segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Excertos de "A raposa azul" de Sjón




"As raposas azuis são tão curiosamente semelhantes a pedras que isso é motivo de maravilhamento. No Inverno, quando se deitam ao seu lado não existe qualquer possibilidade de as distinguir das rochas: na verdade, são muito mais astutas do que as raposas brancas, que lançam sempre uma sombra ou parecem amareladas contra a neve.

Uma raposa azul deita-se muito perto de uma pedra, e deixa que a neve que sopra de barlavento se acumule sobre ela. Vira as costas à intempérie, enrola-se e enfia o focinho debaixo da coxa, baixa as pálpebras até restar apenas o mais ténue dos vestígios de uma pupila. E assim mantém um olho atento sobre o homem que não se moveu desde que se abrigou sob um banco de neve saliente, ali nas vertentes superiores do Asheimar, há cerca de dezoito horas. A neve caiu sobre ele, até o homem se assemelhar apenas aos restos de um muro arruinado. 

animal tem de tentar não se esquecer que o homem é um caçador."
 
(...)


"O homem olhou-a com maior atenção. 

Focou os seus pensamentos nela, a tentar entrever algum indício do que ela tencionava fazer, por que caminho seguiria quando acabasse de farejar o cume. De repente, o animal desatou a correr, o homem não percebeu porquê. O seu comportamento demonstrava que ela sentira uma enorme ameaça. No entanto, não podia ter a mais pequena das suspeitas quanto ao homem - por meios normais.

Devia ter sido uma premonição das intenções dele: É um homem com a caça na mente." 
 

(...)

"Quando o homem emergiu sob o rochedo gigantesco que bloqueia o Asheimar, está prestes a perder a raposa.

Apenas a conseguiu detectar quando ela deu três voltas e deixou-se cair contra uma pedra, a esconder-se e a enrolar a cauda sobre o focinho.

O homem fez o mesmo.

A orla do dia desvanecia-se.

Nos átrios celestiais estava agora suficientemente escuro para as irmãs Aurora Boreal começarem sua animada dança de véus. Com um encantador jogo de cores elas esvoaçaram leves e rápidas sobre  o imenso palco dos céus, a sacudirem os seus vestidos dourados, os seus colares de pérolas a desfazerem-se, a espalharem-se por aqui e por ali por entre os seus saltos selváticos. É pouco depois de o entardecer que este espectáculo se torna mais brilhante.

Depois a cortina cai; a noite instala-se."












sábado, 2 de janeiro de 2016

Três anos ....

Três anos passaram desde que decidi criar este pequeno espaço para partilhar convosco um pouco do meu mundo, das minhas folhas ...


Folhas que esvoaçam pelo vento no outono....




Folhas que enchem as árvores na primavera e que dançam por entre os raios do sol, ao som da brisa matinal.....








Folhas vazias que esperam pelos caracteres, pelas letras, pelos traços e riscos, pelas palavras que por vezes teimam em não se soltarem....



Folhas de livros novos e usados, cheias de mistérios, suspense e de algumas lágrimas ou de voos espaciais ....


Folhas que são somente folhas.... mas que são as minhas folhas do mundo....




2015 foi um ano difícil, um ano em que muito se alterou na minha vida. Um ano de luta contra aquilo que nunca esperamos e um ano de perdas humanas que me fizeram pensar muito no quanto mortais somos. Duas pessoas que se foram, pessoas que marcaram a minha vida e que ficam para sempre nos meus pensamentos, nas minhas lembranças e registadas nas minhas folhas das saudades...

Poucos livros, pouca escrita, e muito pouco para partilhar convosco. Espero sinceramente que 2016 me permita poder transmitir muito mais a quem me segue, aos amigos e a todos aqueles que por aqui passam ocasionalmente.

A todos vocês desejo um excelente 2016  e contem comigo para partilhar muito mais histórias, contos e muitas outras folhas que andam pelo mundo.

Até breve ....

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Caminhos….




Caminhos….

Simples, mágicos, tortuosos ou pedregosos…

Caminhamos por vezes sem dar conta, sem sentir o ar fresco da madrugada, sem sentir o cheiro a maresia ou mesmo o verde musgoso dos caminhos na serra….caminhamos apenas por caminhar… porque somos eternamente caminhantes neste mundo ou em qualquer outro lugar…

De repente, uma pedra surge no caminho e tropeçamos nela. Aos tropeções vamos bamboleantes, de encontro a um conjunto de obstáculos, soerguendo-nos com firmeza ou prostrando-nos pelo chão.

Levantamo-nos com uma força que desconhecíamos possuir, como se um pozinho mágico do caminho se infiltrasse em nós e nos alimentasse a alma. Como se uma gota de orvalho nos saciasse a sede, e nos percorresse as veias, artérias e o nosso coração fosse um órgão que bate ao som do vento e das folhas que marejam nos troncos das árvores altas.

Os nossos olhos abrem-se e vemos um mundo desconhecido à nossa frente…. Caminhamos, porque temos de caminhar…. Mas o trilho abre-se com uma luz nova, um brilho que não possuía antes e tudo é novo….

Algures os feiticeiros e duendes pintaram um mundo novo, com as cores do arco-íris e os verdes são mais verdes, o mar é mais azul, e o céu … o céu é um imenso oceano onde brilham todas as almas que nos acompanham.

Alguém nos dá a mão e sorri, não a vemos, mas sabemos que ali está, porque sentimos o seu toque e a gargalhada cristalina na nossa alma, no nosso coração. O orvalho que percorre as nossas veias leva-os pelo corpo, sentimos o seu abraço e caminhamos…. Caminhamos juntos em direcção ao arco-iris em busca do pote da vida ….

Sempre…

Porque somos eternos caminhantes….
 
 

terça-feira, 26 de maio de 2015

O Guardião de Memórias de Lois Lowry






Sinopse

"Era quase Dezembro e Jonas começava a ficar assustado."

Começa assim esta história de um rapaz que habita um mundo aparentemente ideal: um mundo sem conflitos, pobreza, desemprego, divórcio, injustiça ou fome.

Dezembro é a altura da Cerimónia anual em que cada indivíduo com doze anos recebe uma tarefa para a vida inteira, determinada pelos Anciãos. Jonas viu a sua amiga Fiona ser nomeada Encarregada dos Idosos e o seu alegre amigo Asher ser nomeado Director Assistente do Divertimento. Mas Jonas foi escolhido para algo especial. Quando a sua selecção o leva ao homem sem nome, o Dador, ele começa a descobrir os segredos profundos que sustentam a frágil perfeição do seu mundo.

Narrado com uma simplicidade ilusória, esta é a provocante história de um rapaz que experimenta algo incrível e que aceita algo impossível. Ao longo da narrativa, muitos valores que temos como certos po~em em causa as nossas mais profundas convicções.



A história de “O Guardião de memórias” passa-se numa sociedade, em que tudo está meticulosamente organizado e encaixado num modelo idílico onde a dor não existe, a dúvida não existe, as paixões não existem, enfim, nada que envolva sentimento poderá ter lugar. Tudo é cinzento pois a cor não existe.

Os bebés são gerados apenas para continuação da espécie humana, crescem ultrapassando etapas onde aprendem as normas para viver naquela sociedade até atingirem a idade dos doze anos. Nessa altura, os Doze, como são conhecidos, são colocados como aprendizes das profissões que virão a desempenhar no futuro, tendo em conta a observação que um conjunto de ansiãos vai fazendo ao longo do seu crescimento, para captarem as suas aptidões naturais.

Tudo corre na perfeição, como é de esperar, para Jonas. Na cerimónia dos Doze ele espera, com alguma curiosidade e ansiedade, para saber qual a profissão que é escolhida para ele. Vê os seus colegas serem distribuídos pelos diversos postos de trabalho da comunidade e percebe que nada sobra para ele. Por fim o grupo de anciãos nomeia-o para o ofício de guardião de memórias., um dos mais importantes cargos da comunidade. Uma escolha rara, pois apenas existe um guardião e somente ele treina o seu sucessor.

Chocado e perplexo com tal escolha, Jonas não vê a importância de tal cargo, apenas que terá de ser o aprendiz de um ancião que permaneceu afastado de toda a comunidade durante toda a sua vida. Não imagina sequer que após o primeiro encontro com o actual Guardião, a sua vida deixará de ser a mesma.

O guardião de memórias tem como função guardar todas as memórias de um povo, com o objectivo de proteger esse mesmo povo do sofrimento e da dor. Por outro lado ele, ele tem o conhecimento e a sabedoria para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis.

A pouco e pouco, pelas mãos do seu mestre Jonas descobre um mundo novo. Aprende a sensação do calor no seu rosto, a neve fria que cai, e com as sensações as coisas adquirem uma cor, descobre o vermelho ou o verde dos campos e a névoa vai-se dissipando, mostrando-lhe um mundo completamente novo.

Mas o fardo é pesado, lidar com todo este conhecimento numa sociedade que não quer sair do seu conformismo, da sua mesmice de vida igual a todos os dias… uma sociedade ditatorial, com o seu regime controlador de toda a perfeição.

A dúvida surge e Jonas começa mesmo a questionar toda a perfeição do seu mundo.

Classificado como um livro infanto-juvenil, apresenta uma escrita simples e fácil. No entanto a mensagem é bastante forte mesmo para um adulto. A leitura que ao início é simples e directa, leva-nos a questionar-nos e a pensar mais a cada capítulo que passa, ficando mesmo com a dúvida se o final é o esperado por um público juvenil.

Lois Lowry pretende alertar-nos para o nosso conformismo perante a vida. Quer abrir-nos a mente para horizontes mais vastos e que por vezes teimamos em não os querer ver.

A escrita, como já referi, é bastante simples, a acção bastante rápida, por vezes demasiadamente rápida, sem que haja desenvolvimento em pequenos detalhes que enriqueceriam mais a história.

Recomendado por uma amiga, li o livro rapidamente sem saber que havia continuação. O final deixou-me um pouco sem saber o que pensar … no entanto rapidamente percebi que este é apenas o primeiro volume de uma série de quatro livros.

Sem ser extraordinário, é um livro que se lê muito bem, agradável e que nos deixa um “sabor amargo na boca”, por vezes queremos que a nossa vida seja perfeita, e nem desfrutamos do que nos rodeia.


Edição/reimpressão: 2004
Páginas: 160
Editor: Texto Editores
ISBN: 9789724723747

terça-feira, 7 de abril de 2015

As Cidades Invísíveis de Italo Calvino



- Você viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco .
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.
 


«As Cidades Invisíveis apresenta-se como uma série de relatos de viagem que Marco Polo faz a Kublai Kan, imperador dos tártaros. [...] A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. [...] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. [...] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.»

Italo Calvino



 
Há muito tempo que pensava em ler As Cidades Invísíveis de Italo Calvino, mas o tempo foi passando e nunca o fiz. Talvez inconscientemente esperava a oportunidade certa para que o livro me fascinasse e me seduzisse como o fez.
 
Basicamente, a obra pode-se resumir no seguinte: Marco Polo, explorador veneziano do século XIII descreve  as suas viagens ao imperador oriental Kublai Khan (neto do Gengis Khan), nomeadamente as cidades do seu vasto império, que este não consegue visitar.
 
Durante as cerca de 170 páginas são apresentados pequenas descrições de cerca de cinquenta e cinco cidades, todas com nomes de mulher, intercaladas com diálogos entre o explorador e Kublai Khan.
 
Todas elas  desafiam as próprias leis do universo e de imediato percebemos que não são reais. Elas poderão ser apreciadas pelo leitor apenas pela sua beleza literária, pelas palavras e descrições que criam a imagem na nossa mente de um mundo especulativo.  
 
Pura fantasia envolta numa neblina alegórica, pois estas cidades não são mais do que extensões das nossas viagens interiores, transpostas para a realidade do mundo, com as suas vicissitudes e defeitos, com os encantos e encantamentos próprios dos nossos desejos.
 
De leitura rápida mas que se teima em repetir, para se degustar cada pedacinho.
 
Adorei a viagem de Marco Polo pelas cidades desse grande império que é o mundo dos sonhos e dos pensamentos.
 
 
 
 


Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitudedos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los, uma sensação de vazio que surge ao calar da noite com o odor dos elefantes após a chuva e das cinzas de sândalo que se resfriam nos braseiros, uma vertigem que faz estremecer os rios e a smontanhas historiadas nos fulvos dorsos dos planisférios, enrolando um depois do outro os despachos que anunciam o aniquilamento dos últimos  exércitos inimigos de derrota em derrota, e abrindo o lacre dos sinetes de reis dos quais nunca se ouviu falar e que imploram a protecção das nossas armadas avançadas em troca de impostos anuais de metais preciosos, peles curtidas e cascos de tartarugas: é o desesperado momento em que se descobre que este império, que nos parecia a soma de todas as maravilhas, é um esfacelo sem fim e sem forma, que a sua corrupção é gangrenosa demais para ser remediada pelo nosso ceptro, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros de suas prolongadas ruínas. Somente nos relatórios de Marco Polo, Kublai Khan conseguia discernir, através das muralhas e das torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho tão fino ao ponto de evitar as mordidas dos cupins.
 

As cidades e a memória
2
 
O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.

 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Teremos Sempre Paris de Ray Bradbury




Sinopse


Nesta selecção de contos inéditos, o inimitável Ray Bradbury encanta-nos de novo com a sua prosa fluente e cantante. Imagina coisas extraordinárias e observa com especial acutilância as fraquezas humanas, as pequenas falhas de carácter. Maravilha-nos com a magia que durante anos dominou e sempre tão presente esteve na sua escrita. Seja explorando as diversas possibilidades do renascimento, seja analisando as circunstâncias que podem fazer de qualquer homem um assassino ou, uma vez mais regressando a Marte, Bradbury revela-nos um mundo a que ficamos presos.Os seus contos são eternos. Teremos Sempre Ray Bradbury.

 

 



Há muito tempo que andava para ler Ray Bradbury, mas ainda não tinha surgido a oportunidade. Dos seus inúmeros livros aquele que me veio parar às mãos foi “Teremos sempre Paris” talvez porque é um livro de contos.

Confesso que não estava à espera do que li. Esperava algo mais ligado à FC, uma distopia, contos passados em um planeta distante ou algo diferente pois são estes, normalmente os temas dos seus livros.

Muito bens escritos, os contos curtos de “Teremos sempre Paris” são bastante diferentes, o que faz com que nos identifiquemos mais com alguns e não gostemos tanto de outros.

No entanto ao longo das páginas deste livro encontramos pequenas histórias (no total de 22) que nos apresentam retractos sociais, detalhes do quotidiano aliados a uma fantasia que por vezes chaga a ser bastante subtil.

Segundo o próprio autor refere, na introdução, estes contos foram escritos ao longo da sua vida. Este facto é notório porque de certa forma se vê reflectidos a vivência mais ou menos acentuada do autor, na diversidade dos temas abordados.

Uma obra muito social, muito sobre a natureza da mente humana, dos seus dramas e da sociedade. Em muitos contos encontramos o reflexo da sociedade, tão hipócrita e tão desumana na vida dos personagens, simples cidadãos. É nesta divergência e por vezes incompatibilidade que Bradbury explora, e muito bem, as fraquezas humanas, as falhas de caracter que podem transformar um qualquer cidadão num eminente assassino.

Se fiquei surpreendida ao ler este livro, porque esperava algo diferente, não significa que não tenha gostado do que li.

Gostei, e de alguns contos posso afirmar que gostei bastante, porque mesmo nestas histórias, que poderão ocorrer a qualquer momento com as pessoas com quem cruzamos diariamente, existe uma certa “magia” que as envolve numa ambiência que me parece muito típica da escrita de Ray Bradbury.

Locais estranhos, ruas e campos que não levam a lado nenhum e que provavelmente são apenas extensões da mente humana.

Parecem, por vezes, pequenos momentos de reflexão, momentos de observação sobre o que nos rodeia, as pessoas que se cruzam nas ruas, em que o autor captou a imagem e lhe deu o seu toque muito pessoal, transpondo-a para o papel, revelando-se em praticamente todos eles uma certa sátira à sociedade em que vivemos.

Sem ser um livro excelente é uma agradável leitura para quem goste de contos do quotidiano com uma leve dose de “loucura”, é claro.
 
 
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 192
Editor: Bizâncio
ISBN: 9789725305478

 

sexta-feira, 20 de março de 2015

"Espada que sangra" de Nuno Ferreira


Sinopse
"A palavra dos homens teve muito crédito, em tempos idos. Mas quando a soberba e a sede de poder e glória moldam o comportamento humano, a mentira torna-se um instrumento para pentear as suas próprias fraquezas." 

Espada Que Sangra é o primeiro volume de Histórias Vermelhas de Zallar, um delicioso cocktail de fantasia, intriga, mistério, suspense, erotismo, aventura e ação, passado num mundo fantástico de civilizações que nos apaixonam a cada página. Zallar é um mundo complexo, onde três continentes lutam arduamente pela sua sobrevivência. No Velho Continente existe uma terra almejada há milénios, desde os tempos em que os medonhos Homens Demónio dominavam a região: Terra Parda, onde as cidades-estado são chamadas de espadas e um minério conhecido por tormento negro tornou possível a existência de armas de fogo. Hoje, são os descendentes dos extintos Homens Demónio quem ameaça as fronteiras desta terra próspera em vegetação, savanas e desertos - os malévolos mahlan. A Guerra Mahlan está prestes a atingir o seu ápice, e agora, tudo pode acontecer. Mas Lazard Ezzila e Ameril Hymadher, reis das principais fortalezas de Terra Parda que viveram um intenso romance na sua juventude, vão perceber de uma forma perturbadoramente selvagem que os seus maiores inimigos podem viver consigo ou partilharem dos seus próprios lençóis




Opinião

Dono de um vocabulário invejável Nuno Ferreira, presenteou o mercado português, no ano passado, com a sua primeira obra “Espada que sangra”, um livro que nos transporta para um mundo ficcional onde nasce a primeira semente das Histórias Vermelhas de Zallar.

Numa primeira parte, é-nos relatada a sua história. A criação destas terras quentes, os seus povos, os deuses e demónios que lutaram pelos seus territórios, os sobreviventes e os seus descendentes. Pouco depois, pela mão dos personagens vamos entrando em Zallar, na Terra Parda e nas cortes de Lazard Ezzila e Ameril Hymadher.

Um mundo de intrigas e guerras onde o poder é o principal soberano.

Ao lermos o seu livro, vemos que o autor bebeu de muitas fontes, pois existem alguns traços que poderíamos identificar com outros autores. No entanto, estes desvanecem-se rapidamente levando-nos de volta ao mundo muito próprio e único de Zallar.

A leitura é muito agradável. A escrita se por um lado é simples e concisa, por outro é riquíssima em vocabulário, criando o suspense e o entusiasmo em cada virar de página.

Um conjunto de sentidos que explodem nas descrições, as personagens e os ambientes são descritos minuciosamente, desde o tom da cor da pele, à textura das roupas, ao gume afiado da espada e mesmo ao frio do mármore que reveste as paredes.

Aqui surge uma das críticas que coloco ao autor, uma crítica muito pessoal que funciona apenas para o meu gosto em termos literários. Eu gosto de deixar a minha mente voar um pouco sobre as páginas que leio e neste caso, com a minúcia das descrições, há muito pouco que fica disponível à nossa imaginação.

É pena que não tenha sido feita uma revisão mais cuidadosa em termos do texto. Existem algumas “gralhas” linguísticas que poderão afastar alguns leitores, pois por vezes podem quebrar o ritmo de leitura para aqueles que sejam mais observadores e mais rigorosos. Mas penso que esta questão poderá ser ultrapassada com o próximo volume.

É com muita curiosidade que fico a aguardar a saída do próximo volume das Histórias Vermelhas de Zallar que segundo o site oficial do autor se chamará “Garras Gélidas”.

No seu site, Nuno Ferreira fala-nos de todo o mundo que criou, alargando o nosso horizonte e despertando-nos a curiosidade cada vez mais.  Pode ser consultado aqui


Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 676
Editor: Chiado Editora
ISBN: 9789895117369
Coleção: Mundo Fantástico