Sinopse:
E se, quando acordamos, descobríssemos que os nosso sonhos se tinham tornado reais? George Orr é um homem insignificante, em que ninguém repararia, ao passar. Mas quando Orr descobre que os seus sonhos podem mudar a realidade, começa a ter medo de sonhar, Ao tentar suprimir os sonhos, é enviado, por abuso indevido de medicação, a um psiquiatra que se dedica a investigar os diferentes estados de sono produzidos pela mente. O Dr. Haber, um homem autoconfiante e autocomplacente, que se acha capaz de conhecer e manipular a mente dos seus pacientes, depressa se apercebe de que Orr possui de facto a capacidade de alterar a realidade. Submete-o então a sucessivas experiências com máquinas cada vez mais sofisticadas para conseguir, através dele, alterar o que está mal no mundo, e chegar à criação de um verdadeiro "admirável mundo novo". Orr, porém, acha que toda esta cega manipulação é na verdade aberrante.
A partir deste enredo, Ursula K. Le Guin escreve uma obra-prima de complexidade e subtileza, datada de 1971 mas ainda hoje surpreendentemente actual na sua percepção do mundo relativamente a temas como ambiente, geopolítica, racismo, avanços da medicina e relação de todas estas coisas como o poder.
Opinião:
Ursula Le Guin é uma escritora que ficará de certeza na lista dos meus escritores favoritos, pois gosto bastante da sua escrita e das histórias que nos conta.
“O Tormento dos Céus” não sendo um dos meus livros favoritos desta autora (é preciso referir que ainda me faltam muitos para ler) é sem dúvida um livro interessante quer pela temática, quer pela sua originalidade.
A história passa-se em 2002 (30 anos após a data em que foi escrito), num mundo quase que apocalíptico onde todas as acções do ser humano estão controladas, e onde a relação homem / natureza se perdeu.
George Orr tem uma característica incomum: muitos dos seus sonhos tornam-se realidade, no verdadeiro sentido da palavra, desde que sejam sonhos “eficazes”. Para muitos esta característica levaria a uma exclamação do tipo: “olha que bom!” mas para Orr é mais uma maldição que ele quer evitar de qualquer forma. Esta luta leva-o a tentar não sonhar e a consumir fármacos que o ajudem a não dormir. Numa sociedade em que o que cada um consome é controlado e doseado, rapidamente descobrem que anda a utilizar cartões de outras pessoas para se abastecer. Como é uma pessoa pacífica, a penalização passa apenas por tratamento psiquiátrico junto de um especialista em questões de sono.
Haber, assim se chama o psiquiatra, vê naquele doente um manancial de descobertas e de possibilidades de alterar quer a sua vida pessoal, quer a sociedade em que vivem. E assim se vai desfolhando o livro de alteração em alteração do mundo, da sociedade e deles próprios.
A autora chama-nos a atenção sobre a avidez humana pelo poder, por querer sempre mais, pois paralelamente ao desejo de mudar o mundo, torná-lo mais humano, há o desejo pessoal, há o conflito armado, a guerra latente que de uma forma ou de outra está sempre presente. As mudanças trazem sempre outras mudanças associadas e é um caminho sem fim.
É um livro interessante que tem um final curioso. Recomendo a quem gosta de Ursula Le Guin e a quem nada leu da sua vastíssima obra também o recomendo, se bem que aconselharia a começar por outros livros, a saga Earthsea por exemplo.
Edição ou reimpressão: 04-2004
Editor: Editorial Presença
Páginas: 180
Coleção: Viajantes no Tempo
ISBN: 9789722331562















