que se passa no coração do homem e também na sua mente e assim, Jack não conseguiu entrar no Céu. 

Sem outra alternativa, ele foi para o inferno. Mas o Diabo quando o viu, disse-lhe: 

̶ Ah, não! Aqui você não entra. Você enganou-me duas vezes; não vai enganar-me pela terceira vez. Pode ir embora daqui. 

Jack olhou em volta e não viu nada. Tudo era apenas uma enorme escuridão. Ficou apavorado. O inferno era quente, mas ele pelo menos já conhecia o Diabo... Se nem o Diabo o queria, o que iria fazer? Começou a chorar. Para sua surpresa, o Diabo deu-lhe uma brasa dizendo: 

̶ Não sou tão ruim como você, Jack. Tome essa brasa em consideração aos divertimentos que você me proporcionou quando o acompanhei na Terra através do meu fogo mágico. Que ela possa iluminar os seus caminhos quando caminhar pelo limbo, rá, rá, rá, rá... Tome cuidado, pois se ela se apagar você ficará no escuro para sempre. – E assim dizendo, deu mais uma gargalhada infernal e fechou a porta do inferno. 

Jack olhou a brasa e viu que ela começava a apagar-se. Desesperado, olhou em volta e viu um nabo oco no chão. Apanhou o nabo e colocou a brasa dentro dele para que durasse mais e saiu perambulando pela escuridão. 

Andou, andou e muito tempo se passou até que um dia ele encontrou uma bruxa que estava morrendo de frio. 

A bruxa carregava uma abóbora. A sua intensão era plantar as sementes pois sabia que as abóboras simbolizavam fertilidade e sabedoria, mas quando passou pelo limbo, não suportou o frio. Para sorte dela, nesse dia encontrou que se sentia muito só … 

Ele sentou-se perto da bruxa, colocou as mãos dela em volta do nabo onde estava a brasa e ajudou-a a se aquecer-se com o calor que emanava dele. 

A bruxa recuperou as suas forças e para agradecer a Jack pegou na sua abóbora, retirou os caroços, desenhou olhos, nariz e uma boca sorridente. Em seguida fez um corte nesses desenhos de forma a abrir buracos como se a abóbora fosse uma cara. Colocou a brasa dentro dela, recolocou a tampa por onde tinha retirado as sementes, amarrou uma corda de um lado e outro da abóbora, de forma a fazer uma alça, e entregou-a a Jack dizendo-lhe: 

̶  Não o posso tirar daqui, pois você contrariou até o próprio Diabo e não chatear alguém tão poderoso quanto ele. Verifiquei que foi o próprio diabo quem lhe deu essa brasa... Por isso coloquei-a dentro desta abóbora onde esculpi esta cara. Aqui dentro a brasa não vai apagar-se nunca mais e quando chegar o dia 31 de outubro, único dia em que os mortos poderão visitar a Terra, você coloca a abóbora na cabeça e usa essas correntes com essa lanterna. A abóbora vai esconde-lo e o fogo não o vai queimar pois nesse dia, assim que você colocar a abóbora na cabeça, ele vai para dentro da lanterna que as correntes têm na ponta. Assim disfarçado, o diabo não vai saber que você saiu do Limbo. Agora não se esqueça, você só poderá fazer essa transformação e ir à Terra no dia 31 de outubro e tem de voltar antes do nascer do sol. 

Depois desta conversa a bruxa montou na sua vassoura e foi embora. Jack ficou lá, caminhando na escuridão que agora estava bem mais iluminada, graças à abóbora da bruxa. 

Nesse dia ele decidiu que todo dia 31 de outubro iria à Terra e quando visitasse as pessoas ele lhes perguntaria: 

̶  Durante o ano você fez doces, ou fez travessuras?




 Espero que tenham gostado e vocês durante o ano : doçuras ou travessuras ?

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pavana de Keith Roberts

 

Sinopse

E se, em 1588, a bala de um assassino pusesse fim ao glorioso reinado da rainha Isabel de Inglaterra? A partir desse momento toda a história do mundo seria diferente. A Invencível Armada de Filipe II invade as ilhas britânicas. Os reis católicos tornam-se senhores incondicionais de Inglaterra. A Igreja Anglicana tomba por terra. Mais tarde, a Revolução Industrial é estrangulada à nascença. Os Papas ordenam autos-de-fé para reprimir os embriões da tecnologia, cessando assim todo o progresso científico. E o frenesim da história transforma- -se numa lenta Pavana que agoniza através dos séculos. Mas, algures, uma mão cheia de revolucionários, artistas e homens de ciência, combatem pela salvação ou ruína da espécie humana.


Confesso-vos que quando iniciei a leitura deste livro, esperava algo diferente, mas página após página, fui entrando num mundo desconhecido, que me seduziu pelas suas descrições, pelas suas histórias perfeitamente escritas e que se interligam na sua independência.

“Pavana” é um mosaico de histórias, um mosaico de vidas e gerações que nos falam de uma Inglaterra completamente diferente daquela que conhecemos hoje. Uma Inglaterra que viu a sua rainha Isabel I assassinada, a queda da reforma protestante e a ascensão da igreja católica que controlava metade do mundo.

Em pleno século XX (a história começa em 1968), o desenvolvimento tecnológico é praticamente inexistente, sendo considerada como heresia qualquer tentativa de desenvolvimento de outras tecnologias para além da energia a vapor. A Inquisição está forte e o sistema feudal bem vivo!

A primeira história apresenta-nos Lady Margaret (uma locomotiva a vapor) e a família Strange. O negócio de família permite que criar uma grande riqueza, com as suas locomotivas transportam mercadorias para todos os pontos do país.

A segunda história dá-nos a conhecer a Guilda dos Sinaleiros através de Rafe Bigland, uma aliança muito forte, uma irmandade que trabalha fora da alçada da igreja,.

O irmão John, na terceira história, apresenta-nos um monge que é chamado para um trabalho muito especifico: desenhar o que vê durante o funcionamento interno da inquisição, as torturas, os inquéritos. Estes acontecimentos levam-no a repensar a sua vida e a aliar-se aos rebeldes e ganhar a inimizade com a igreja.

Novamente a família Strange, numa outra geração, traz-nos uma quarta história que prepara o terreno para o desenlace final. O sentimento de liberdade de uma jovem é o tema da quinta história e de novo a família Strange preenche os capítulos seguintes até ao final do livro.

As personagens são muito humanas, com as suas fragilidades, aspirações, hesitações, dando-nos conta de quão frágil é o ser humano.

As histórias podem ser lidas de forma quase independente, ilustrando momentos da vida neste mundo controlado pela igreja. Mas a narração adquire a sua força pela justaposição de situações, personagens e eventos.

A comunicação assume um papel importante neste mundo sem progresso, no capítulo dois é escrito em detalhe a estrutura e a gestão das “luzes sinaleiras” , bem como a longa preparação na arte de codificar e descodificar as mensagens que são enviadas e recepcionadas em cada torre. A Irmandade dos sinaleiros, criou as regras e os sinais de um sistema único em que só quem pertence a esta irmandade o pode fazer. Em qualquer mundo desenvolvido, a comunicação é um dos factores chave para esse desenvolvimento e progresso, um fluxo difícil, hermético e subsequentemente controlado de mensagens é o primeiro sinal de uma sociedade que nunca poderá vir a modernizar-se e a evoluir.

No entanto, paralelamente, vimos a descobrir que estes “irmãos sinaleiros” têm um outro método para comunicar, muitíssimo mais rápido, através de terra ou mar e que está sem dúvida ligado a outras ciências ocultas, como por exemplo a magia.

Surge então um outro mundo paralelo à história central de Pavana, um mundo da antiga religião, o mundo das fadas, “as pessoas pequenas” que vivem nas florestas, mas que surge de uma forma muito subtil, sem que se perceba muito bem qual o papel directo deste seres. São elas a ligação com o feminino, para além da sua ligação à irmandade dos sinaleiros? Serão as mulheres um sinónimo de rebelião? É delas que nasce a força para a mudança?

A linguagem é lenta e as descrições são pormenorizadas, criando um ritmo que para alguns poderá ser considerado monótono. Não há acontecimentos surpreendentes e que nos arrebatam no meio da leitura. Keith Roberts escreve num tempo próprio, em que a narrativa aparece imbuída de um certo fatalismo, em que os personagens não parecem donos do seu destino, há uma força na história que os controla e a igreja que controla tudo.

No último capítulo “Coda” tudo se resolve, é a reviravolta, o desenlace de todas as outras histórias que estão interligadas quer no tempo quer nos personagens.

Não é difícil alongar-me neste comentário sobre Pavana, pois há muito por dizer. No entanto acho que não o devo fazer. É um livro que se descobre em si mesmo, tem de se ler nas entrelinhas e no que está por detrás do enredo principal, pois se não o fizermos, poderemos ter a sensação de estarmos a ler um livro sem nexo e com personagens e histórias que nada tem a ver umas com as outras.

Keith Roberts foi, na minha opinião, bastante ambicioso com este livro, no entanto terá conseguido atingir o seu objectivo final? Não sei responder… Para mim, é um livro muito bom, muito bem escrito, de uma forma subtil que despertou todos os meus sentidos na sua leitura, pois tem de se ler o que está na conjugação das palavras e frases e o que não está.

Há um toque de magia muito ténue e subtil por detrás de tudo, até na forma como o lemos.

Recomendo? – perguntam-me vocês. Também não sei responder… ou seja, eu recomendo, mas sei certamente que muitos acharão uma grande seca! Não esperem grandes acções ou movimentações, leiam-no desprovidos de expectativas e leiam nas entrelinhas, na escrita fantástica de Keith Roberts e gostarão certamente como eu gostei (assim o espero…).


Título: Pavana
Autor: Keith Roberts
Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 208
Editor: Saída de Emergência
ISBN: 9789896370602




terça-feira, 1 de julho de 2014

O Prestigio de Christopher Priest






Sinopse:
“O Prestígio é uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Actuando nas luxuosas salas de espectáculos vitorianos, dois jovens mágicos entram num feudo amargo e cruel, cujos efeitos podem ser ainda sentidos pelas respectivas famílias mais de um século depois.
Os dois homens assombram a vida um do outro, levados ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. O segredo da magia é simples, mas para os antagonistas o verdadeiro mistério é outro, pois ambos os homens têm mais a esconder do que apenas os truques da sua ilusão.” 






Dois mágicos, no final do século XIX / início do século XX, criam um mundo de ilusão e de magia, cujo epicentro se localiza num truque que ambos desenvolvem, de formas diferentes, mas que lhes suscita a rivalidade angustiante entre ambos, uma disputa trágica que terminará por afectar as gerações futuras.

Nenhum mágico revela os segredos de outro mágico. Este código de conduta no mundo do ilusionismo, é a fronteira fragilizada que separa Alfred Borden de Rupert Angier . 

Escrito de uma forma extremamente cativante e com uma linguagem simples, o livro desenvolve-se em várias partes, dando-nos a conhecer a história de vida e as implicações destes dois ilusionistas até aos dias de hoje. Através dos seus diários, assistimos ao desenvolvimento das suas carreiras, a escalada no mundo do espectáculo, as suas ambições e decepções até se tornarem ilusionistas mundialmente famosos.

Na primeira parte, Andrew Westley, um jovem jornalista é chamado a fazer a cobertura de um caso estranho. Adoptado e sem conhecer os seus pais biológicos, ele é surpreendido por um diário do seu, desconhecido, bisavô Alfred Borden que lhe é entregue pela bisneta de Rupert Angier.

Longe de imaginar o que este diário lhe irá revelar, Andrew descobre os grandes segredos do ilusionismo e dos triunfos do um mundo, onde as novas tecnologias e descobertas científicas, do inicio dos século XX, deixam marcas difíceis de esquecer.

Na segunda parte, o diário de Alfred Borden, dá a conhecer o homem , o mágico, a sua obsessão ao mesmo tempo que a sua admiração pelo rival e finalmente o seu número mais ousado.

A bisneta de Angier apresenta-nos, numa terceira parte, a investigação que tem feito no sentido de perceber o que está por detrás desta contenda que afecta a vida presente dos dois descendentes. O que realmente se passou e o que realmente ainda se passa…

O diário meticuloso de Rupert Angier, revela-nos, na quarta parte do livro, o homem que procura no sobrenatural, a explicação real dos seus truques, das suas ilusões e na ciência a procura do inexplicável.

E no final, uma última parte em que o mistério é desvendado, em que o pano cai e deixa que observemos os truques bem de perto, tão de perto que tal como um mágico encobre os segredos de outros mágicos, também eu não posso revelar os segredos escondidos e bem guardados por Christopher Priest até às ultimas páginas. 

O livro, bem como os truques de um ilusionista, passa por três estágios: o primeiro, a proposta, em que somos confrontados com a apresentação do acontecimento, com a realidade dos factos, o segundo a performance, isto é o acontecimento em si, a ilusão, aquilo que o autor ou o mágico quer que vejamos, em que nós leitores somos como que “empurrados” para ver o acontecimento de determinada forma ( a cartola do mágico que nada tem lá dentro) e o efeito final (o coelho que sai da cartola, onde nada existia), onde somos surpreendidos até ao último paragrafo.

Ambos os ilusionistas desenvolvem um número que parece desafiar todas as leis da física, na ideia de se suplantarem um ao outro. No entanto nada do que parece é, neste livro que desafia os nossos sentidos, como um verdadeiro truque de magia.

Borden consegue-se “auto transportar” em fracção de segundos, entrando num armário numa ponta do palco e saindo noutro situado na extremidade oposta do palco, O Homem Transportado. Angier sem conseguir desvendar o segredo de Borden, tenta superá-lo com a ajuda de um cientista, meio louco. Nikola Tesla , e apresenta “Num Relâmpago”, um número que conta com a utilização de um aparelho, desenvolvido por Tesla, e que é capaz de transportar um ser de um local para outro, mas com um surpreendente efeito colateral….

Um livro excelente, em todos os aspectos, que recebeu o James Tait Black Memorial Prize de melhor ficção, e o World Fantasy Award de melhor livro. 

É uma pena que ele esteja colocado, com tão pouca “importância” nos escaparates das livrarias, pois acaba por não causar um impacto que bem merecia.

Por favor, peguem e leiam-no, porque vão ficar alegremente surpreendidos. Obrigado a todos os que me aconselharam a sua leitura.


O Prestigio de Christopher Priest
Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 314
Editor: Saída de Emergência
ISBN: 9789896370527




terça-feira, 17 de junho de 2014

Bill o Herói Galáctico de Harry Harrison


Sinopse

"Sem saber bem como, Bill alista-se nas poderosas forças do Império Galáctico. Sem saber como, vai parar ao labirinto de aço que é o planeta Heliar, o centro daquela Idade Negra do Espaço. Sem saber como, vê-se envolvido numa tremenda batalha interestelar. E sem saber como, vê-se tornado num herói, depois do que volta ao seu pobre planeta, à sua pobre aldeia, para convencer outros jovens a alistarem-se - sem saberem como, nem para onde, nem porquê.
Bill, o Herói Galáctico, é uma das mais interessantes obras de Harry Harrison, um dos mais célebres autores de FC - uma obra em que o militarismo, a burocracia e a hipocrisia são objecto de uma crítica tão severa quanto divertida. Uma crítica que dá muito que pensar porque, situando-se no futuro, olha para o presente."

Um pequeno livro fantástico desta enorme colecção que é a Argonauta.

Depois de ler "A Oeste do Éden" do mesmo autor (podem ver o comentário aqui ), confesso-vos que fiquei com vontade de ler muito mais de Harry Harrison, e assim que me sugeriram este, não hesitei.

Bill era um jovem que apenas ambicionava dedicar-se á agricultura num pedaço de terra, perto da aldeia onde vivia pacatamente com a sua mãe, irmão e um robot- mula, em Phigerinadon Il, planeta membro de um grande império galáctico, que alguns supunham ter tido origem num velho e decrépito mundo conhecido como Terra, localizado à beira da galáxia.

Certo dia a sua vida mudou radicalmente.

Num dia de intenso calor, enquanto observava o traseiro, cor de açúcar de Inga-Maria Calyphigia, que se banhava no rio, acabou por ser recrutado, sem saber bem como, pelas forças armadas que serviam o Imperador.

Começou aqui um percurso militar, que o arrastou pelo espaço à procura do inimigo, detectando os seus agentes infiltrados, entre os colegas, e combatendo-o. Transformou-se num herói, perdeu um braço, mas rapidamente lhe deram outro… azar… era de cor diferente e igual ao que ainda tinha… ou seja, ficou com dois braços direitos…. até que dava algum jeito ….

O Império em nada se importava com os seus heróis e muito menos com o seu povo e só combater o inimigo interessava. Estavam em guerra e a guerra no espaço era tão má como qualquer outra.

Para receber a medalha do seu feito heróico, dirigiu-se Heliar, o centro poderoso daquela Idade Negra do Espaço, mas na sua visita pela cidade, perde os planos de orientação e sem eles é impossível sobreviver nesse planeta de aço, ou quase… desde que se compactue com a sociedade corrupta e decadente de Heliar.

Mais não vos posso contar, mas posso certamente referir-vos que a escrita simples de Harry Harrison, misturada com o seu humor tornam este livro fantástico.

Uma das melhores e mais mordentes sátiras que já li aos sistemas militaristas aliados a uma componente fortemente burocrata e a um forte sentimento xenófobo.

Delicioso e divertido como poucos. O autor consegue misturar a FC com uma critica social humoristica de uma forma magistral.

Se já queria ler mais de Harry Harrison, agora vou sem dúvida querer ler ainda mais.

Apenas fiquei com uma dúvida. Será que Harrison tem alguma coisa contra os lagartos? Uma vez que em ambos os livros que li dele os inimigos são seres pertencentes a uma raça altamente desenvolvida, mas em ambos os casos  repteis .... Será que alguém me pode responder?


Bill o Herói Galáctico
de Harry Harrison
Tradução de Eurico Fonseca
Edição/reimpressão: 1987
Páginas: 178
Editor: Livros do Brasil
ISBN: 9789723800890
Coleção: Argonauta

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"As Fogueiras de Deus" de Patricia Anthony

Serão anjos com a palavra de Deus? Ou serão demónios enviados 
para desviar as pessoas da verdadeira fé?


Sinopse

Um romance histórico com laivos fantásticos, passado no Portugal medieval.
Em Portugal, onde a Inquisição é a única detentora da verdade, o padre Manoel Pessoa começou a escutar estranhas confissões dos habitantes de Quintas, um povoado perto de Mafra. Falam de inexplicáveis luzes no céu... De anjos que se deitam com as mulheres da aldeia... De virgens que dão à luz....
Mas o mais estranho é que algumas pessoas, incluindo Sua Majestade, o rei Afonso, viram um navio em chamas a cair dos céus. Do seu interior surgiram criaturas fascinantes no seu silêncio e grandiosas na sua estranheza. Serão anjos com a palavra de Deus? Ou serão demónios enviados para desviar as pessoas da verdadeira fé? A Inquisição está determinada a descobrir a verdade... e talvez não falte muito para que o cheiro das suas fogueiras se espalhe pelo reino.

Por certo, existem inúmeros livros que nos falam deste período da História da Humanidade, quer históricos, quer romanceados. A Inquisição desperta em todos, um sentimento de repulsa (para não referir algo mais forte e ferir susceptibilidades em termos de linguagem) que inspirou, e continua a inspirar, muitos escritores profissionais e amadores. 

No entanto confesso que em nenhum senti um sentimento tão forte como ao ler este livro de Patrícia Anthony. Porquê? Não sei responder ao certo, mas a sua escrita tem o dom de nos colocar lado a lado com as personagens, com a vida daquela pequena aldeia, no concelho de Mafra, com os seus sentimentos, dúvidas e desejos. 

As dúvidas existenciais da fé divina assolam-nos e vemos-nos perante a mediocridade das altas esferas do clero da época, a sua podridão e os seus vícios face a face com a ingenuidade e a simplicidade do “pastor do rebanho de Quintas”. Pelo meio deste dueto, Manoel Pessoa, jesuíta e inquisidor itinerante, que viaja de aldeia em aldeia, não se encontra preparado para o que vai encontrar, acontecimentos que questionarão grande parte dos seus valores e da sua vida.

Todas estas questões que nos são apresentadas de uma forma sarcástica e cheia de ironia, acabam por se revelar, na minha opinião, a componente essencial da história e acabam por nos envolver de tal forma que somos atingidos bem em cheio pelo final lancinante.

Mas, falando um pouco mais dos personagens e dos acontecimentos….

D. Afonso VI, o jovem Rei de Portugal, que revela alguns problemas de raciocínio (como é sabido da história de Portugal, sendo sucedido pelo seu irmão D. Pedro que lhe usurpa o trono, precisamente nesta época) e que parte à procura dos moinhos de vento quixotescos. Quando vê uma estrela cadente a cair e a embater na superfície terrestre, resolver partir para observar melhor o local onde esta caiu, que não é mais nem menos que junto a Quintas.

Manoel Pessoa, na sua volta habitual enquanto inquisidor, depara-se com um conjunto de situações extraordinárias que revolucionam a vida da pacata aldeia. “ Fornicações” como lhe refere D. Inês, em confissão, ”Eles chegam de noite e ….. “ . A pequena Marta que jura ter visto e falado com a Virgem , e a jovem Maria Helena que engravida de um anjo sem nunca ter perdido a virgindade - virgo intactus

Uma bela herbologista que inspira o receio entre a população, que a crê como uma bruxa, e que se revela como amante de Manoel Pessoa. 

O padre da aldeia, um humilde franciscano com alguma idade, que defende o seu rebanho até aos últimos momentos.

O Monsenhor Gomes, inquisidor-mor, que se coloca acima de todos, identificando os culpados das histórias heréticas e que, ultrapassando todas as barreiras legais acaba, através do seu poder, de julgar inocentes, lançando-os nas “fogueiras de Deus”.

A queda de uma nave extraterrestre, porque assim o é a tal estrela cadente, num meio tão hermético de ideias e de desenvolvimento, surge como uma heresia, uma clara obra de Satanás. 

Os seus passageiros, três seres misteriosos e estranhos que são identificados como querubins ou mesmo anjos, que falam com os seus olhos profundos e negros na mente das pessoas, despertando nelas sensações diferentes de paz ou de trevas consoante o coração e /ou inocência de cada um.

As personagens envolvem-nos, como já referi, a história toca-nos e somos levados pelo caminho que leva à perdição, pois acabamos por questionar a Santa Igreja e as suas maquiavélicas atitudes e julgamentos preconceituosos. 

O final é terrível e (perdoem-me os spoilers) esperamos até ao último momento um desenlace diferente, mas a realidade era outra nesse tempo e não conseguimos deixar de sentir o cheiro e os gritos lancinantes, como se fizéssemos parte daquela pequena aldeia, que nunca mais será a mesma, tal é a intensidade com que os factos são narrados.

Um livro obrigatório que apresenta uma linguagem e uma crítica social muito forte. 

A tradução de João Barreiros parece-me excelente (digo parece-me, apenas porque não li o original) e está muito adequada aos termos locais e próprios da época, há um trabalho muito bom nesse sentido e que me parece ter sido em grande parte um contributo do próprio tradutor.

Sendo um livro classificado como FC ou não, este facto não interessa, pois o que aqui predomina é mesmo esta crítica mordaz à época e à Inquisição, feita de uma forma magistral por Patrícia Anthony.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Dia da Terra




Para comemorar este dia, relembro aqui o discurso do Chefe indígena Duwamish (Chefe Seattle) fez ao Governo Americano por volta de 1887, depois de o Governo ter declarado que pretendia comprar o território da tribo.


"O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

Minha palavra é como as estrelas - elas não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.

O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisontes apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisonte que (nós - os índios ) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. "Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse": E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."



sábado, 12 de abril de 2014

"A Noite" de Guy de Maupassant


Para quem não conhece Guy de Maupassant, poderei dizer que é um dos maiores contistas europeus.

Na sua linguagem muito própria, simples e envolvente, o autor escreve, na maioria dos casos, como sendo o próprio protagonista da história que se desenvolve e que desabafa a um amigo próximo ou um médico que o assiste. 

Os seus contos são envoltos numa áurea negra de pessimismo, de infelicidade, de medo pelo desconhecido, ou mesmo caracterizados pela atmosfera sobrenatural sempre presente. No entanto paralelamente Maupassant é extremamente humano e essa característica surge de uma forma clara e simples através de toda a sua obra. 

Deixo-vos um conto dele, para quem não conhece, espero que goste. Para quem conhece é sempre bom relembrar este grande contista do século XIX que influenciou tantos outros escritores após a sua curta vida.

A Noite


Eu amo a noite com paixão. Amo como se ama o seu país ou sua amante, um amor instintivo, profundo, invencível. Eu a amo com todos os meus sentidos, com meus olhos que veem, com o meu nariz que respira, com os meus ouvidos que escutam o silêncio e as trevas que minha carne acaricia. As cotovias cantam ao sol, no céu azul, com ar quente, na suave brisa das manhãs de luz. A coruja voa durante a noite neste mesmo lugar, o negro que passa através do espaço escuro e encantador, embriagado pela imensidão sombria ela pia de forma vibrante e sinistra.

Durante a claridade do dia fico cansado, entediado. As manhãs são duras e barulhentas. Me levanto com dificuldades, visto-me devagar, saio todo molenga, pois cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento me cansa como se levantasse um peso opressor.

Porém quando o sol se põe, surge-me uma alegria confusa, uma satisfação que anima todo meu corpo. Eu desperto, fico motivado. Quando as sombras surgem sinto-me diferente, mais jovem, mais forte, mais alerta, mais feliz. Eu contemplo a penumbra ficar cada vez mais densa, a grande sombra cair suavemente do céu: ela afoga a cidade, como uma onda fugaz e incompreensível, ela esconde, apaga, destrói a cor, deforma, oculta as pessoas, casas, e os monumentos com seu toque imperceptível.

Então, eu quero gritar de prazer como as corujas, correr sobre os telhados como os gatos, explosões dilatam meu corpo, um desejo de amar incontrolável se acende nas minhas veias. Eu então saio, seguindo sem rumo às vezes, nos escuros subúrbios, ou então no bosque perto de Paris, onde eu ouço meus noturnos irmãos animais vagando e caçando meus semelhantes.

Aquilo que você ama com violência sempre acaba te matando. Mas como explicar isto que está acontecendo comigo? Ou como posso explicar aquilo que vivo? Eu não sei bem, já não sei mais, só sei que é real. Só isso! Aconteceu ontem; foi ontem? Sim, provavelmente, talvez tenha ocorrido anteontem, ou dias atrás, quem sabe num outro mês, ou alguns anos antes... Não sei. Mas deve ter sido ontem porque o sol não voltou a aparecer e o dia nunca mais raiou. Quanto dura uma noite? Qual é sua intensidade? Alguém saberá dizer? Alguém conhece?

Foi então ontem, eu saí como faço todas as noites depois do jantar. O tempo estava muito bonito, muito suave, muito quente. Segui até os Bulevares olhando, sobre a minha cabeça, um rio preto cheio de estrelas correndo no céu além dos telhados das ruas, como se as telhas das casas demarcassem as margens daquele rio torrencial de estrelas. Tudo estava claro, como um ar leve, dês da luz dos planetas até as lâmpadas a gás. Então, muitas luzes brilhavam lá em cima e na cidade que parecia um foco de luz na escuridão. As noites são brilhantes e felizes, como os grandes dias de sol.

No Bulevar os cafés eram sorvidos por pessoas noturnas, eles riam, pediam mais café e bebiam. Entrei no teatro, por alguns instantes, mas em qual teatro? Não sei. Estava tão claro que me desanimou então eu fugi com o coração ofuscado pelo choque de luz douradas das sacadas, pelo lustres de cristais cintilantes falsos e enormes, pela cortina de fogo da ribalta, pela melancolia da claridade falsa e crua. Cheguei ao Champs-Elysees, onde os cafés-concertos pareciam incêndios entre as folhas.

As castanheiras friccionavam uma luz amarela, elas pareciam pintada como árvores fosforescentes. As luzes elétricas assemelhavam-se as luas brilhantes e pálidas, eram ovos de lua caídas do céu, pérolas monstruosas, vivas, lívidas com seus bicos de gás encarnado, misteriosa e real, com gás sujo e desagradável, como guirlandas de vidros coloridos. Parei em baixo do Arco do Triunfo e olhei para a avenida, a longa e maravilhosa avenida estrelada, seguindo até Paris entre duas linhas de fogo, e vários Sois! Os astros lá em cima, estranhos astros jogados aleatoriamente na vastidão desenhando figuras adversas, formatos que nos fazem sonhar, que nos fazem pensar tanto. Entrei no Bois de Boulogne e fiquei lá demoradamente, por muito tempo. Um tremor apoderou-se de mim, uma emoção estranha, inesperada, poderosa, era alguma exaltação do meu cogitar que beirava a insanidade.

Andei um longo, longo tempo. Depois voltei.

Que horas eram quando tornei a passar sob o Arco do Triunfo? Também não sabia. A cidade dormia, em nuvens, grandes nuvens escuras que se alastravam lentamente pelo céu. Pela primeira vez eu senti que algo singular, novo, iria acontecer. Tive a impressão que estava frio, um ar mais denso cresceu, naquela noite, minha noite mais amada, meu coração ficou pesado. A avenida estava deserta agora. Apenas dois policiais caminhavam na direção dos táxis. Na rua, mal iluminada pelos lampiões a gás que pareciam apagar, seguiam uma fila de carroças de legumes indo para Les Halles.

Elas eram puxadas lentamente, carregadas com cenouras, nabos e repolhos. Os cocheiros dormiam, invisíveis. Os cavalos andavam no mesmo ritmo, seguindo a carroça da frente, em silêncio pela calçada de madeira. Diante das luzes da calçada eram iluminadas de vermelho as cenouras, de branco os nabos, de verde claro os repolhos. Carruagens que passavam uma após a outra, com mercadorias brilhantes, uma tinha um rubro flamejante como fogo, cintilante semelhante prata e a seguinte esverdeada igual à esmeralda. Segui elas, quando virei na rua Royale e voltei para os Bulevares. Ninguém, nenhum café iluminado, apenas alguns atrasados marchando tardiamente. Eu nunca tinha visto Paris tão morta como um deserto. Peguei meu relógio. Eram duas horas.

Uma força me empurrava, era uma necessidade de andar. Então eu fui para a Bastilha. Lá percebi que eu nunca tinha visto uma noite tão escura assim, porque não conseguia distinguir a Colonne de Juillet, cuja engenharia de ouro estava perdida na escuridão impenetrável. Um cobertor de nuvens, grossas como a imensidão, afogando as estrelas e parecia descer à Terra para destruí-la.

Voltei. Não havia ninguém ao meu redor. Porém, na praça Du Chateau d'Eau, um bêbado quase me bateu e depois desapareceu. Eu ouvi por algum tempo seus passos sonoros e irregulares. Eu continuei seguindo. Próximo do Faubourg Montmartre passou um táxi descendo na direção do Sena. Eu chamei. O motorista não respondeu. Uma mulher estava perambulando perto da Rue Drouot:

- Cavalheiro, escute.

Apertei meus passos para evitar a sua mão estendida. Daí então, mais nada. Na frente do Vaudeville um catador de trecos vasculhava a sarjeta. Sua pequena lanterna iluminava fracamente o chão.

- Que horas são, amigo? perguntei.

- Como vou saber, não tenho relógio!- ele falou entre os dentes.

Foi então que eu percebi, de repente, que as luminárias de gás estavam desligadas. Sei que nesta estação do ano elas são apagadas mais cedo, antes de amanhecer para economizar energia. Porém o dia ainda estava longe, muito longe de raiar.

- Vamos para Les Halles, pensei, pelo menos lá irei encontrar vida.

Segui meu caminho, mas eu não conseguia ver nada para me orientar. Caminhei lentamente, como se estivesse numa floresta densa, tateando as ruas para desvendá-las. Próximo do Credit Lyonnais um cão rosnou. Entrei na Rue de Grammont e me perdi, vaguei então sem rumo, quando reconheci a Bolsa pelas grades de ferro que a rodeavam.

Toda Paris dormia, um sono profundo, assustador. Ao longe, no entanto, vi novamente um táxi, talvez tenha sido o mesmo que passou por mim mais cedo. Tentei alcançá-lo, seguindo o som das suas rodas, pelas ruas desertas e enegrecidas, negra, negra como a morte. Eu o perdi novamente. Onde eu estava? Quem seria tão tolo para desligar o gás tão cedo! Ninguém mais vi na cidade, nenhum andarilho atrasado, nenhum vagabundo, nenhum gato miando para sua felina. Nada.

Onde estavam os policiais? Então eu disse: "Vou gritar, assim eles virão." Me lamentei. Porque ninguém respondeu. Berrei mais alto. Minha voz se propagou no espaço, sem eco, diminuindo abafada, esmagada pela noite, pela noite impenetrável.

- Socorro! Socorro! – Gritei.

Meu apelo desesperado ficou sem resposta. A que horas foi isso? Tentei olhar para meu relógio, porém eu não tinha fósforos. Eu ouvia o tique-taque da pequena caixa de engrenagens mecânica com uma bizarra e desconhecida alegria. Ele parecia viver. Eu não me sentia tão sozinho. Que mistério! Eu voltei a andar como um cego, sentindo as paredes com minha bengala, onde todo momento voltava meus olhos para o céu, esperando o dia raiar e finalmente a luz aparecer, mas o espaço estava soturnamente revolto, todo negro, a escuridão tinha tamanha profundidade que não havia mais cidade.

Que horas poderiam ser? Eu andava, parecia aquele momento uma eternidade, porque minhas pernas involuntariamente curvavam-se abaixo de mim, meu peito arfava e eu sofri terrivelmente com fome. Decidi tocar a campainha da primeira casa que eu esbarrasse. Eu puxei a maçaneta de bronze da porta, toquei o sino da campainha, ele soava estranhamente como se estivesse vibrando sozinho na casa. Eu esperei sem respostas, ninguém abriu a porta. Toquei novamente, esperei mais uma vez. Nada!

Eu sentia medo! Corri para a próxima casa, e por vinte vezes naquela calçada eu fiz soar a campainha num corredor escuro onde deveria estar dormindo algum porteiro. Mas ele não acordou, então eu foi mais longe, puxando com toda a minha insistência os sinos, chutando com meus pés, batia minha bengala nas portas, no entanto permaneceram fechadas.

De repente percebi que estava chegando ao Halles. Os mercados estavam desertos, sem murmúrio, sem um único movimento, sem uma carroça, sem uma alma sequer, na havia nenhum banca de legumes ou flores. Tudo ali estava vazio, imóvel, abandonado, morto!

Um pânico se apoderou de mim, algo terrível. O que estava acontecendo? Oh meu Deus! O que estava acontecendo?

Eu parti. Mas que hora? A hora! Quem me indicaria o tempo? Nenhum relógio, nenhuma badalada soou nos sinos dos monumentos.

- Vou abrir o vidro do meu relógio e sentir os ponteiros com os dedos. pensei. Peguei meu relógio... ele não trabalhava mais... estava parado. Nada! Nada mais, além de um frio na cidade, eu não percebia nenhum chiado, nenhum ruído se propagava pelo ar. Nada! Nada mesmo! Nenhum único som das rodas de um distante carro. Absolutamente nada!

Eu estava no cais, e uma brisa gélida saia do rio. O Sena corria ainda? Eu agora queria saber, encontrei as escadas, desci... Eu não conseguia ouvir o borbulhar do fluxo das águas nas colunas da ponte... desci mais um pouco... senti a areia... depois a lama... então a água... Mergulhei meu braço... corria... sim o rio ainda corria... Frio... Frio... Frio... quase congelado... quase seco... quase morto. Eu senti que não conseguiria ter forças para recuar... e que o rio iria desfalecer ali... Eu também, de fome, de cansaço, de frio.



quinta-feira, 3 de abril de 2014

Duna de Frank Herbert

Sinopse:

"Duna" é considerado o melhor romance de ficção científica de sempre. Uma obra que arrebatou a crítica com o estilo poderoso de Frank Herbert e conquistou milhões de leitores com a sua imaginação prodigiosa. Prepare-se para uma viagem que nunca irá esquecer, até um longínquo planeta chamado Arrakis… O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará.

O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad’Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império…"


Antes de ler “Duna” gostei de Arrakis!

Pelos comentários que li, pelo que ouvi e pela sinopse do próprio livro, quase que posso dizer que me apaixonei por aquele planeta árido, sem água, e sem vegetação, excepção feita à especiaria., claro. Este meu gosto provém da paixão que tenho pelos grandes espaços, aqueles em que o nosso olhar se perde num horizonte sempre igual, o deserto fascina-me e leva-me a questionar imensas coisas interiormente. Há um ditado Tuareg que diz "Deus criou o mar para que os homens pudessem alimentar-se e o deserto para que descobrissem a alma." e não há dúvida nenhuma que podemos concluir que Paul Atreides também encontrou a sua alma.

Mas sem querer divagar, “Duna” conta-nos a história do duque Leto Atreides e sua família que deixam o seu planeta de origem Caladan, para habitarem o planeta Arrakis, para o qual o duque foi designado governante. Assim que os seus pés pousam neste árido planeta, percebe que se encontra no centro de muitos interesses e conflitos.

Através de pequenos excertos dos diários da princesa Irulan, vamos conhecendo, capítulo a capítulo, os fios invisíveis que movem este mundo de intrigas, mistérios, poder e sobretudo da construção de um líder, profeta ou quem sabe muito mais do que isso.

Arrakis constitui o único local onde existe a valiosa especiaria Melange que move interesses imperiais. Para além disto apenas possui areia, dunas, temperaturas elevadíssimas, escassez de água e um povo muito agreste, os Fremen. Poucos querem habitar este planeta, mas muitos são os interessados em obter lucro através da comercialização da especiaria.

A sorte não bate à porta dos Atreides e após uma traição amarga, Paul (filho do Duque) e a sua mãe, conhecida como a Dama Jessica e concubina do duque, acabam por procurar refugio no deserto, junto daquele povo que os acolhe com uma reverência, fruto de uma antiga profecia.

Treinado por sua mãe nos ensinamentos mentais das Bene Gesserit e pelos melhores mestres de armas do seu pai, Paul insere-se sem qualquer problema, na vida deste povo que defende o seu planeta contra os seus opressores. Com o desejo de se vingar do seu inimigo, o Barão Harkonnen, que é o mesmo inimigo dos fremen, Paul vê-se na encruzilhada de uma antiga profecia que lhe confere o título de líder e profeta de uma jihad cujo propósito é muito superior ao da simples vingança.

A escrita é fluente e cativa-nos. As personagens estão muito bem construídas e todas elas acabam por nos cativar. Paul, sendo o centro da história e da acção, acaba por reunir à sua volta todo um conjunto de pessoas que lhe irão incutir os valores, sentidos de honra e de responsabilidade que irão formando a sua personalidade.

Tudo se constrói em volta de um conjunto de valores, crenças, formas de vida e de sobrevivência num mundo hostil, mas que é amado e sobre o qual são construídos ideais e onde a esperança de um mundo melhor, de um oásis, prevalece. Todos são importantes, todos são peças fundamentais de um mundo muito bem construído por Frank Herbert.

Na minha opinião, esperava um pouco mais relativamente ao próprio planeta. Esperava saber mais sobre as suas areias, sobre os vermes, sobre as tentativas de plantar outra vegetação e de armazenar água. Gostava de ter conhecido melhor Kynes e o seu sonho. Penso que é uma personagem importante neste contexto, e que foi pouco explorada.

Sendo um livro de FC esperava que desenvolvessem mais estes aspectos cientificamente, que não se ficassem somente pelos aspectos morais, humanos, religiosos e sobretudo pela vingança. No final pergunto a mim mesma : Quem é Paul Atreides? Um líder? Um profeta? Ou um fanático?

Há quem considere este livro como um dos melhores de ficção científica. Apesar de já ter lido alguma coisa nesta área, ainda tenho muito para ler e muitos universos e situações para conhecer, mas do que li, não o considero como tal. Mas esta é a minha opinião, claro e cada um tem os seus próprios gostos e opiniões e somos livres de as expressar.

No entanto há que ter em atenção que foi escrito na década de 60, (década bastante prolifera no desenvolvimento da literatura de FC) e que se encontra ao nível, ou superior, de muitos livros que se publicam hoje em dia nestas matérias.

Recomendo, sem dúvida.


"Há em todas as coisas um padrão que faz parte do nosso universo. Tem simetria, elegância e graça - as qualidades que se encontram sempre naquilo que o verdadeiro artista captura. O padrão encontra-se na mudança das estações, no modo como a areia transpõe um cume, nos aglomerados de ramos do arbusto creosote ou no padrão das suas folhas. Tentamos copiar esses padrões nas nossas vidas e sociedade, procurando os ritmos, as danças, as formas que reconfortam. No entanto, é possível ver perigo na descoberta da derradeira perfeição. É claro que o derradeiro padrão contém a sua própria fixidez. Numa tal perfeição, todas as coisas avançam na direcção da morte."

de "Ditos Coligidos do Muad'Dib" pela Princesa Irulan

quinta-feira, 27 de março de 2014

Alice Munro e "Fugas"

Não conhecia esta escritora, nem o seu trabalho. No Natal passado uma amiga, ofereceu-me este livro e foi com alguma expectativa que o comecei a ler, muito embora não sabia o que iria encontrar.


Um pouco sobre a autora e a sua obra….

Alice Munro nasceu no Canadá em julho de 1931, desde muito nova (1950) iniciou a sua carreira como cronista, mas só a partir de 1976 consolida a sua carreira como escritora.
Foi por três vezes vencedora do prémio de ficção literária “Governor General's Literary Awards”, do seu país. Em 1998 Alice Munro foi premiada pelo National Book Critics Circle dos Estados Unidos, pela obra “O amor de uma mulher generosa”. Aos 82 anos foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura 2013.


Munro não escreve grandes romances, nem trillers, nem ensaios mais ou menos filosóficos. Ele escreve contos, pequenas histórias quotidianas com personagens que retractam pessoas comuns na vida de pequenas povoações do seu país. São mulheres, famílias, adolescentes , as suas relações humanas analisadas pela lupa dos sentimentos e das emoções.

Encontros casuais, separações, partidas, acidentes, desencontros, acções que não se concretizam, desvios no caminho normal de todos os dias que levam à alteração da rota das vidas, do “destino” , das maneiras de pensar e de viver a vida.

A Academia Sueca, ao anunciar a distinção, referiu a escritora como a “mestre do conto contemporâneo”. Há quem a identifique como herdeira de Tchekhov ou do realismo lírico de James Joyce. Alice Munro possui um talento muito próprio de nos apresentar a essência da vida quotidiana de um modo conciso através de palavras simples nos seus contos e romances.

A editora Relógio D’Água publicou desde 2007 seis antologias de contos de Alice Munro e um romance com aspectos autobiográficos” A Vista de Castle Rock”.

Fugas


Sinopse
As oito histórias reunidas em Fugas falam sobre pessoas - mulheres de todas as idades e de origens diferentes, os seus amigos, amantes, pais e filhos -, cujas vidas, nas mãos de Alice Munro, se tornam tão reais e inesquecíveis quanto as nossas.




Oito contos, oito histórias de mulheres onde a vida e o destino teimam em pregar partidas, afastando pessoas, provocando desencontros e arrastando as personagens para caminhos que não são aqueles que gostariam de percorrer.

Como o próprio nome indica tratam-se de oito fugas, de passados complicados, de laços familiares, de matrimónios, de relações impetuosas, de limitações provocadas pelo envelhecimento ou doenças, ou dos próprios sentimentos e que nos fazem pensar na nossas próprias vidas. Quem somos, quais as opções que tomámos ao longo da vida e de que forma elas condicionaram a nossa vida actual.É fácil identificarmo-nos com algumas das personagens de Munro, pelas suas descrições e pelas suas vidas.

A vida que teima em nos afastar daquilo que sonhamos ou idealizamos em determinada fase e que nada podemos fazer par o evitar. De uma forma suave ou com uma força imensa ela pode arrasar-nos e mergulhar-nos num verdadeiro labirinto de sentimentos e emoções. E é aqui que Munro sabe tão bem interpretar estes conflitos, transpondo-os para o papel, com a leveza de palavras e com a crueldade de sonhos e planos desfeitos e que nada mais podemos fazer do que nos rendermos ao que está reservado.

Os contos “Acaso”, “Em breve”, “Silêncio” surgem-nos como uma trilogia, sem que, ao ler o primeiro, tenhamos a noção de que páginas mais à frente, iremos encontrar novamente Juliet. São três etapas da sua vida que nos surgem em separado e com um intervalo de tempo menor para “Em breve” mas de 20 anos para “Silêncio”. Nestas três histórias assistimos ao desenrolar de uma vida que procura seguir os seus sonhos, ou a sua busca pessoal, mas que no final quando tudo parece bem encaminhado, o chamado Destino revela-nos uma faceta menos esperada e ataca onde menos se espera.

A vida de Juliet prende-nos a atenção, levando-nos a quase não prestar atenção a alguns pormenores que nos vão sendo revelados, ou a outros que estarão subjacentes e não nos são transmitidos nos dois primeiros contos. É aqui que o seu talento é muitíssimo bom, pois o final inesperado acaba por ser um pouco consequência desses factos de que habilmente Munro nos foi desviando a atenção.

Para mim foram os melhores contos do livro, mas todos eles são muito bons.

No entanto não esperem que sejam contos com um final feliz, em que tudo corre bem e ultrapassadas as amarguras da vida, esta traz-nos a felicidade como um presente merecido. Nada disso.

São histórias demasiadamente reais em que a vontade humana e a realidade da vida ou do “destino” andam lado a lado, puxando para um ou outro lado, convergindo por vezes, mas afastando-se irreversivelmente noutras.

Para muitos, o conto é considerado uma arte menor na literatura. Para quem lê os meus comentários e me conhece, sabe bem o quão errada é, para mim, esta opinião, pois sou uma grande defensora dos contos e contistas de todos os tempos.

E sem dúvida nenhuma que Alice Munro tem um lugar cativo entre os melhores!