quinta-feira, 3 de abril de 2014

Duna de Frank Herbert

Sinopse:

"Duna" é considerado o melhor romance de ficção científica de sempre. Uma obra que arrebatou a crítica com o estilo poderoso de Frank Herbert e conquistou milhões de leitores com a sua imaginação prodigiosa. Prepare-se para uma viagem que nunca irá esquecer, até um longínquo planeta chamado Arrakis… O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará.

O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad’Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império…"


Antes de ler “Duna” gostei de Arrakis!

Pelos comentários que li, pelo que ouvi e pela sinopse do próprio livro, quase que posso dizer que me apaixonei por aquele planeta árido, sem água, e sem vegetação, excepção feita à especiaria., claro. Este meu gosto provém da paixão que tenho pelos grandes espaços, aqueles em que o nosso olhar se perde num horizonte sempre igual, o deserto fascina-me e leva-me a questionar imensas coisas interiormente. Há um ditado Tuareg que diz "Deus criou o mar para que os homens pudessem alimentar-se e o deserto para que descobrissem a alma." e não há dúvida nenhuma que podemos concluir que Paul Atreides também encontrou a sua alma.

Mas sem querer divagar, “Duna” conta-nos a história do duque Leto Atreides e sua família que deixam o seu planeta de origem Caladan, para habitarem o planeta Arrakis, para o qual o duque foi designado governante. Assim que os seus pés pousam neste árido planeta, percebe que se encontra no centro de muitos interesses e conflitos.

Através de pequenos excertos dos diários da princesa Irulan, vamos conhecendo, capítulo a capítulo, os fios invisíveis que movem este mundo de intrigas, mistérios, poder e sobretudo da construção de um líder, profeta ou quem sabe muito mais do que isso.

Arrakis constitui o único local onde existe a valiosa especiaria Melange que move interesses imperiais. Para além disto apenas possui areia, dunas, temperaturas elevadíssimas, escassez de água e um povo muito agreste, os Fremen. Poucos querem habitar este planeta, mas muitos são os interessados em obter lucro através da comercialização da especiaria.

A sorte não bate à porta dos Atreides e após uma traição amarga, Paul (filho do Duque) e a sua mãe, conhecida como a Dama Jessica e concubina do duque, acabam por procurar refugio no deserto, junto daquele povo que os acolhe com uma reverência, fruto de uma antiga profecia.

Treinado por sua mãe nos ensinamentos mentais das Bene Gesserit e pelos melhores mestres de armas do seu pai, Paul insere-se sem qualquer problema, na vida deste povo que defende o seu planeta contra os seus opressores. Com o desejo de se vingar do seu inimigo, o Barão Harkonnen, que é o mesmo inimigo dos fremen, Paul vê-se na encruzilhada de uma antiga profecia que lhe confere o título de líder e profeta de uma jihad cujo propósito é muito superior ao da simples vingança.

A escrita é fluente e cativa-nos. As personagens estão muito bem construídas e todas elas acabam por nos cativar. Paul, sendo o centro da história e da acção, acaba por reunir à sua volta todo um conjunto de pessoas que lhe irão incutir os valores, sentidos de honra e de responsabilidade que irão formando a sua personalidade.

Tudo se constrói em volta de um conjunto de valores, crenças, formas de vida e de sobrevivência num mundo hostil, mas que é amado e sobre o qual são construídos ideais e onde a esperança de um mundo melhor, de um oásis, prevalece. Todos são importantes, todos são peças fundamentais de um mundo muito bem construído por Frank Herbert.

Na minha opinião, esperava um pouco mais relativamente ao próprio planeta. Esperava saber mais sobre as suas areias, sobre os vermes, sobre as tentativas de plantar outra vegetação e de armazenar água. Gostava de ter conhecido melhor Kynes e o seu sonho. Penso que é uma personagem importante neste contexto, e que foi pouco explorada.

Sendo um livro de FC esperava que desenvolvessem mais estes aspectos cientificamente, que não se ficassem somente pelos aspectos morais, humanos, religiosos e sobretudo pela vingança. No final pergunto a mim mesma : Quem é Paul Atreides? Um líder? Um profeta? Ou um fanático?

Há quem considere este livro como um dos melhores de ficção científica. Apesar de já ter lido alguma coisa nesta área, ainda tenho muito para ler e muitos universos e situações para conhecer, mas do que li, não o considero como tal. Mas esta é a minha opinião, claro e cada um tem os seus próprios gostos e opiniões e somos livres de as expressar.

No entanto há que ter em atenção que foi escrito na década de 60, (década bastante prolifera no desenvolvimento da literatura de FC) e que se encontra ao nível, ou superior, de muitos livros que se publicam hoje em dia nestas matérias.

Recomendo, sem dúvida.


"Há em todas as coisas um padrão que faz parte do nosso universo. Tem simetria, elegância e graça - as qualidades que se encontram sempre naquilo que o verdadeiro artista captura. O padrão encontra-se na mudança das estações, no modo como a areia transpõe um cume, nos aglomerados de ramos do arbusto creosote ou no padrão das suas folhas. Tentamos copiar esses padrões nas nossas vidas e sociedade, procurando os ritmos, as danças, as formas que reconfortam. No entanto, é possível ver perigo na descoberta da derradeira perfeição. É claro que o derradeiro padrão contém a sua própria fixidez. Numa tal perfeição, todas as coisas avançam na direcção da morte."

de "Ditos Coligidos do Muad'Dib" pela Princesa Irulan

quinta-feira, 27 de março de 2014

Alice Munro e "Fugas"

Não conhecia esta escritora, nem o seu trabalho. No Natal passado uma amiga, ofereceu-me este livro e foi com alguma expectativa que o comecei a ler, muito embora não sabia o que iria encontrar.


Um pouco sobre a autora e a sua obra….

Alice Munro nasceu no Canadá em julho de 1931, desde muito nova (1950) iniciou a sua carreira como cronista, mas só a partir de 1976 consolida a sua carreira como escritora.
Foi por três vezes vencedora do prémio de ficção literária “Governor General's Literary Awards”, do seu país. Em 1998 Alice Munro foi premiada pelo National Book Critics Circle dos Estados Unidos, pela obra “O amor de uma mulher generosa”. Aos 82 anos foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura 2013.


Munro não escreve grandes romances, nem trillers, nem ensaios mais ou menos filosóficos. Ele escreve contos, pequenas histórias quotidianas com personagens que retractam pessoas comuns na vida de pequenas povoações do seu país. São mulheres, famílias, adolescentes , as suas relações humanas analisadas pela lupa dos sentimentos e das emoções.

Encontros casuais, separações, partidas, acidentes, desencontros, acções que não se concretizam, desvios no caminho normal de todos os dias que levam à alteração da rota das vidas, do “destino” , das maneiras de pensar e de viver a vida.

A Academia Sueca, ao anunciar a distinção, referiu a escritora como a “mestre do conto contemporâneo”. Há quem a identifique como herdeira de Tchekhov ou do realismo lírico de James Joyce. Alice Munro possui um talento muito próprio de nos apresentar a essência da vida quotidiana de um modo conciso através de palavras simples nos seus contos e romances.

A editora Relógio D’Água publicou desde 2007 seis antologias de contos de Alice Munro e um romance com aspectos autobiográficos” A Vista de Castle Rock”.

Fugas


Sinopse
As oito histórias reunidas em Fugas falam sobre pessoas - mulheres de todas as idades e de origens diferentes, os seus amigos, amantes, pais e filhos -, cujas vidas, nas mãos de Alice Munro, se tornam tão reais e inesquecíveis quanto as nossas.




Oito contos, oito histórias de mulheres onde a vida e o destino teimam em pregar partidas, afastando pessoas, provocando desencontros e arrastando as personagens para caminhos que não são aqueles que gostariam de percorrer.

Como o próprio nome indica tratam-se de oito fugas, de passados complicados, de laços familiares, de matrimónios, de relações impetuosas, de limitações provocadas pelo envelhecimento ou doenças, ou dos próprios sentimentos e que nos fazem pensar na nossas próprias vidas. Quem somos, quais as opções que tomámos ao longo da vida e de que forma elas condicionaram a nossa vida actual.É fácil identificarmo-nos com algumas das personagens de Munro, pelas suas descrições e pelas suas vidas.

A vida que teima em nos afastar daquilo que sonhamos ou idealizamos em determinada fase e que nada podemos fazer par o evitar. De uma forma suave ou com uma força imensa ela pode arrasar-nos e mergulhar-nos num verdadeiro labirinto de sentimentos e emoções. E é aqui que Munro sabe tão bem interpretar estes conflitos, transpondo-os para o papel, com a leveza de palavras e com a crueldade de sonhos e planos desfeitos e que nada mais podemos fazer do que nos rendermos ao que está reservado.

Os contos “Acaso”, “Em breve”, “Silêncio” surgem-nos como uma trilogia, sem que, ao ler o primeiro, tenhamos a noção de que páginas mais à frente, iremos encontrar novamente Juliet. São três etapas da sua vida que nos surgem em separado e com um intervalo de tempo menor para “Em breve” mas de 20 anos para “Silêncio”. Nestas três histórias assistimos ao desenrolar de uma vida que procura seguir os seus sonhos, ou a sua busca pessoal, mas que no final quando tudo parece bem encaminhado, o chamado Destino revela-nos uma faceta menos esperada e ataca onde menos se espera.

A vida de Juliet prende-nos a atenção, levando-nos a quase não prestar atenção a alguns pormenores que nos vão sendo revelados, ou a outros que estarão subjacentes e não nos são transmitidos nos dois primeiros contos. É aqui que o seu talento é muitíssimo bom, pois o final inesperado acaba por ser um pouco consequência desses factos de que habilmente Munro nos foi desviando a atenção.

Para mim foram os melhores contos do livro, mas todos eles são muito bons.

No entanto não esperem que sejam contos com um final feliz, em que tudo corre bem e ultrapassadas as amarguras da vida, esta traz-nos a felicidade como um presente merecido. Nada disso.

São histórias demasiadamente reais em que a vontade humana e a realidade da vida ou do “destino” andam lado a lado, puxando para um ou outro lado, convergindo por vezes, mas afastando-se irreversivelmente noutras.

Para muitos, o conto é considerado uma arte menor na literatura. Para quem lê os meus comentários e me conhece, sabe bem o quão errada é, para mim, esta opinião, pois sou uma grande defensora dos contos e contistas de todos os tempos.

E sem dúvida nenhuma que Alice Munro tem um lugar cativo entre os melhores!

domingo, 23 de março de 2014

Terra Fria de Manuel Alves



Sinopse

Uma octogenária em fim de vida recebe a visita de um padre aposentado, para a última confissão, e ambos revisitam o passado na esperança de exorcizarem demónios de consciência. Cinquenta anos antes, a mulher fora denunciada à PIDE por um bufo que depois desapareceu sem deixar rasto juntamente com o agente enviado para investigar a denúncia. Mas o demónio de consciência mais antigo nascera anos antes, dos escombros da Segunda Guerra Mundial, nas ruínas de um coração.







Esmeralda, sentindo os passos da morte a aproximar-se, confessa-se. É com esta confissão que vamos entrando na sua vida, longa em idade e longa em vivências. É pela sua própria mão que vamos percorrendo os caminhos tortuosos da pequena aldeia e dos campos verdes do Norte de Portugal. 

Vamos sentindo as alegrias, as tristezas e sobretudo a grande revolta que atinge aquela gente. Uma história dura, cheia de mágoa que nos atinge forte, como um poderoso murro no estomago do qual não conseguimos fugir e vamos percorrendo folha a folha, com os olhos húmidos, o desenrolar da vida do nosso povo, numa época muito própria do nosso país.

A escrita do Manuel Alves, bastante particular e única, tem o condão de nos aproximar das personagens e fazer-nos parte da história. Por uns tempos (a duração da leitura e a fase seguinte) fazemos parte daquele mundo, são nossas as dores de parto da Esmeralda, a revolta do Silvério face à morte do irmão, são nossas as ternuras dos lobos para com o Quim, são nossas todas as intrigas daquela aldeia que neste momento também é nossa. 

É nossa, sim agora cada vez mais, a dor da separação, da partida para longe para poder ganhar a vida!

E no fundo, temos sempre alguém mais distante ou mais perto na linha do tempo, que passou por experiências de vida algo semelhantes e que, por vezes, a vida nos leva a esquecer. Com este livro somos obrigados a lembrar esses tempos, como velhos fantasmas que chegam bem vivos até nós. 

A Esmeralda é forte e a prova viva que o amor vence todas as barreiras, qualquer que seja a sua natureza. O amor de mãe, o amor de mulher, a saudade do amor, tudo converge para uma força imensa do seu interior. 

A escrita do Manuel é assim, leva-nos a Sentir e quantas vezes nos esquecemos disso…

Aconselho a sua leitura e podem aceder, por um preço irrisório aqui.

Lê-se de um fôlego, entre palavrões e lágrimas que a tortura nos faz soltar.



“A liberdade não é coisa que se mata, é vontade que mais cresce quanto mais alguém lhe puxa as raízes do chão, é a vontade indomável de quem quer viver sem a fraqueza obrigatória de se render.” 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Internacional do Contador de Histórias


Apesar de um dia atrasada, não quero deixar passar este dia sem uma pequena homenagem a este dia. Para isso não vou escrever muito, apenas vos deixo uma história fantástica ....


Com sua voz de mulher

Aquele Deus era dono daquela cidade como um mortal seria dono de fazenda ou sítio. Não era grande a cidade. O templo, casas, e campo ao redor. Mas porque era dono daquela cidade, o deus era também responsável pela felicidade dos seus habitantes.

E um dia, pelas preces, percebeu que os habitantes não eram felizes.

- Nada lhes falta, disse o deus, em voz alta. Cuido para que as estações se sigam em boa ordem. Garanto-lhes colheita no campo e comida na mesa. Nenhum grão apodrece nas espigas. Nenhum ovo gora nos ninhos. E seus filhos crescem. Por que então não são felizes?

Porém os homens desconhecem as perguntas dos deuses. E embora tivesse falado em voz tão alta que poderia ser ouvida de uma estrela a outra, ninguém lhe respondeu.

A cidade estava na palma da mão do deus. E ainda assim tão longe que ele não via os sentimentos daquelas pessoas.

- Irei até lá, disse a alta voz. Entre eles, verei melhor que se passa.

E tendo decidido, abriu seus imensos guarda-roupas à procura de uma identidade com a qual apresentar-se no mundo dos mortais. Havia ali peles e couros de todos os animais, da lisa pele da gazela à áspera couraça do rinoceronte. O pescoço da girafa pendia de um cabide, plumas coloridas despontavam na prateleira e numa gavetinha enfileiravam-se as preciosas carapaças dos insetos. Mas dessa vez não seria como animal que desceria à terra. Remexeu entre as peles dos humanos, suspendeu uma escura, bronzeada de sol, hesitou por um instante. Depois escolheu a mais lisa e macia, fechou-se bem dentro dela, cobriu-se com uma túnica. E desceu.

E eis que aquela mulher de longos cabelos apareceu na cidade dizendo que era deus, e ninguém acreditou. Fosse deus, teria vindo como guerreiro, herói, ou homem poderoso. Fosse deus, apareceria como leão, touro bravio ou águia lançando-se das nuvens. Até o crocodilo e a serpente poderiam abrigar deus em seu corpo.

Mas uma mulher vinda das ruas estreitas nada mais podia ser que uma mulher.

E assim o Deus prendeu seus longos cabelos sobre a nuca e foi procurar um trabalho. Mas a uma mulher não se dá trabalho de ferreiro, nem se põe na carroça a conduzir cavalos. Uma mulher não é aquela que comanda soldados. Uma mulher não é sequer aquela que conduz o arado. E depois de muita procura, o Deus-mulher só conseguiu empregar-se em uma casa para ajudar nas tarefas domésticas.

Era uma boa casa a que a acolheu. A esposa diligente, o marido trabalhador. Poeira não se juntava nos cantos, embora a trouxessem em suas sandálias. E os filhos cresciam como crescem filhos que não tem doenças. Porém, pouco sorriam. Cumpriam suas tarefas de dia. À noite juntavam-se no estábulo para aproveitar o calor dos animais. As mulheres fiavam. Os homens consertavam ferramentas ou faziam cestos. Ninguém falava. As noites eram longas depois de longos dias. Os humanos se entediavam.

Até mesmo o Deus, de fuso na mão, se entediava. E uma noite, não suportando a mesmice dos gestos e do silêncio, abriu a boca e começou a contar.

Contou uma história que se havia passado no seu mundo, aquele mundo onde tudo era possível e onde viver não obedecia regras pequenas como as dos homens. Era uma longa história, uma história como ninguém nunca havia contado naquela cidade onde não se contavam histórias. E as mulheres ouviram de olhos bem abertos, enquanto o fio saía fino e delicado entre seus dedos. E os homens ouviram esquecidos de suas ferramentas. E o menino que chorava adormeceu no colo da mãe. E as outras crianças vieram sentar-se aos pés do Deus. E ninguém falou nada enquanto ele contava, embora em seus corações todos estivessem contando com ele.

A noite foi curta aquela noite.

Na noite seguinte, reunidos todos no estábulo, como todas as noites, o deus não falou. As mulheres olhavam para ele de vez em quando, por cima do fuso. Os homens evitavam fazer barulho, deixando o silêncio livre para ele.

Todos esperavam. Mas as crianças, que brincavam com o deus-mulher durante o dia, vieram juntar-se ao seu redor.

Uma puxou de leve a saia do Deus-mulher e pediu: - Conta!

E com sua voz de mulher o Deus contou.

Assim, noite após noite, o Deus entregou suas histórias à família como até então lhes havia entregado as frutas maduras cheias de sementes. E não apenas àquela família, porque logo o vizinho da frente soube, e à noite apresentou-se com os seus no estábulo também para ouvir. E depois foi a vez do vizinho do lado. E em pouco tempo o estábulo estava cheio, e as pessoas amontoavam-se nas janelas e porta.

Agora, durante o dia, enquanto aravam, martelavam, enquanto erguiam o machado, os homens lembravam-se das histórias que tinham ouvido à noite, e tinham a impressão de também navegar, voar, cavalgando trovões e nuvens como aquelas personagens. E as mulheres estendiam lençóis como se armassem tendas, repreendiam o cão como se domassem leões, e atiçando o figo chuçavam dragões. Até o pastor com suas ovelhas não estava mais só, e as ovelhas eram sua legião.

Os homens sorriam debruçados sobre suas tarefas, as mulheres cantavam e tinham gestos amplos nos braços, e as crianças se enrodilhavam estremecidos de medo e prazer. O tédio havia desaparecido.

Foi quando uma mulher que havia estado no estábulo passou a repetir as histórias do Deus para outros habitantes da cidade. Repetir exatamente, não. Aqui e ali acrescentava coisas, tirava outras e cada história, sendo a mesa, era outra. Mais do que contar, recontava. Depois houve um rapaz, que também contava e recontava as histórias. E, o tempo passando, ninguém mais podia dizer com certeza de onde tinha vindo esta ou aquela história, e quem a havia contado primeiro.

Ninguém podia dizer, tampouco, qual o paradeiro daquela mulher de longos cabelos presos sobre a nuca, que um dia havia aparecido na cidade vinda não se sabe de onde. E que em outro dia havia partido com seu carregamento de histórias.

Marina Colasanti
Longe como meu querer
1992
Virginia Sterrett, 1920 (openlibrary.org)

sábado, 8 de março de 2014

8 de Março - Dia Internacional da Mulher e Marina Colassanti

Há quem refira que a 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque fizeram greve. Ocuparam a fábrica e reivindicaram melhores condições de trabalho, nomeadamente equiparação de salários com os homens, menor carga horária e tratamento digno no ambiente de trabalho. 

Esta manifestação foi reprimida com enorme violência e as mulheres foram trancadas dentro da fábrica. Foi incendiada e morreram cerca de 130 tecelãs carbonizadas.

Em muitos locais faz-se referência a esta situação como o despoletar para que a 8 de Março se comemore o Dia Internacional da Mulher. Mas também há fontes que afirmam que este incêndio foi um acidente e que se passou em 25 de Março de 1911.

Há quem refira que a origem deste dia se prenda com as manifestações das mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na Primeira Guerra Mundial.

Várias fontes referem que o primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado em 28 de Fevereiro de 1909 nos Estados Unidos,  em memória do protesto contra as más condições de trabalho das operárias da indústria do vestuário.
No entanto foi no ano de 1910 numa conferência na Dinamarca, dirigida pela Internacional Socialista que foi aprovada a comemoração de um Dia Internacional da Mulher. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU.

Factos históricos um pouco ambíguos, que não determinam a origem certa e o que levou a que este dia 8 de Março sejam considerado o Dia da Mulher, caracterizaram a minha breve busca na internet.
No entanto, factos à parte, o que é certo é que ainda hoje, independentemente de haver um dia para este fim, assistimos a inúmeras situações discriminatórias entre os dois sexos, havendo mesmo certos países em que tal facto é de uma enorme atrocidade.

Não me considero uma feminista, pois acho que cada sexo tem as suas qualidades, defeitos e características e "cada um é como cada qual", cada individuo é um ser próprio e não podemos ser iguais a outro. Mas confesso que defendo direitos iguais, valorizações profissionais iguais e que o trabalho desempenhado por uns e por outros sejam avaliado de uma forma igualmente justa e correcta. 

Sem me querer alongar muito neste comentário apenas vos quero deixar um pequeno conto de uma escritora Marina Colasanti (nascida na Etiópia e que aos 11 anos foi para o Brasil onde vive até aos dias de hoje, daí que o texto esteja em português do Brasil) em homenagem a todas as tecelãs que morreram naquele dia, a todas as outras que desconhecemos e a todas nós mulheres que temos voz e que temos direito a termos vontade própria.


A Moça Tecelã 

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.

Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

- Uma casa melhor é necessária, -- disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cómodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

- É para que ninguém saiba do tapete, -- disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: -- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

 Marina Colassanti.

domingo, 2 de março de 2014

O Beijo da Palavrinha de Mia Couto


Este livro foi-me aconselhado e não consegui resistir.

É um livro infantil, mas que é simplesmente lindo...se é só para crianças, então sejamos todos crianças para podermos perder-nos nas palavras e nos desenhos que ilustram a vida de Maria Poeirinha.

Mia Couto, na sua forma típica de escrever, fala-nos de dois irmãos que nunca viram o mar. No entanto é ele que poderá salvar a menina de uma doença incurável.

Os desenhos são de Danuta Wojciechowska, ilustradora canadiana que vive e trabalha em Portugal.

As cores quentes de África misturam-se com os azuis do mar e do rio. Trazem os cheiros e os sons desse mundo pobre.

Um livro triste, mas que traz as palavras no coração.

Transcrevo a história, mas desde já vos digo que nada tem a ver com o próprio livro na mão, em que se folheia página a pagina, com uma imensidão nostálgica no rosto.



Era uma vez uma menina que nunca vira o mar. Chamava-se Maria Poeirinha. Ela e a sua família eram pobres, viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz.

Poeirinha só ganhara um irmão, o Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as ideias lhe voavam como balões em final de festa. Na miséria em que viviam, nada destoava. Até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos.

Às vezes sonhava que ela se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos.

Mas depressa ela saía do sonho, pois seus pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão.

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar.

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas.

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime.

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

Certa vez, a menina adoeceu gravemente. Num instante, ela ficou vizinha da morte. O Tio não teve dúvida: teriam que a levar à costa.

Para que se curasse, disse ele. Para que ela renascesse tomando conta daquelas praias de areia e onda. E descobrisse outras praias dentro dela.

- Mas o mar cura assim tão de verdade?

- Vocês não entendem? - respondia ele. - Não há tempo a perder. Metam a menina no barco que a corrente a leva em salvadora viagem.

Contudo, a menina estava tão fraca que a viagem se tornou impossível. Todos se aproximavam da cabeceira e ali ficavam sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. A mãe pegou nas mãos da menina e entoou as velhas melodias de embalar.

Em vão. A menina apenas ganhava palidez e o seu respirar era o de um fatigado passarinho. Já se preparavam as finais despedidas quando o irmão Zeca Zonzo trouxe um papel e uma caneta.

- Vou-lhe mostrar o mar, maninha.

Todos pensaram que ele iria desenhar o oceano.




Que iria azular o papel e no meio da cor iria pintar uns peixes. E o Sol em cima, como vela em bolo de aniversário. Mas não. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra

                                             MAR 

Apenas isso: a palavra inteira e por extenso.

O menino ficou olhando para a folha parecendo que não entendia o que ele mesmo escrevera. 

Antes mesmo que ele dissesse alguma coisa, a irmã murmurou, em débil suspiro:

-Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada que já não se consegue levantar.

-Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu.

Os pais chamaram o moço à razão, ele que poupasse a irmã daquela tontice e que a deixasse apenas respirar.

Mas Zeca Zonzo fingiu não escutar. Ele tomou na sua mão os dedos magritos de Maria Poeirinha e os guiou por cima dos traços que desenhara.

-Vês esta letra, Poeirinha?

-Estou tocando sombras, só sombras, só.

Zeca Zonzo levantou os dedos da irmã e soprou neles como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel.

-Experimente outra vez, mana. Com toda a atenção. Agora, já está sentindo?

-Sim. O meu dedo já está a espreitar.

-E que letra é?

E sorriram os dois, perante o espanto dos presentes.

Como se descobrissem algo que ninguém mais sabia. E não havia motivo para tanto espanto. 

Pois a letra m é feita de quê?

É feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem.

E Poeirinha passou o dedo a contornar as concavidades da letrinha.

-É isso, manito. Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.

-E essa outra letrinha, essa que vem a seguir?

Essa a seguir é um  a

É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria.

Em volta todos se haviam calado. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela.

-E a seguinte letrinha?

E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas.


O Tio Jaime Litorâneo, lágrima espreitando nos olhos, disse:

- Calem-se todos: já se escuta o marulhar!

Então do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeira que se erguia? era um simples remoinho de areia branca? 

Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto feito de remoinhos, remendos e retalhos?

Ainda hoje, tantos anos passados, Zeca Zonzo, apontando o rosto da sua irmãzinha na fotografia, clama e reclama.
   
-Eis minha mana poeirinha que foi beijada pelo mar.

E se afogou numa palavrinha.

sábado, 1 de março de 2014

Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade - Carina Portugal




Sinopse

Em pleno séc. XVI, a Inquisição lavra as terras de Inglaterra. Numa aldeia remota, um inocente amarrado à fogueira amaldiçoa todos aqueles que o condenaram à morte. As suas palavras acordam os espíritos da Natureza, e as gémeas Alaina e Leanora pressentem-no. Contudo, o que poderão fazer duas curandeiras para os deter? Além disso, ambas escondem um segredo que as poderá matar ‒ o seu próprio amor.










Desta autora, já tinha lido um pequeno conto Triste e Leda Madrugada no Fantasy&Co há uns tempos atrás, e sempre pensei ler mais, mas a oportunidade só surgiu agora numa leitura conjunta.
Uma coisa, desde já deve ser dita, para que não suscite dúvidas no resto do meu comentário. A autora escreve bem, apresentando uma escrita bastante cuidada em termos gramaticais e bastante fluída. Nada de pretensiosismos, nem de excessiva adjectivação, o que na maioria dos trabalhos dos novos escritores que têm surgido, não acontece.

A história não apresenta nada de novo, o tema é já conhecido, pois são inúmeras as obras históricas ou de ficção que retratam e apresentam este período da história do povo. A perseguição a quem  era acusado de praticar actos de bruxaria ou seguidor de outro tipo de crenças, que não as instituídas pelo poder (normalmente a religião católica), foi durante muitos anos uma prática assumida em muitos países, sobretudo na Europa. Em todo o caso, a história das duas irmãs está bem desenvolvida e interessante com um final muito bem atingido.

No entanto há um conjunto de pormenores que não consigo deixar de os apontar, no sentido de uma critica mais construtiva e não num sentido depreciativo do conto.

Um deles prende-se com o espaço temporal em que decorre a história.Toda a acção passa-se em 6 dias, e nesses dias acontece tanta coisa e com tanta intensidade que me parece completamente forçado. O bebé que perde os pais num fogo, salvando-se miraculosamente, no dia seguinte está feliz e contente na feira (eu sei que os bebés têm um poder muito grande de adaptação às novas realidades, mas...), por outro lado o "irmão" carinhoso passa a .... (não quero spoilar) no mesmo período de tempo, sendo que em metade desses dias consegue pensar na ideia, prepará-la e agir.

As duas irmãs são muito mais do que simples curandeiras, pois no desenvolvimento da história e mesmo no final, elas são capazes de feitos extraordinários, demonstrativos do poder que têm e que conseguem conjurar, mas neste caso porque elas surgem como mulheres tão frágeis, tão inseguras? Pelo menos a mim é esta a sensação que me transmitiram durante todo o conto.

Até pela relação que têm entre elas, que a mim não me chocou, por tudo aquilo que encerram dentro de si e que culmina no desenlace final, elas deveriam ser mulheres fortes, maduras, capazes de dobrar os céus a seu favor.

De qualquer forma, lê-se muito bem e irei certamente ler mais contos da Carina.

Para quem quiser ler este conto, porque vale a pena,  pode encontrá-lo aqui:

https://www.smashwords.com/profile/view/letoofthecrows

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Histórias de Fantasia - Sessão de contos




Na passada sexta-feira, dia 21 de Fevereiro, tive a minha segunda sessão de contos. Um pouco nervosa, pois ainda são muito recentes as minhas andanças neste mundo dos contos, lá fui até à GataFunho para contar quatro histórias de fantasia.

O ambiente é excelente, e é muito bom para mim contar assim num local mais intimista. Estavam 14 pessoas a assistir, entre amigos, familiares e amigos de amigos que eram desconhecidos para mim. 

Para esta sessão escolhi quatro histórias que poderiam ser representativas do tema que escolhi: Fantasia. 

Definir fantasia é uma tarefa que não é fácil e todos nós temos, certamente, uma resposta sob o nosso ponto de vista, mas será que estamos certos? Ou será que encaramos fantasia sob um ponto de vista mais redutor, segundo os nossos gostos pessoais ou de acordo com parâmetros pré-concebidos da época em que vivemos?

Para mim, na minha humilde opinião, Fantasia sempre existiu desde que a humanidade existe e desde que se começaram a contar e a transmitir histórias. Oralmente, os primeiros povos contavam o que viam e o que a sua imaginação via no desconhecido. Pequenos arbustos que, com o vento, projectavam verdadeiros monstros que ameaçavam as tribos e que criavam lendas que passavam de geração em geração., e muitas outras histórias surgiram ao longo dos tempos.

Mas não me quero alongar com um tema que daria “pano para mangas” só por si. O que me interessa hoje é falar-vos do que contei nesta sessão.

Tentei ter algum cuidado na escolha das histórias, por forma a contemplar diferentes vertentes deste mundo gigantesco a que chamamos Fantasia.

Vou apresentar um pequeno resumo de cada uma das minhas escolhas, bem como um pequeno excerto das histórias.


O Estudante e o seu filho – Gene Wolfe


Para quem não conheça, Gene Wolfe é um escritor norte-americano que escreveu, entre outros “O Livro do Novo Sol”. Este é composto por cinco volumes, onde Severian, habitante de um mundo a que o autor apelidou de Urth (provavelmente uma distorção de Earth, a Terra), nos escreve a viagem que empreendeu desde a sua infância, um aprendiz de torturador, até ao seu derradeiro final.

Uma viagem que passa pelo conhecimento do seu mundo e consequentemente pela história do seu próprio planeta. É também, na minha opinião, uma viagem pessoal, à sua voz interior ou às mil vozes que o compõem. Quem é este homem, dono de uma memória infalível, como ele próprio tantas vezes afirma, é a questão que colocamos desde o início até ao fim de cada livro. 

Durante a sua viagem Severian fez-se acompanhar de um pequeno livro de capa castanha “O Livro de Urth” que é composto por um conjunto de pequenas história que ele vai lendo ao longo do caminho. É pois uma dessas histórias que escolhi para partilhar com o meu público.

“O Estudante e o seu filho” fala-nos de um estudante, que no final do seu treino para mágico, cria um filho de carne a partir da matéria dos sonhos. Este jovem, criado a partir dos sonhos, parte numa missão para salvar as donzelas, que foram aprisionadas por um ogre que vive numa ilha circundada por um imenso labirinto de canais e braços de mar. Neste pequeno resumo, parece uma história como tantas outras em que o herói parte para salvar a princesa às garras do Dragão. 

Mas é muito mais do que isso. A escrita de Wolfe é quase poética, cheia de significados e simbolismos, obriga-nos a uma leitura atenta. O percurso feito pelo jovem até ao seu destino está cheio de pequenas peripécias e de descrições de toda a envolvente. E o sonho, mais uma vez, sabemos que “comanda a vida”, e comanda toda esta história.


“Com o tempo, o dourado outono gastou-se e, furtivamente, veio o inverno, da sua capital gelada, onde o sol desliza ao longo da borda do mundo como uma bola enfeitada de pechisbeque e onde os fogos que fluem entre Urth e as estrelas incendeiam o céu. Transformou em aço as ondas, ao tocá-las, e a cidade dos mágicos deu-lhe as boas-vindas, pendurando colgaduras de gelo nas varandas e cobrindo os telhados de merengue de neve. O velho convocou outra vez o estudante e o estudante respondeu como antes.

A primavera chegou e com ela alegria para toda a natureza, mas na primavera a cidade cobria-se de negro; e o ódio e o desprezo pelos poderes próprios – que rói como um verme no coração – abateu-se sobre os mágicos. É que a cidade não tinha senão uma lei e uma maldição, e, embora a lei tivesse poder todo o ano, a maldição dominava a primavera. Na primavera, as mais belas donzelas da cidade, as filhas dos magos, vestiam-se de verde; e, enquanto as brisas da primavera brincavam com os seus dourados cabelos, elas cruzavam descalças o portal da cidade e desciam o estreito caminho que levava ao cais e embarcavam no navio de velas negras que as esperava. E, por causa dos cabelos dourados e dos vestidos de faille verde e porque parecia aos mágicos que elas eram colhidas como o milho, chamavam-lhes “donzelas do milho”.



A Sombra - Hans Christian Andersen

Apesar de ser mais conhecido como escritor no campo da literatura infantil, Hans Christian Andersen destacou-se igualmente como escritor do conto fantástico no final do século XIX, do qual “A Sombra” constitui um bom exemplo pela subtileza e criatividade expressas neste conto.

O tema não era novidade, foram vários os contos que surgiram em que o Homem perdia a sua sombra e várias as interpretações que se davam a esta questão. Por um lado uns defendiam a sombra como sendo um reflexo da alma, logo perder a sombra era a perda da alma; outros porém defendiam que ela é a essência do ser humano, o “duplo” que cada um de nós possui. Alguns ainda defendiam que podia ser um desejo de estar junto da pessoa amada que levava à separação.

Mas Andersen cria uma Sombra que se emancipa, que vinga no mundo e prospera. O reencontro final não é o que esperamos, e o mundo não se compadece de quem defende os valores da beleza e da justiça.

"Mas o que o senhor viu? Todos os deuses da Antiguidade andavam pelos vastos salões? Os velhos heróis travavam combate? Crianças gentis brincavam e contavam os seus sonhos?"

"Estou lhe dizendo que estive lá, e o senhor pode imaginar que vi todas as coisas que havia para ver! Se o senhor tivesse estado lá, não teria se transformado em homem, mas foi o que aconteceu comigo! E em pouco tempo aprendi a conhecer a minha natureza mais íntima, as minhas características inatas, meu parentesco com a Poesia. Na época em que eu vivia com o senhor, não pensava nessas coisas, mas, como o senhor bem sabe, toda vez que o sol nascia ou se punha eu ficava fantasticamente grande; com efeito, à luz do luar eu quase ficava mais nítido do que o senhor; naquele tempo eu não compreendia a minha natureza; naquela antecâmara é que tudo se desvendou para mim! Eu me transformei em homem! Saí de lá amadurecido, mas o senhor já não se encontrava nas terras quentes; como homem, eu me envergonhava de andar com aquele aspecto. “



Smith de Wootton Major – J.R.R. Tolkien

Este foi o último conto, do autor, a ser publicado (1967), antes da sua morte em 1973. 

Em Wootton Major é realizado um banquete de 24 em 24 anos, no qual o cozinheiro “municipal” tem de fazer um bolo para 24 crianças que são convidadas. Tem de ser um bolo único e especial. No meio da massa do bolo é colocada uma pequena estrela que alguma criança irá engolir sem dar conta. Uma estrela mágica que mudará a sua vida para sempre.

O tempo e espaço de “Smith de Wootton Major” são claramente os do conto de fadas. Aqui é possível viajar entre mundos, o dos humanos e o dos “Faërie”. Tolkien sempre se debateu contra aqueles que não acreditavam em fantasia e esta história pretende retratar esta questão. 

As fadas da teoria de Tolkien partilham com os Elfos os segredos sobre a natureza e o mundo há muito esquecidos pelo homem, eles são seres inteligentes, sensíveis e detentores de capacidades extra-sensoriais que remontam à formação do mundo e que lhes permitem viver numa harmonia cósmica inigualável.

Numa localidade onde só acreditam em fadas, as crianças e alguns adultos, surge a prova de que os “Faërie” realmente existem e Smith tem em seu poder o passaporte para esse mundo.

"A princípio, no Reino das Fadas, andou em grande parte, pacatamente, entre a gente de menos importância e as bondosas criaturas das florestas e dos prados de belos vales, e pela beira das luminosas águas onde à noite brilhavam estranhas estrelas e ao alvorecer se espelhavam os picos cintilantes de montanhas longínquas. Algumas das suas visitas mais breves passou-as a olhar apenas para uma flor ou para uma árvore; mas mais tarde, em viagens mais longas, viu coisas em que havia simultaneamente beleza e terror e de que depois não conseguia lembrar-se claramente nem contar aos seus amigos, embora soubesse que tinham ficado a habitar no fundo do seu coração. Mas algumas coisas não as esquecia e permaneciam-lhe na mente como maravilhas e mistérios que frequentemente recordava.


Quando começou a caminhar para longe sem um guia, pensou que descobriria os limites extremos da Terra; mas ergueram-se à sua frente grandes montanhas e, indo por longos caminhos à volta delas, chegou por fim a uma costa desolada. Parou ao lado do mar da Tempestade sem Vento, onde as ondas azuis como montes coroados de neve rolam silenciosamente, vindas do Não Iluminado para a praia comprida e trazendo os barcos brancos que regressam de batalhas nas Marcas Escuras das quais os homens nada sabem. Viu um grande barco ser lançado, alto, para terra e as águas recuarem em espuma, sem um ruído. Os marinheiros élficos eram altos e terríveis; as suas espadas brilhavam, as suas lanças cintilavam, e tinham nos olhos uma luz não penetrante. De súbito, ergueram a voz num canto triunfal e o coração de Smith estremeceu de medo, e ele caiu de bruços e eles passaram-lhe por cima e afastaram-se para os montes ecoantes."




O Bicho-Papão – Dino Buzzati


A história começa com o engenheiro Roberto Paudi a chegar a casa e ver a ama do seu filho a deitá-lo e a dizer-lhe que, se não ficasse quieto, o bicho-papão apareceria. Indignado, ele repreende-a com estas superstições tolas e sem fundamento, capazes de provocar sérios danos na psique imatura do filho. É claro que houve quem não gostasse de ouvir esta reprimenda e nessa mesma noite, os sonhos do engenheiro Paudi, foram bem animados com a presença desse visitante que pode assumir as formas mais diversas e que foi apanhado pelo próprio, quando de manhã tentava sair sorrateiramente do quarto através da parede.

O que sucede a seguir é uma verdadeira caça ao Bicho-Papão, num mundo onde o poder público é tão abusivo ao ponto de tentar destruir o que é enigmático. 

Dino Buzzati escreve este conto onde o ponto fulcral é a morte da fantasia e da ternura, frente a um despotismo político.

“Ao contrário do que Pauli esperava, não só o assunto foi encarado por todos com grande seriedade, mas a sua tese, que poderia parecer óbvia, encontrou acirradas oposições. Algumas vozes levantaram-se para defender uma pitoresca e inofensiva tradição que se perdia na noite dos tempos, insistindo na completa inocuidade do monstro noturno, aliás, absolutamente silencioso, e ressaltando os benéficos efeitos educativos da sua presença. Alguns falaram claramente num “atentado contra o património cultural da cidade” caso se recorresse a medidas repressivas. E o orador foi calorosamente aplaudido.

Por outro lado, quanto ao mérito da questão, prevaleceram enfim os irresistíveis argumentos aos quais apela, com demasiada frequência, o chamado progresso para destruir as últimas cidadelas do mistério. O bicho-papão foi acusado de deixar uma marca nociva nas almas infantis, de suscitar, às vezes, pesadelos contrários aos princípios da correta pedagogia. Também foram discutidas questões de higiene: sim, é verdade, o mastodonte nocturno não sujava a cidade nem espalhava nenhum tipo de excremento, mas quem poderia garantir que não fosse portador de germes e vírus? Também nada se sabia de positivo sobre o seu credo político: como excluir o facto de que as suas sugestões, aparentemente tão elementares, se não simplórias, escondessem insidias subversivas?”

Agradeço a todos os que me têm apoiado, e a todos os que tiveram presentes quer fisicamente, quer em espírito. Sem vocês, nada deste meu sonho seria possível.

O meu muito obrigado à GataFunho e à Ana Paula Faria pela confiança que depositou em mim e pelo carinho que tem demonstrado para com os Contadores de Histórias de uma forma geral e para com os que agora se iniciam.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A magia das histórias



As histórias, os contos sempre fizeram parte da minha vida desde que me lembro de ser gente. A minha mãe contava-me histórias quando era criança e elas faziam-me sonhar com mundos longínquos e ter amigos fantásticos. Infelizmente a minha mãe não gostava de fantasia, a realidade era um ponto-chave para ela e as suas histórias que à luz do dia eram reais, durante a noite, esvoaçavam pelo meu sonho transformando-se em pequenos seres míticos, florestas perdidas com árvores sussurrantes e quedas de água misteriosas. Aí, no mundo dos meus sonhos, eu era a que viajava, a que procurava novas aventuras para me divertir.

Mais tarde este gosto intensificou-se. E desde sempre me vi a ler histórias, contos de todos os “géneros e feitios”. Caminhei sempre entre os mundos, o real e o da fantasia. Procurei na natureza, a beleza dos velhos trilhos que percorria em criança, nos meus sonhos, e encontrei-os.
São esses trilhos que percorro hoje, por florestas verdes e musgosas, por meio de pedras que sussurram histórias antigas e ventos que trazem vozes desconhecidas.

É por isso que hoje sou caminhante… 

Caminho entre mundos, encho os bolsos de pequenos pedaços de cada mundo que visito, de pequenos textos, de pequenas histórias. 

Puxo por um braço de um pequeno anão que se encontra alojado no meu bolso direito e logo sinto o rugido do dragão no bolso esquerdo, atrás do anão vem uma nave interestrelar e com ela um planeta de areias moribundas habitadas por vermes gigantes que devoram pouco a pouco o sol e as duas luas que brilham azuis no céu sem estrelas…

Recentemente, descobri um novo trilho… ladeado de pequenos bosquetes por entre as veredas escarpadas, mas por onde as histórias podem correr ainda mais livremente, podendo-se expandir, como sombras que se esticam ao sol.

Um amigo abriu-me a porta, eu entrei e descobri o mundo dos contadores de histórias, deixando-me levar por ele.

A partir de hoje irei desenvolver um campo, aqui no blogue dedicado aos contos que vou lendo e sobre as minhas sessões de contadora de histórias. 

Convido-vos todos a entrarem neste mundo tão fantástico e a partilharem as vossas opinões, sugestões e tudo aquilo que quiserem…


Deixo-vos um pequeno conto Zen de boas vindas : A Chávena de Chá


Um professor de filosofia foi ter com um mestre zen, Nan-In, e fez-lhe perguntas sobre Deus, o nirvana, meditação e muitas outras coisas. O Mestre ouviu-o em silêncio e depois disse.
- Pareces cansado. Escalaste esta alta montanha, vieste de um lugar longínquo. Deixa-me primeiro servir-te uma chávena de chá.
O Mestre fez o chá. Fervilhando de perguntas, o professor esperou. Quando o Mestre serviu o chá encheu a chávena do seu visitante e continuou a enche-la. A chávena transbordou e o chá começou a cair do pires até que o seu visitante gritou:
- Pára. Não vês que o pires está cheio?
- É exactamente assim que te encontras. A tua mente está tão cheia de perguntas que mesmo que eu responda não tens nenhum espaço para a resposta. Sai, esvazia a chávena e depois volta.


Pois é, esvaziem as vossas mentes e venham enchê-las com a magia das histórias ….




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Tábua de Flandres de Arturo Pérez-Reverte




Sinopse:

No final do século XV, um velho mestre flamengo introduz num dos seus quadros um enigma que pode mudar a história da Europa. No quadro, o duque de Ostenburgo e o seu cavaleiro estão embrenhados numa partida de xadrez enquanto são observados por uma misteriosa dama vestida de negro. Todavia, à época em que o quadro foi pintado, um dos jogadores já havia sido assassinado.
Cinco séculos depois, uma restauradora de arte encontra a inscrição oculta: uis necavit equitem? (Quem matou o cavaleiro?) Auxiliada por um antiquário e um excêntrico jogador de xadrez, a jovem decide resolver o enigma. A investigação assumirá contornos muito singulares: o seu êxito ou fracasso será determinado, jogada a jogada, através de uma partida de xadrez constantemente ameaçada por uma sucessão diabólica de armadilhas e equívocos.

Livro fundamental para os amantes do mistério, A Tábua de Flandres foi a obra que tornou Arturo Pérez-Reverte o escritor espanhol contemporâneo mais lido em todo o mundo. Já adaptado ao cinema, é um apaixonante puzzle que o autor encadeia com uma destreza absolutamente excepcional.
 

Como a sinopse refere, uma jovem restauradora de obras de arte, descobre uma inscrição oculta na pintura em que se encontra a trabalhar. Um quadro que retracta uma partida de xadrez disputada entre duas personagens, sendo que foi pintado dois anos após o assassinato de uma delas.

A partir do momento em que este facto, bem como a inscrição misteriosa se tornam perceptíveis, um desencadear de situações e de acontecimentos, transformam a vida pacata de Júlia (a restauradora) num reboliço imparável. E quando se pensa que tudo se resume a uma investigação no mundo das antiguidades, surge um jogador misterioso que vem transformar um mistério antigo, ainda por revelar ao fim de 5 séculos, num outro mistério, cheio de armadilhas, que envolve todos os protagonistas e que se desenvolve ao ritmo de cada lance num tabuleiro de xadrez.

A Dama Branca e a Dama Preta, bem como o Cavaleiro (antigamente era este o nome dado ao Cavalo) e o seu Bispo, são peças fundamentais deste jogo que se move com uma aguçada agilidade, e que vai por a nu todas as facetas que a ambição e o poder exercem sobre a mente humana.

Um livro muito bom e muito ao género que o Arturo Pérez-Reverte vai habituando os seus seguidores. Uma escrita cativante que agradará certamente a todos aqueles que gostam de um bom mistério e uma boa partida de xadrez.

O final, que acaba por ser um pouco previsível (desde que estejamos com atenção a pequenos pormenores que ocorrem ao longo do desenrolar da história) não tira o interesse com que vamos acompanhando a partida de xadrez que se vai jogando em plena vida madrilena.

Um bom livro, um bom escritor do qual irei ler um dia destes “O Clube Dumas” (livro que inspirou o filme “A Nona Porta”).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Caverna das Ideias de José Carlos Somoza



Sinopse:

“A Caverna das Ideias” é uma história intrigante: vários jovens, alunos da Academia do filósofo Platão, são assassinados selvaticamente. Diágoras, professor daqueles jovens, encarrega Heracles Pontor, o Decifrador de Enigmas, de descobrir a verdadeira causa das mortes. Acontece que, mesmo depois de expor a solução do crime, Heracles desconfia ter sido enganado pelas aparências.

O tradutor decifra “A Caverna das Ideias”, perseguindo obsessivamente uma possível mensagem oculta. Acontece que, mesmo depois de expor a solução do texto, o tradutor desconfia ter sido enganado pelas aparências.

O autor desconfia que o próprio livro é uma aparência.

…e os leitores reformulam calmamente as suas próprias hipóteses ao longo destes 12 inesquecíveis capítulos, julgando que ocupam o único lugar seguro.



Aparentemente estamos perante uma intrigante história policial passada na Grécia antiga. Três jovens alunos da Academia de Platão, surgem assassinados nas ruas de Antenas, com os corpos mutilados, e pelas características pensa-se, inicialmente, que poderá ter sido um ataque de lobos. 

Diágoras, mestre dos três jovens e seguidor de Platão, solicita a Heracles Pontor, famoso Decifrador de Enigmas, que o ajude a perceber o que terá levado a estes crimes horrendos e que chocam quer a Academia, quer a vida de Atenas. Heracles vai decifrando cada pista, sendo que atrás de cada uma, vão surgindo novas questões por desvendar.

No entanto, ao longo do livro, vamos percebendo que nada do que parece é. E que, conforme referido na sinopse, as aparências acabam por nos enganar ao longo de toda a obra.

Só esta parte da história e toda a trama que se desenrola á sua volta, é suficiente para que leiamos o livro com bastante agrado. Mas José Carlos Somoza não se fica por aqui. 

As questões filosóficas sempre presentes, do início ao fim, nos diálogos de um mestre, Diágoras, que partilha da doutrina dos filósofos antigos, nomeadamente de Platão e da sua teoria das Ideias, com um homem, Heracles Pontor, que apenas acredita naquilo que vê e naquilo que se pode provar no dia-a-dia, bem como o Tradutor que vai traduzindo o texto e que nos vai dando conhecimento, nas N.T. da sua reflexão sobre o texto, fazem esta obra invulgar tornar-se sublime.

O Tradutor há medida que traduz vai descobrindo várias pistas que fazem com que ele fique convencido que nos encontramos perante uma obra eidética. Para quem não saiba, a eidese, segundo o próprio Tradutor, é uma técnica literária inventada pelos escritores gregos antigos para transmitir nas suas obras pistas ou mensagens secretas, consistindo em repetir metáforas ou palavras que, isoladas, formam para um leitor perspicaz uma ideia ou uma imagem independente do texto original.

Na procura das mensagens escondidas por detrás do texto ele, o Tradutor, acaba por perceber que algo está errado, que as personagens do texto falam com ele e que ele próprio faz parte da história. De que forma? Já não vos posso dizer.

Um livro muito bom em que chegamos até à última página a ser constantemente surpreendidos.

“Ah, a literatura!...- exclamou. – Meu amigo, ler não é pensar a sós: ler é dialogar! Porém o diálogo da leitura é um diálogo platónico: o teu interlocutor constituí uma ideia. Contudo não se trata de uma ideia imutável: ao dialogares com ela, modifica-la, torna-la tua, chegas a acreditar na sua existência autónoma…”

domingo, 5 de janeiro de 2014



"... Sou apenas um caminhante

Que perdeu o medo de se perder

Estou certo de que sou imperfeito

Podem chamar-me louco

Podem gozar das minhas ideias

Não importa!

O que importa é que sou um caminhante

Que vende sonhos aos transeuntes

Não tenho bússola nem agenda

Não tenho nada, mas tenho tudo

Sou apenas um caminhante

À procura de si mesmo."


"O vendedor de sonhos" de Augusto Cury


Quando li este poema, não pude deixar de partilhá-lo convosco, porque com ele me identifiquei de imediato.


(Augusto Cury, brasileiro, é médico, psiquiatra e escritor. Pesquisador na área do desenvolvimento da inteligência Cury desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal sobre o funcionamento da mente humana no processo de construção do pensamento e na formação de pensadores.)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2013 como foi?



Fazer um balanço de um ano inteiro é sempre um bico de obra... que vos posso dizer deste ano que passou?

Foi um ano recheado de bons livros, sugestões de amigos que se revelaram boas surpresas e algumas foram verdadeiramente surpreendentes.

Não vos vou dizer quais os livros que li durante todo o ano pois poderão consultar no blogue (irei actualizar a lista que está na página de leituras de 2013). Mas irei relembrar aqueles que mais me marcaram.

É difícil dizer qual o pior livro que li em 2013, pois não tenho nenhum que diga: "eh pá, não gostei mesmo nada disto!"

No entanto é fácil referir quais os que gostei mais, não tenho qualquer dúvida, apesar de ter gostado de muitos.

Pois é, o "1º lugar" vai para:

"O Livro do Novo Sol" de Gene Wolfe, que é composto por cinco volumes:

- "A Sombra do Torturador"
- "A Garra do Conciliador"
- "A Espada do Lictor"
- "A Cidadela do Autarca"
- "Urth do novo Sol"

Um livro que me fascinou, quer pela escrita genial, quer pelo mundo criado, quer pelos personagens. Um misto de fantasia e FC, que nos vai surpreendendo de página em página, de livro em livro. Nada do que parece é, chegamos a cada livro com a sensação de que tudo para trás não é, afinal, como pensámos que era!

Paralelamente Haruki Murakami também continua a deixar marcas positivas na minha estante, "O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo" está classificado como FC, mas sobretudo, na minha opinião, é a escrita deliciosa de Murakami que o transforma num dos eleitos de 2013. Também o "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo" dá-nos a conhecer um pouco mais do escritor e do seu mundo interior.

Outra grande descoberta, deste ano que terminou, foi o escritor português Afonso Cruz. Dos três livros que li, destaco "Para onde vão os guarda-chuvas".

Também Harry Harrison com o seu livro "A oeste do Éden" tem um lugar cativo no topo da lista. Novamente a FC dos anos 60 no seu melhor.

Não quero deixar de referir um conjunto de escritores emergentes, dos quais li vários contos, e livros em leituras conjuntas e que merecem o seu destaque, falo de Anton Stark, Manuel Alves, Pedro Cipriano e Carlos Silva.

Para terminar é importante comentar que 2013 foi um ano de contos. Li bastantes contos e escritores fantásticos neste género literário.
Guy de Maupassant com os seus "Contos insólitos", nomeadamente o conto "O Horla"; Selma Langerlöf com o seu "O Livro das lendas" e agora no final do ano relembrei vários contos de Natal de Charles Dickens. Estes são apenas alguns dos exemplos mais relevantes.

Os contos, as histórias foram um marco extraordinariamente importante em 2013. A descoberta de uma nova forma de lidar com elas, que há muito tempo já admirava, remeteu-as para um primeiro plano na minha vida. 

Após formação especifica, aceitei o desafio de me tornar contadora de histórias. Contar no papel já era normal para mim, mas agora estreei-me perante um público, frente a frente, olhos nos olhos e só vos digo que é absolutamente fantástico.

Foi no dia 21 de Dezembro, com a chegada do solstício de inverno que me estreei a contar duas histórias de Natal de dois autores que admiro bastante "Um cântico de natal" de Charles Dickens e "A lenda da rosa de natal" de Selma Langerlöf.

Resumindo, 2013 foi um ano cheio de coisas boas em termos de leituras, histórias e outras magias que se possam encontrar por aí espalhadas, à espera que as possamos descobrir.

Um muito obrigado a todos os que me ajudaram (não vou mencionar ninguém, porque os próprios sabem quem são), com bons conselhos e com amizade a realizar boas leituras e alguns sonhos.


foram

Mais um ano...




Um ano passou...

Passou 2013 e passou um ano de existência deste blogue. 

Ele surgiu com o inicio do ano e com a vontade, que temos sempre, de podermos fazer algo diferente no novo ano que se aproxima. 

Um ano depois, que posso dizer a não ser que estou feliz por ter conseguido levar este projecto para a frente. Fui comentando, partilhando com todos aqueles que me visitam e dialogando com os frequentadores mais assíduos. 

Não quis compromissos de parcerias, apenas quero escrever e ler livremente, sem ter a pressão de leituras obrigatórias e fico satisfeita por ter seguido esse meu principio.

Espero que tenham gostado deste pequeno espaço e do que fui partilhando ao longo do ano, aceito comentários e sugestões do que gostariam de ver por aqui. 

Agradeço a todos, porque sem as vossas visitas o blogue não seria o mesmo.

Um feliz 2014 para todos vós, que a felicidade inunde os vossos corações e que os vossos sonhos se realizem...