quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Tábua de Flandres de Arturo Pérez-Reverte




Sinopse:

No final do século XV, um velho mestre flamengo introduz num dos seus quadros um enigma que pode mudar a história da Europa. No quadro, o duque de Ostenburgo e o seu cavaleiro estão embrenhados numa partida de xadrez enquanto são observados por uma misteriosa dama vestida de negro. Todavia, à época em que o quadro foi pintado, um dos jogadores já havia sido assassinado.
Cinco séculos depois, uma restauradora de arte encontra a inscrição oculta: uis necavit equitem? (Quem matou o cavaleiro?) Auxiliada por um antiquário e um excêntrico jogador de xadrez, a jovem decide resolver o enigma. A investigação assumirá contornos muito singulares: o seu êxito ou fracasso será determinado, jogada a jogada, através de uma partida de xadrez constantemente ameaçada por uma sucessão diabólica de armadilhas e equívocos.

Livro fundamental para os amantes do mistério, A Tábua de Flandres foi a obra que tornou Arturo Pérez-Reverte o escritor espanhol contemporâneo mais lido em todo o mundo. Já adaptado ao cinema, é um apaixonante puzzle que o autor encadeia com uma destreza absolutamente excepcional.
 

Como a sinopse refere, uma jovem restauradora de obras de arte, descobre uma inscrição oculta na pintura em que se encontra a trabalhar. Um quadro que retracta uma partida de xadrez disputada entre duas personagens, sendo que foi pintado dois anos após o assassinato de uma delas.

A partir do momento em que este facto, bem como a inscrição misteriosa se tornam perceptíveis, um desencadear de situações e de acontecimentos, transformam a vida pacata de Júlia (a restauradora) num reboliço imparável. E quando se pensa que tudo se resume a uma investigação no mundo das antiguidades, surge um jogador misterioso que vem transformar um mistério antigo, ainda por revelar ao fim de 5 séculos, num outro mistério, cheio de armadilhas, que envolve todos os protagonistas e que se desenvolve ao ritmo de cada lance num tabuleiro de xadrez.

A Dama Branca e a Dama Preta, bem como o Cavaleiro (antigamente era este o nome dado ao Cavalo) e o seu Bispo, são peças fundamentais deste jogo que se move com uma aguçada agilidade, e que vai por a nu todas as facetas que a ambição e o poder exercem sobre a mente humana.

Um livro muito bom e muito ao género que o Arturo Pérez-Reverte vai habituando os seus seguidores. Uma escrita cativante que agradará certamente a todos aqueles que gostam de um bom mistério e uma boa partida de xadrez.

O final, que acaba por ser um pouco previsível (desde que estejamos com atenção a pequenos pormenores que ocorrem ao longo do desenrolar da história) não tira o interesse com que vamos acompanhando a partida de xadrez que se vai jogando em plena vida madrilena.

Um bom livro, um bom escritor do qual irei ler um dia destes “O Clube Dumas” (livro que inspirou o filme “A Nona Porta”).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Caverna das Ideias de José Carlos Somoza



Sinopse:

“A Caverna das Ideias” é uma história intrigante: vários jovens, alunos da Academia do filósofo Platão, são assassinados selvaticamente. Diágoras, professor daqueles jovens, encarrega Heracles Pontor, o Decifrador de Enigmas, de descobrir a verdadeira causa das mortes. Acontece que, mesmo depois de expor a solução do crime, Heracles desconfia ter sido enganado pelas aparências.

O tradutor decifra “A Caverna das Ideias”, perseguindo obsessivamente uma possível mensagem oculta. Acontece que, mesmo depois de expor a solução do texto, o tradutor desconfia ter sido enganado pelas aparências.

O autor desconfia que o próprio livro é uma aparência.

…e os leitores reformulam calmamente as suas próprias hipóteses ao longo destes 12 inesquecíveis capítulos, julgando que ocupam o único lugar seguro.



Aparentemente estamos perante uma intrigante história policial passada na Grécia antiga. Três jovens alunos da Academia de Platão, surgem assassinados nas ruas de Antenas, com os corpos mutilados, e pelas características pensa-se, inicialmente, que poderá ter sido um ataque de lobos. 

Diágoras, mestre dos três jovens e seguidor de Platão, solicita a Heracles Pontor, famoso Decifrador de Enigmas, que o ajude a perceber o que terá levado a estes crimes horrendos e que chocam quer a Academia, quer a vida de Atenas. Heracles vai decifrando cada pista, sendo que atrás de cada uma, vão surgindo novas questões por desvendar.

No entanto, ao longo do livro, vamos percebendo que nada do que parece é. E que, conforme referido na sinopse, as aparências acabam por nos enganar ao longo de toda a obra.

Só esta parte da história e toda a trama que se desenrola á sua volta, é suficiente para que leiamos o livro com bastante agrado. Mas José Carlos Somoza não se fica por aqui. 

As questões filosóficas sempre presentes, do início ao fim, nos diálogos de um mestre, Diágoras, que partilha da doutrina dos filósofos antigos, nomeadamente de Platão e da sua teoria das Ideias, com um homem, Heracles Pontor, que apenas acredita naquilo que vê e naquilo que se pode provar no dia-a-dia, bem como o Tradutor que vai traduzindo o texto e que nos vai dando conhecimento, nas N.T. da sua reflexão sobre o texto, fazem esta obra invulgar tornar-se sublime.

O Tradutor há medida que traduz vai descobrindo várias pistas que fazem com que ele fique convencido que nos encontramos perante uma obra eidética. Para quem não saiba, a eidese, segundo o próprio Tradutor, é uma técnica literária inventada pelos escritores gregos antigos para transmitir nas suas obras pistas ou mensagens secretas, consistindo em repetir metáforas ou palavras que, isoladas, formam para um leitor perspicaz uma ideia ou uma imagem independente do texto original.

Na procura das mensagens escondidas por detrás do texto ele, o Tradutor, acaba por perceber que algo está errado, que as personagens do texto falam com ele e que ele próprio faz parte da história. De que forma? Já não vos posso dizer.

Um livro muito bom em que chegamos até à última página a ser constantemente surpreendidos.

“Ah, a literatura!...- exclamou. – Meu amigo, ler não é pensar a sós: ler é dialogar! Porém o diálogo da leitura é um diálogo platónico: o teu interlocutor constituí uma ideia. Contudo não se trata de uma ideia imutável: ao dialogares com ela, modifica-la, torna-la tua, chegas a acreditar na sua existência autónoma…”

domingo, 5 de janeiro de 2014



"... Sou apenas um caminhante

Que perdeu o medo de se perder

Estou certo de que sou imperfeito

Podem chamar-me louco

Podem gozar das minhas ideias

Não importa!

O que importa é que sou um caminhante

Que vende sonhos aos transeuntes

Não tenho bússola nem agenda

Não tenho nada, mas tenho tudo

Sou apenas um caminhante

À procura de si mesmo."


"O vendedor de sonhos" de Augusto Cury


Quando li este poema, não pude deixar de partilhá-lo convosco, porque com ele me identifiquei de imediato.


(Augusto Cury, brasileiro, é médico, psiquiatra e escritor. Pesquisador na área do desenvolvimento da inteligência Cury desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal sobre o funcionamento da mente humana no processo de construção do pensamento e na formação de pensadores.)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2013 como foi?



Fazer um balanço de um ano inteiro é sempre um bico de obra... que vos posso dizer deste ano que passou?

Foi um ano recheado de bons livros, sugestões de amigos que se revelaram boas surpresas e algumas foram verdadeiramente surpreendentes.

Não vos vou dizer quais os livros que li durante todo o ano pois poderão consultar no blogue (irei actualizar a lista que está na página de leituras de 2013). Mas irei relembrar aqueles que mais me marcaram.

É difícil dizer qual o pior livro que li em 2013, pois não tenho nenhum que diga: "eh pá, não gostei mesmo nada disto!"

No entanto é fácil referir quais os que gostei mais, não tenho qualquer dúvida, apesar de ter gostado de muitos.

Pois é, o "1º lugar" vai para:

"O Livro do Novo Sol" de Gene Wolfe, que é composto por cinco volumes:

- "A Sombra do Torturador"
- "A Garra do Conciliador"
- "A Espada do Lictor"
- "A Cidadela do Autarca"
- "Urth do novo Sol"

Um livro que me fascinou, quer pela escrita genial, quer pelo mundo criado, quer pelos personagens. Um misto de fantasia e FC, que nos vai surpreendendo de página em página, de livro em livro. Nada do que parece é, chegamos a cada livro com a sensação de que tudo para trás não é, afinal, como pensámos que era!

Paralelamente Haruki Murakami também continua a deixar marcas positivas na minha estante, "O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo" está classificado como FC, mas sobretudo, na minha opinião, é a escrita deliciosa de Murakami que o transforma num dos eleitos de 2013. Também o "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo" dá-nos a conhecer um pouco mais do escritor e do seu mundo interior.

Outra grande descoberta, deste ano que terminou, foi o escritor português Afonso Cruz. Dos três livros que li, destaco "Para onde vão os guarda-chuvas".

Também Harry Harrison com o seu livro "A oeste do Éden" tem um lugar cativo no topo da lista. Novamente a FC dos anos 60 no seu melhor.

Não quero deixar de referir um conjunto de escritores emergentes, dos quais li vários contos, e livros em leituras conjuntas e que merecem o seu destaque, falo de Anton Stark, Manuel Alves, Pedro Cipriano e Carlos Silva.

Para terminar é importante comentar que 2013 foi um ano de contos. Li bastantes contos e escritores fantásticos neste género literário.
Guy de Maupassant com os seus "Contos insólitos", nomeadamente o conto "O Horla"; Selma Langerlöf com o seu "O Livro das lendas" e agora no final do ano relembrei vários contos de Natal de Charles Dickens. Estes são apenas alguns dos exemplos mais relevantes.

Os contos, as histórias foram um marco extraordinariamente importante em 2013. A descoberta de uma nova forma de lidar com elas, que há muito tempo já admirava, remeteu-as para um primeiro plano na minha vida. 

Após formação especifica, aceitei o desafio de me tornar contadora de histórias. Contar no papel já era normal para mim, mas agora estreei-me perante um público, frente a frente, olhos nos olhos e só vos digo que é absolutamente fantástico.

Foi no dia 21 de Dezembro, com a chegada do solstício de inverno que me estreei a contar duas histórias de Natal de dois autores que admiro bastante "Um cântico de natal" de Charles Dickens e "A lenda da rosa de natal" de Selma Langerlöf.

Resumindo, 2013 foi um ano cheio de coisas boas em termos de leituras, histórias e outras magias que se possam encontrar por aí espalhadas, à espera que as possamos descobrir.

Um muito obrigado a todos os que me ajudaram (não vou mencionar ninguém, porque os próprios sabem quem são), com bons conselhos e com amizade a realizar boas leituras e alguns sonhos.


foram

Mais um ano...




Um ano passou...

Passou 2013 e passou um ano de existência deste blogue. 

Ele surgiu com o inicio do ano e com a vontade, que temos sempre, de podermos fazer algo diferente no novo ano que se aproxima. 

Um ano depois, que posso dizer a não ser que estou feliz por ter conseguido levar este projecto para a frente. Fui comentando, partilhando com todos aqueles que me visitam e dialogando com os frequentadores mais assíduos. 

Não quis compromissos de parcerias, apenas quero escrever e ler livremente, sem ter a pressão de leituras obrigatórias e fico satisfeita por ter seguido esse meu principio.

Espero que tenham gostado deste pequeno espaço e do que fui partilhando ao longo do ano, aceito comentários e sugestões do que gostariam de ver por aqui. 

Agradeço a todos, porque sem as vossas visitas o blogue não seria o mesmo.

Um feliz 2014 para todos vós, que a felicidade inunde os vossos corações e que os vossos sonhos se realizem...

domingo, 29 de dezembro de 2013

Acontamentos de Lendas e Relendas de Thomas Bakk






Thomas Bakk, um excelente contador de histórias, que para além de muitos outros ofícios, tem a particularidade de transformar todas as histórias, que conta, em versos. Ao mesmo tempo que o faz, dá-lhes um toque de magia misturada com um humor muito próprio e que nos cativa desde o primeiro instante.









“Acontamentos de Lendas e Relendas” é um pequeno livro da sua autoria, em que Thomas conta três histórias baseadas em lendas conhecidas. No entanto a adaptação feita pelo autor, revela-nos versões bem divertidas e cheia de duplos sentidos que podem ser interpretadas à luz do contexto social e económico do nosso país. 

A “Lenda do Punhal” fala-nos de um pescador que certo dia, na sua faina piscatória, vê no meio das águas um punhal reluzente e brilhante. Ambicioso, tenta apoderar-se do mesmo, pensando, unicamente, no valor que ele poderá ter no mercado. A partir daí um conjunto de peripécias sucedem-se até ao final completamente inesperado para o próprio pescador.

“O Cavaleiro Justo” é uma história baseada na Lenda de S. Martinho, e fala-nos de um certo homem sem abrigo que sonha em ser rico. Tudo faz para atingir o seu objectivo, desde trabalhar, roubar ou mesmo reinar, mas nada vale e termina como começou, apenas com mais a metade de uma capa.

“O Pastor e as três filhas” , inspirado na lenda de S.Nicolau, conta as aventuras e desventuras de um pastor pobre, que ao ver a sua filha mais nova apaixonado por um rico mercador, pretende arranjar dinheiro para o seu dote.

No final do livro somos presenteados com um caderno de apontamentos, onde podemos "expor as nossas reflexões e opiniões acerca do que lemos e retivemos em cada história.

Todas as histórias são divertidas e proporcionam-nos um bom momento. A eterna ambição humana pelo valor do dinheiro e do poder é aqui apresentada como uma caricatura desenvolvida com mestria.

Uma leitura muito divertida que recomendo sem qualquer dúvida.

É possível obter o livro através do seguinte endereço electrónico:


O Último Conto de Rodolfo Castro





“Ninguém se lembrava do dia em que Jacinto havia contado o seu primeiro conto debaixo da árvore. No bairro, dizia-se que sempre estivera ali. Alguns anciãos afirmavam que apenas os contos eram anteriores a ele. E havia ainda quem afirmasse que a árvore, as casas e tudo o resto só existiam porque Jacinto os narrava. Todos acreditavam que os seus contos seriam escutados para sempre…”







“O Último Conto” é o mais recente livro de Rodolfo Castro editado em Portugal. Foi apresentado no passado dia 30 de Novembro na Gatafunho, loja de livros , numa sessão de contos em que Rodolfo apelidou de O último serão de contos de 2013.

O trabalho entre o escritor e o ilustrador mexicano Enrique Torralba, foi muito bem conseguido, pois o livro é magnificamente ilustrado, com imagens de página inteira que marcam significativamente a história. Poder-se-á dizer que elas são parte integrante da história, complementando-a, dando-lhe vida e enchendo-a de sentimentos.

“Jacinto era um bom contador de histórias. A sua voz equilibrava-se entre a serenidade e a fúria.”

Rodolfo Castro apresenta-nos Jacinto, um contador de histórias que era a vida e força da cidade, que sempre existira ali, debaixo de uma árvore. 

Todos escutavam as suas palavras, minutos cheios de fantasia a que ninguém conseguia resistir… e pensavam que a sua voz, as suas histórias durariam para sempre… até que chega um dia em que o silêncio envolve a cidade, um silêncio tão denso que nada nem ninguém consegue reagir.

Só após um estrondo do avião, e com o passar do tempo,  é que tudo vai regressando à normalidade, até que junto à velha árvore, onde Jacinto contava as histórias, algo acontece…

Um livro lindo que vale muito a pena ler uma, duas ou mais vezes.

Mais uma excelente aposta da Editora GATAfunho.



Rudolfo Castro é argentino e vive actualmente em Portugal. É um contador de histórias, formador e escritor entre muitos outros ofícios. Como ele próprio diz é:

“Professor de ensino básico, futebolista insucesso, actor constante, pedreiro e carteiro, vendedor ambulante, escritor e leitor, assobiador e migrante, curioso, melancólico e contador de histórias. Nasci e cresci em Buenos Aires, formei-me no México, hoje vivo em Lisboa, Portugal.http://www.rodolfocastro.com/