sábado, 13 de fevereiro de 2021

"Outrora e Outros Tempos" de Olga Tokarczuk

 


SINOPSE

Outrora é uma aldeia polaca situada no centro do mundo e protegida por quatro arcanjos. Esta mítica aldeia, onde a relva sangra, a roupa tem memória e os animais falam por imagens, é povoada por personagens excêntricas e inesquecíveis - humanas, animais, vegetais, minerais - cujas existências obedecem aos ciclos das estações e à inexorável passagem do seu Tempo, mas também aos acontecimentos externos.

Durante três gerações, este microcosmo instável e arrebatador assiste ao eclodir de uma Grande Guerra, à Crise, a uma nova e Segunda Grande Guerra, à Ocupação Nazi, à invasão Russa, e ao choque entre a modernidade e a natureza, espelhando a dramática história da Polónia do século XX.

Primeiro grande sucesso de Olga Tokarczuk, vencedor do prestigiado Prémio da Fundação Koscielski, Outrora e Outros Tempos é um romance histórico, filosófico, mitológico e, no dizer da crítica, «um clássico da literatura europeia contemporânea».

A autora sempre quis escrever um livro como este: «A história de um mundo que, como todas as coisas vivas, nasce, cresce e depois morre… Cozinhas, quartos, memórias de infância, sonhos e insónia, reminiscências e amnésia fazem parte dos seus espaços existenciais e acústicos, compondo as diferentes vozes da sua história.»


 

Outrora e Outros Tempos” foi o primeiro livro (e único até à data) que li desta autora polaca, vencedora do Prémio Nobel de Literatura de 2018. Mas posso-vos referir, desde já que vou querer ler muito mais da sua obra, pois este livro é simplesmente fantástico.

A sua escrita simples, meio poética transporta-nos para uma pequena aldeia algures no meio da Polónia, onde se desenrola toda a história, cuja personagem principal é o Tempo.

Toda a obra circula através do Tempo, seja este momentâneo ou muito mais abrangente. É o Tempo de nascer, de crescer, de amadurecer, de envelhecer e de morrer.

São apresentadas três gerações através da personagem de Misía, desde que foi concebida, até à sua morte e paralelamente de todos os habitantes de Outrora e outras aldeias adjacentes que viveram na mesma época. O pai que partiu para a Grande Guerra (I Guerra Mundial) e voltou, a crise económica que se segui, a Segunda Grande Guerra com a invasão Nazi e posteriormente a ocupação russa e os tempos modernos com todas as suas alterações à vida desta pacata aldeia, à volta da qual tudo acontece.

No entanto Olga Tokarczuk vai mais longe, para ela também é o Tempo da vida dos rios que surgem como seres orgânicos integrantes da vida de Outrora, da floresta, das plantas e animais. Todos tem o seu tempo próprio de vida e de morte, até o moinho de café…

É um livro que nos leva a pensar na vida, naquilo que passamos ao longo de toda a nossa existência, as etapas que tempos de ultrapassar e seguir em frente, que nos leva a olhar a natureza como algo vivo e pulsante e ver a magia em todas as coisas simples que nos rodeia.

Filosofia, mitologia e muita prosa poética num livro que poderá ser para muitos um livro triste, mas que traz ao mesmo tempo uma esperança de que algo melhor poderá surgir depois da tempestade. 

Para ler com muita calma e com o tempo devido. 

Deixo-vos uma passagem do livro:

"Se olharmos atentamente para os objetos de olhos fechados para não nos deixarmos levar pelas aparências que as coisas espalham à sua volta , se nos dermos ao luxo de sentir alguma desconfiança, poderemos talvez ver, por um instante, a sua verdadeira face. 

As coisas são seres mergulhados numa outra realidade, onde não há nem tempo nem movimento. Nós vemos apenas a sua superfície, enquanto o resto, mergulhado algures, determina o sentido e o significado de todo e qualquer objecto material. Por exemplo um moinho de café.

Um moinho de café é um pedaço de matéria onde foi insuflada a ideia de moer.

Os moinhos de café moem e, por isso, existem. Mas ninguém sabe qual é o significado de um moinho de café. Aliás, ninguém sabe qual é o significado do que quer que seja. Talvez o moinho de café seja um fragmento de uma lei de mudança total e fundamental, de uma lei sem a qual este mundo não poderia sobreviver ou, então, seria completamente diferente. Talvez os moinhos de café sejam o eixo da realidade, em torno do qual tudo gira e evolui, talvez sejam mais importantes para o mundo do que as pessoas. Quem sabe se aquele moinho de café da Misia, único, não era o pilar da aldeia chamada Outrora ?"




segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Leituras e releituras de 2020 - um ano de descobertas e de matar saudades

 


2020 foi um ano um pouco diferente no que respeita às minhas leituras.  Muitos dirão que foi um ano completamente diferente em todas as situações, sem dúvida que o foi. 

Fomos invadidos por um vírus à  escala planetária, qual invasão alienígena  vinda de outro planeta em invisíveis naves espaciais . Alojou-se nos quatros canos do mundo e proliferou com uma rapidez que deixou o nosso planeta perplexo e devassado. Mudaram-se hábitos e rotinas e nada foi igual. 

Mas sem divagar, porque livros e leituras e outras folhas interessantes  são o tema deste  blogue, vamos ao que interessa: fazer uma  retrospectiva de 2020 no que toca às minhas leituras, uma vez que a minha preguiça, em comentar cada livro, tem sido grande (vamos ver se consigo reverter esta tendência durante este ano). 

Como já referi foi um ano diferente relativamente às minhas escolhas. Li e reli alguns livros na sequência de um projeto que estou a desenvolver em parceria com amigos fantásticos e que poderão acompanhar em   https://www.instagram.com/migalhas_de_letras/

Posso então começar por falar nas releituras que fiz ao longo do ano: "Chocolate" e "Sapatos de Rebuçado" da Joanne Harris; "O meu pé de laranja lima" de José Mauro de Vasconcelos; "Amor e Dedinhos de pé" de Henrique Senna Fernandes e "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e outros contos" de Washington Irving. 

Foram livros agradáveis de serem relidos, agora com um objetivo especifico e por essa razão o foco incidiu sobretudo na procura de elementos que pudessem enriquecer o projeto que já mencionei. 

Há procura de algo doce, foi também a razão que me levou a pegar em 3 livros juvenis da autora Alice Vieira "Rosa, minha irmã Rosa", "Lote 12, 2º Frente" e "Chocolate à Chuva". São livros agradáveis, destinados a um publico muito próprio que relatam  um período de tempo da vida de Mariana. as suas atribulações com o nascimento da irmã mais nova, a morte da Avó, o inicio do 2º ciclo da escola, uma fase "terrivelmente" importante e a mudança de casa, a identidade do lugar e a sua ligação com a população. 

"Emma" de Jane Austen levou-me de novo ao mundo de Inglaterra do século XIX. Confesso que não sou uma fã da escritora, muito embora lhe reconheça o valor na caracterização da sociedade rural inglesa da época esmiuçando as suas vidas, desenvolvendo intrigas e romances, tendo sempre presente um certo humor e ironia nos diálogos dinâmicos que caracterizam a sua obra. 

Também pela mesma razão redescobri Eça de Queirós, um autor há muito sossegado na minha estante, mas que saiu de lá em grande força com "A cidade e as serras" e o "Mistério da Estrada de Sintra", este último escrito em parceria com Ramalho Ortigão. Dois livros muito diferentes mas dos quais gostei bastante. 

O primeiro conta a  vida de Jacinto, pelo seu amigo José Fernandes, em Paris, cidade que na época era considerada como o expoente máximo da civilização e modernidade. no entanto a pouco e  pouco, vamos conhecendo o ridículo e pretensiosismo que se encontra por debaixo da capa da superioridade dos parisienses. Jacinto acaba por se entediar da vida que leva e encontra-se  psicologicamente devastado, quando surge a necessidade de efectuar uma reparação na igreja da sua propriedade em terras lusas, mais propriamente em Tornes,  Jacinto viaja para Portugal e após uma série de peripécias, descobre o encanto das terras portuguesas. Um livro muito bem escrito, com muito humor e uma caracterização muito boa da sociedade da época. 

O "Mistério da Estrada de Sintra" é um pequeno livro policial, escrito a duas mãos, onde, através do envio de cartas anonimas a um jornal diário, se denuncia um crime. Por resposta a estas cartas, vamos assistindo ao desenrolar de todo o acontecimento em que se veem envolvidos os dois amigos que passavam, por acaso, na Estrada de Sintra  num belo fim de tarde. 

Ao nível da escrita nacional, li ainda um pequeno livro de contos (dez) de Manuel Alegre "O Homem do País Azul", publicada em 1989.  Um livro que se lê rapidamente e que nos oferece um conjunto de histórias ficcionais, mas em que podemos encontrar alguns laivos concordantes com as atribulações politicas e revolucionárias dos anos sessenta. O autor apresenta uma prosa em que se mistura uma realidade, talvez autobiográfica, com o enigma e por vezes com o fantástico.  Muito bem escrito, que mostra claramente a veia poética de Manuel Alegre. 

Há aqueles escritores que gostamos sempre de tornar a ler um livro da sua autoria e este ano não foi exceção. 

"As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa (que já comentei anteriormente no blogue) foi uma simpática viagem pelo mundo africano, uma obra que não me conquistou inteiramente, mas que se lê bem, pelo estilo a que o autor nos habitua, um final surpreendente e um excelente trabalho ao nível das personagens. 

"Goa ou o Guardião da Aurora" de Richard Zimler, começou por ser uma leitura onde pretendia pesquisar sabores gastronómicos cheios de cores e cheiros inebriantes que a India sabe bem proporcionar. Esta pesquisa saiu um pouco defraudada, mas a leitura foi muito boa. Mais uma vez o Universo da família Zarco, de raízes luso-judaicas, encontra-se presente na colónia portuguesa de Goa, no final do século XVI.  A perseguição que a Inquisição fazia na época tentando acabar com todas as crenças tradicionais, quer de nativos hindus, quer de emigrantes judeus.  Gostei bastante, como já é habitual nos livros de Richard Zimler.

Algumas leituras simples que não se podem dizer que são extraordinárias mas que conseguiram ter o seu papel de entretenimento. 

"As meninas dos Chocolate" e "As novas meninas dos chocolate" de  Annie Murray falam-nos da vida de três amigas (trabalhadoras na famosa fábrica Cadbury em Inglaterra). A sua vida podia ser simples e sem nada de relevante, no entanto a eclosão da Segunda Guerra Mundial vai transformar as suas vidas. 

"O Tecedor de Sonhos" de Trudi Canavan foi outra das leituras, logo no inicio do ano, que se revelou simpática e simples. É o segundo volume da "Idade dos Cinco" um livro de fantasia, onde os deuses e os povos entram em conflito e Auraya, a protagonista, tenta a sua conciliação. gostei da figura de tecedor de sonhos e das suas vantagens enquanto curandeiros. 

2020 foi igualmente um ano em voltei a participar em leituras conjuntas. Com dois bons amigos leitores,  efetuei três leituras, no ultimo semestre do ano.

José Luís Peixoto, um escritor que andava com vontade de ler, foi o mote inicial para estas leituras conjuntas, com "Uma casa na escuridão" . Não terá sido o melhor livro do autor para começar, pois trata-se de um livro bastante pesado, negro, que apresenta, sob a forma metafórica, uma ideia sobre o fim do mundo. Quando pensamos que nada pior poderá acontecer aos protagonistas, pois isso acontecerá mesmo. O que gostei mais foi mesmo a escrita, uma prosa extremamente poética que nos cativa e que nos leva a querer ler o livro do principio ao fim. Vou querer ler mais deste autor, sem dúvida. 

"Pessoas Normais" de Sally Rooney foi o segundo livro de leitura conjunta. Trata-se da história de dois jovens que se conhecem na escola. De personalidades bastantes distintas, ele mais extrovertido e ela mais introvertida acabam por se relacionar para além da amizade. O livro apresenta-nos o período de tempo entre a secundária e o pós universidade, os seus relacionamentos e os altos e baixos das suas vidas. Confesso que foi um livro que não me prendeu, não gostei do tema e acabei por o ler, sem que o seu desenvolvimento ou o final me cativasse. único aspecto positivo, do meu ponto de vista é claro, foi a escrita simples mas muito bem elaborada da autora. 

A terceira escolha da leitura conjunta recaiu em "Middlemarch" de George Eliot. Uma obra fantástica, que adorei ler em conjunto. É considerado o mais importante romance da época vitoriana. A autora  de nome Mary Ann Evan Cross, adoptou o pseudónimo de Geoge Eliot, porque seria mais fugir aos romances estereotipados como romances leves que as mulheres podiam escrever na época.  Neste livro  a escritora aborda um conjuntos de temas da vida rural inglesa na época, desde a arte, religião e politica, ao mesmo tempo que desenvolve magistralmente as personagens, o seu envolvimento na sociedade e as relações humanas.  Um narrador presente que participa activamente no desenvolvimento do livro e que comenta e opina sobre os acontecimentos, enquadrando-os na época e nos desenvolvimentos socio/políticos. Leitura fantástica. 

Do escritor Neil Gaiman li "Neverwhere - Na Terra do Nada"  que nos leva a uma Londres dividida em Londres-de-cima, munda da luz, e Londres-de-baixo, mundo das trevas. Após um acontecimento imprevisto, o protagonista acaba por ir parar a Londres-de-baixo e a "não existir" no seu mundo. Um livro muito característico deste autor que com a coexistência destes dois mundos cria um ambiente fantástico. Gostei bastante da leitura. 

Um livro emprestado por uma amiga, há muito prometido, deliciou-me e deixou-me uma  certa nostalgia, "Chuva e outras novelas" Somerset Maugham, um livro de pequenas histórias muito ao jeito do autor , onde este explora as personagens, a sua vertente psicológica, os sentimentos dando-lhe um realismo e uma profundidade extraordinária. Adoro a sua escrita, o seu estilo inglês muito próprio, a forma como descreve os cenários, a vivência, os sentimentos, as personagens que ganham vida própria  e se apresentam como o comum dos mortais da sua época. Muito bom.

"Memórias de um gato viajante" de Hiro Arikawa foi um livro que não resisti a comprá-lo assim que o vi. A narrativa desenvolve-se através de dois narradores, um na terceira pessoa que vai contando os acontecimentos e o desenvolvimento da viagem e e o outro na primeira pessoa, ou seja do ponto de vista do gato, onde este comenta sobre o relacionamento humano-gato. Um gato bastante observador e humorista, o que torna a narrativa divertida. ao inicio a escrita parece um pouco desmotivante, mas ao longo do livro vai ganhando força através das emoções e do desenvolvimento da relação do protagonista com o seu gato. Um livro bastante emotivo que nos leva a pensar sobre o valor humano e sobre o que estes felinos pensam e sentem em relação à alma humana, ao valor da amizade dono-gato.

Por último e não menos importante, antes pelo contrário, 2020 deu-me a conhecer uma personagem verdadeiramente fantástica.  Ela chegou pela mão de Lucy Maud Montgomery, no seu livro "Anne dos cabelos ruivos".  A história fala-nos de uma criança órfã que foi adotada por dois irmãos solteiros, de meia idade, Matthew e Marilla Cuthbert, que viviam numa quinta na Ilha do Principe Eduardo no Canadá. Tagarela, esperta, dramática e sobretudo muito imaginativa, Anne com os seus cabelos ruivos, vai alterar por completo a vida daqueles com quem vive e de toda a comunidade.  Várias peripécias engraçadas levam-nos a devorar o livro, criando uma amizade com esta personagem que perdurará para toda a vida.  Verdadeiramente fantástico. 





terça-feira, 12 de maio de 2020

As Mulheres do meu Pai de José Eduardo Agualusa

Sinopse 

Faustino Manso, famoso compositor angolano, deixou ao morrer sete viúvas e dezoito filhos. A filha mais nova, Laurentina, realizadora de cinema tenta reconstruir a atribulada vida do falecido músico. 

Em As Mulheres do Meu Pai, realidade e ficção correm lado a lado, a primeira alimentando a segunda. Nos territórios que José Eduardo Agualusa atravessa, porém, a ficção participa da realidade. As quatro personagens do romance que o autor escreve, enquanto viaja, vão com ele de Luanda, capital de Angola, até Benguela e Namibe. Cruzam as areias da Namíbia e as suas povoações-fantasma, alcançando finalmente Cape Town, na África do Sul. 

Continuam depois, rumo a Maputo, e de Maputo a Quelimane, junto ao rio dos Bons Sinais, e dali até à ilha de Moçambique. Percorrem, nesta deriva, paisagens que fazem fronteira com o sonho, e das quais emergem, aqui e ali, as mais estranhas personagens. 

As Mulheres do Meu Pai é um romance sobre mulheres, música e magia. Nestas páginas anuncia-se o renascimento de África, continente afectado por problemas terríveis, mas abençoado pelo talento da música, o sempre renovado vigor das mulheres e o secreto poder de deuses muito antigos. 






Estava com bastante curiosidade em ler este livro de José Eduardo Agualusa, porque me tinham dado boas referências sobre ele e porque percebi que se tratava, de certa forma, de um livro de viagens pelo continente africano. 

Não posso dizer que o livro superou as minhas expectativas, antes pelo contrário. Ou eram demasiado altas ou faltou mais qualquer coisa para que ficasse com aquela sensação de ter lido um livro que me deixou encantada. 

África diz-me muito, porque já andei por lá, mais precisamente por Moçambique. Não sou natural desse país fantástico, mas vivi lá cinco anos (de 1972 a 1977) que me deixaram marcados na alma toda a imensidão das paisagens, dos sons, dos cheiros, da vida e das cores de África. 

Mas voltando ao livro de Agualusa, este conta-nos a história de Faustino Manso, um musico angolano que viaja pelo continente africano, levando a sua música e amando mulheres em cada cidade por onde passa. A história é-nos contada por Laurentina que parte em busca da vida deste homem, ao receber uma carta da sua mãe, quando esta morre, em que lhe conta que os seus pais biológicos não são os que a criaram em toda a vida, mas sim que ela é filha de Faustino Manso. 

Com esta noticia, ela decide partir para Angola, para descobrir algo mais sobre este homem, sobre a sua mãe verdadeira e no fundo sobre si mesma. Descobre que Manso acabou de morrer, deixando sete mulheres e dezoito filhos. Decide filmar um documentário sobre a vida do musico e reconstruir assim toda a sua vida. 

Desta forma o livro leva-nos através de Angola, África do Sul e Moçambique acompanhando as personagens de Laurentina, Mandume, o seu namorado, Bartolomeu, um primo recém conhecido e Pouca Sorte, o motorista que os conduz através deste continente. 

Cada capítulo é descrito por estas personagens diferentemente, falando das suas emoções e das suas sensações, levando-nos a conhecê-los mais intimamente e a perceber que todos eles procuram também perceber quem são neste mundo, tantas vezes ingrato e ruim. 

As relações que se estabelecem entre os vários personagens e o que vão descobrindo por onde passam, bem como o auto-conhecimento de cada um, constituem, na minha opinião o fio condutor de toda a história. 

O que gostei? Das auto-descobertas das personagens enquanto seres humanos, com os seus defeitos e virtudes e segredos. 

O que poderia ter sido melhor e que me deixou desanimada? Acho que a viagem podia ser muito mais bem explorada, podiam ter sido mais descritivas as rotas, a paisagem, a imensidão e beleza desse continente e haver maior continuidade e ligação na história. 

Faltou algo mais, na minha opinião é claro, para não me dar a sensação de que o livro são um conjunto de depoimentos soltos de várias personagens, que viajam por África para recolher elementos para um documentário sobre a vida do músico.

O final surpreende o que dá uma reviravolta positiva à história, mas logo a seguir tudo fica assim….

Talvez eu quisesse mais, no entanto está bem escrito e por isso dou 3,5 o que passa a 4 estrelas, pela escrita e pelo final.





segunda-feira, 13 de abril de 2020

Memórias de um gato viajante de Hiro Arikawa




Sinopse


Nana, que já foi um gato de rua, anda em viagem pelo Japão, mas desconhece para onde. O importante é que está sentado no banco da frente da carrinha, ao lado de Satoru, o seu querido dono. Satoru decidiu empreender esta viagem para visitar três amigos de juventude.

Qual o motivo da viagem? Nana não sabe.
Como reagirá o seu coração quando descobrir?

Com o pano de fundo da deslumbrante paisagem japonesa e narrado em vozes alternadas com uma rara subtileza e sentido de humor, a história de Nana é sobre a solidão, o valor da amizade e o saber dar e receber.

Um livro que tem conquistado e emocionado leitores de todo o mundo através da sua mensagem de bondade e sinceridade, revelando como os atos de amor podem transformar as nossas vidas. Por vezes, é necessário fazermos uma longa viagem para descobrirmos e conhecermos melhor aqueles que estão mais perto de nós.




Opinião

Quando descobri este livro à venda, pensei logo em adquiri-lo, por vários motivos : pelo Japão (país que me fascina), pela viagem (gosto imenso de livros sobre viagens) e sobretudo pelo facto de ser a história de um gato que viaja pelo Japão e que vai comentando sobre o que vê, quer na paisagem por onde passa, quer nos sentimentos das pessoas que vai conhecendo.

É claro que uma boa amiga pensou o mesmo que eu, assim que o viu pensou que era a prenda ideal para me oferecer no Natal … (obrigada ) 

Pois bem, quando o comecei a ler, confesso que fiquei um pouco desapontada, talvez porque tinha as minhas expectativas muito altas. A escrita é bastante simples, o que proporciona uma leitura “fácil” e a historia que se desenrolava diante dos meus olhos nada tinha de especial, um homem jovem que tem um gato, apanhado da rua, e que resolve viajar (por um motivo que, inicialmente, não se sabe qual é ) e leva o gato consigo.

A narrativa desenvolve-se através de dois narradores, um na terceira pessoa que vai contando os acontecimentos e o desenvolvimento da viagem e e o outro na primeira pessoa, ou seja do ponto de vista do gato, onde este comenta sobre o relacionamento humano-gato. Um gato bastante observador e humorista, o que torna a narrativa divertida.

Assim, vamos lendo página a página, sorrindo pelas expressões e opiniões de Nana e rapidamente percebemos que, por detrás desta narrativa simples e divertida, há muito mais.

Os sentimentos de amizade que ligam os jovens na escola, no secundário, na faculdade e que perduram para toda a vida, as marcas, boas e más, que a vida nos vai deixando e que vão contribuir para a nossa formação e o nosso carácter enquanto adultos são tudo facetas presentes nestas páginas.

A pouco e pouco vamos começando a perceber o porquê desta viagem, e o que move Satoru e Nana pelas terras do Japão, e o final chega de uma forma dura e comovente, como a demonstração do verdadeiro sentido da amizade.

E se no inicio me sentia um pouco desapontada como já referi, mas página a página Hiro Arikawa conquistou-me, levando-me a pensar, a querer ler mais e sentir que há muito que não lia um livro tão comovente.

Recomendo a qualquer leitor e imprescindível para quem gosta de gatos, para quem, como eu, gosta de perceber o que estes felinos pensam e sentem em relação à alma humana, ao valor da amizade dono-gato.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Deuses americanos de Neil Gaiman



SINOPSE

Sombra, acabado de sair da prisão, aceita trabalhar para um estranho, o Sr. Quarta-Feira, que não é nada mais nada menos que a encarnação de um deus antigo. Por estarem a ser ultrapassados por ídolos modernos, os deuses antigos encontram-se em vias de extinção, e Sombra e Quarta-Feira têm de reunir o maior número de divindades para se prepararem para o conflito iminente que paira no horizonte. Mas esperam-nos inúmeras surpresas… Bestseller distinguido com diversos prémios, Deuses Americanos é uma aventura onde o mágico e o mundano, o mito e o real, caminham lado a lado, levando-nos numa viagem repleta de humor ao extraordinário potencial da imaginação humana.







Opinião 

Há muito tempo que andava para ler este livro por diversas razões, porque o seu título me despertou a curiosidade, porque já tinha ouvido falar bastante do mesmo e sobretudo porque gosto imenso dos livros de Neil Gaiman. 

Os Estados Unidos da América é um país onde coabitam povos de diversas origens, ou seja, cujos antepassados partiram dos diferentes continentes à procura do novo mundo e de uma vida melhor. Os escravos, emigrantes e todos aqueles que desembarcaram neste vasto território, todos eles levaram na sua bagagem as suas tradições, costumes e os seus deuses...

Paralelamente os próprios habitantes, as várias tribos de índios, tinham a sua cultura e as suas divindades muito próprias.

Assim, por detrás das várias personagens que povoam este livro podemos encontrar relações com a mitologia nórdica, africana, egípcia, hindu e muitas outras. Os seus “velhos deuses” que se encontram adormecidos e espalhados pelas cidades americanas, arrumados nos fundos dos velhos baús,  vão ser chamados a travar uma batalha com aqueles que são os novos deuses deste país “super evoluído”. 

Mais do que um confronto entre deuses, Neil Gaiman, para mim, quis colocar em confronto a necessidade do ser humano em encontrar a sua razão de viver na busca de entidades “divinas” ou sobrenaturais, ou em questões materialistas e em evoluções tecnológicas. 

O escritor apresenta-nos uma “road-trip” pelo mundo estadunidense, onde pretende circunstanciar o desenvolvimento da sua história na chamada sociedade de informação, da evolução e do apogeu tecnológico, mas que ao mesmo tempo se caracteriza pela efemeridade e pela descrença total.

O leitor por sua vez vai fazendo a sua própria viagem, página a página, pela mão de Shadow e o seu patrão, Sr. Wednesday, assim como a deusa Easter, e muitos outros. E penso que é precisamente esta viagem que Gaiman quer que façamos, que procuremos em nós próprios “o que nos move” e para onde queremos ir. 

Uma leitura interessante, não deixa de ser um livro curioso, no entanto confesso que do que li até hoje, este não é, para mim, o melhor livro de Neil Gaiman.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

De regresso ....



Há já alguns anos que criei este blogue. O objectivo era divulgar as folhas do mundo que são importantes para mim, partilhando-as convosco: folhas de livros, folhas de árvores e tantas outras "folhas" que encontramos no nosso dia a dia.   

No entanto, por várias razões pessoais tenho estado um pouco afastada  do "ciber espaço" e não tenho publicado nada.

Peço desculpa por esta ausência, a todos aqueles que me seguiam e que me deixaram algumas palavras simpáticas a comentar e a tornar este espaço numa verdadeira partilha.  

Agora volto, com mais vontade de vos deixar as minhas opiniões, as minhas histórias e mais algumas coisas que penso serem boas para divulgar e partilhar. 

Sintam-se em casa novamente para os que me revisitam e sejam bem-vindos os que aqui surgem  pela primeira vez e que esta seja a primeira de muitas outras visitas.

Até já ....




imagem de: "L' herbier des Fées" de Benjamin Lacombe e Sebastien Perez (2011) 



terça-feira, 30 de maio de 2017

Contos de Cães e Maus Lobos de Valter Hugo Mãe



Sinopse


A escrita encantatória de Valter Hugo Mãe chega ao conto como uma delicadíssima forma de inclusão. Estes contos são para todas as idades e são feitos de uma esperança profunda. Entre a confiança e o receio, cães e lobos são apenas um símbolo para a ansiedade perante a vida e a fundamental aprendizagem de valores e da capacidade de amar. Entre a confiança e o receio estabelecemos as entregas e a prudência de que precisamos para construir a felicidade. Com a participação plástica de: Ana Aragão | Cadão Volpato | Daniela Nunes | David de la Mano | Duarte Vitória | Filipe Rodrigues | Graça Morais | JAS | Joana Vasconcelos com Alice Vasconcelos | José Rodrigues | Luís Silveirinha | Nino Cais | Paulo Damião







«Há nesta antologia de contos o convite ao regresso a um canto de que nunca saímos, um reencantamento da infância, uma cumplicidade de quem partilha vazios e silêncios». 
Mia Couto (Prefácio) 


Este foi o primeiro livro de Valter Hugo Mãe que li. Confesso que há muito tempo que andava com curiosidade em ler alguma obra dele, mas as opiniões que ouvi eram diversas e fiquei sempre na dúvida por onde e quando começar. Uma boa amiga resolveu-me o problema, oferecendo este belo livro de contos. 

É claro que de imediato peguei nele, e foi saboreando lentamente as onze pequenas histórias que ele nos oferece. Digo saboreando, porque é mesmo assim, não é um livro que se leia de seguida, mas sim conto a conto, onde vamos degustando, com todos os sentidos possíveis as suas palavras, as suas histórias, o seu mundo… 

Com uma escrita extremamente simples, “Contos de cães e maus lobos” transportam-nos para um imaginário onde os sonhos se cruzam e os corações batem mais fortes. Há como que um “doce viver”, uma singeleza, em cada um destes contos.


«Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pela imaginação. Por isso é que os textos são mais do que gigantescos, são absurdos de um tamanho que nem dá para calcular. Mesmo os contos, de pequenos não têm nada. Se os soubermos entender, crescemos também, até nos tornarmos monumentais pessoas. Edifícios humanos de profundo esplendor».
Conto "A biblioteca"