domingo, 29 de dezembro de 2013

Acontamentos de Lendas e Relendas de Thomas Bakk






Thomas Bakk, um excelente contador de histórias, que para além de muitos outros ofícios, tem a particularidade de transformar todas as histórias, que conta, em versos. Ao mesmo tempo que o faz, dá-lhes um toque de magia misturada com um humor muito próprio e que nos cativa desde o primeiro instante.









“Acontamentos de Lendas e Relendas” é um pequeno livro da sua autoria, em que Thomas conta três histórias baseadas em lendas conhecidas. No entanto a adaptação feita pelo autor, revela-nos versões bem divertidas e cheia de duplos sentidos que podem ser interpretadas à luz do contexto social e económico do nosso país. 

A “Lenda do Punhal” fala-nos de um pescador que certo dia, na sua faina piscatória, vê no meio das águas um punhal reluzente e brilhante. Ambicioso, tenta apoderar-se do mesmo, pensando, unicamente, no valor que ele poderá ter no mercado. A partir daí um conjunto de peripécias sucedem-se até ao final completamente inesperado para o próprio pescador.

“O Cavaleiro Justo” é uma história baseada na Lenda de S. Martinho, e fala-nos de um certo homem sem abrigo que sonha em ser rico. Tudo faz para atingir o seu objectivo, desde trabalhar, roubar ou mesmo reinar, mas nada vale e termina como começou, apenas com mais a metade de uma capa.

“O Pastor e as três filhas” , inspirado na lenda de S.Nicolau, conta as aventuras e desventuras de um pastor pobre, que ao ver a sua filha mais nova apaixonado por um rico mercador, pretende arranjar dinheiro para o seu dote.

No final do livro somos presenteados com um caderno de apontamentos, onde podemos "expor as nossas reflexões e opiniões acerca do que lemos e retivemos em cada história.

Todas as histórias são divertidas e proporcionam-nos um bom momento. A eterna ambição humana pelo valor do dinheiro e do poder é aqui apresentada como uma caricatura desenvolvida com mestria.

Uma leitura muito divertida que recomendo sem qualquer dúvida.

É possível obter o livro através do seguinte endereço electrónico:


O Último Conto de Rodolfo Castro





“Ninguém se lembrava do dia em que Jacinto havia contado o seu primeiro conto debaixo da árvore. No bairro, dizia-se que sempre estivera ali. Alguns anciãos afirmavam que apenas os contos eram anteriores a ele. E havia ainda quem afirmasse que a árvore, as casas e tudo o resto só existiam porque Jacinto os narrava. Todos acreditavam que os seus contos seriam escutados para sempre…”







“O Último Conto” é o mais recente livro de Rodolfo Castro editado em Portugal. Foi apresentado no passado dia 30 de Novembro na Gatafunho, loja de livros , numa sessão de contos em que Rodolfo apelidou de O último serão de contos de 2013.

O trabalho entre o escritor e o ilustrador mexicano Enrique Torralba, foi muito bem conseguido, pois o livro é magnificamente ilustrado, com imagens de página inteira que marcam significativamente a história. Poder-se-á dizer que elas são parte integrante da história, complementando-a, dando-lhe vida e enchendo-a de sentimentos.

“Jacinto era um bom contador de histórias. A sua voz equilibrava-se entre a serenidade e a fúria.”

Rodolfo Castro apresenta-nos Jacinto, um contador de histórias que era a vida e força da cidade, que sempre existira ali, debaixo de uma árvore. 

Todos escutavam as suas palavras, minutos cheios de fantasia a que ninguém conseguia resistir… e pensavam que a sua voz, as suas histórias durariam para sempre… até que chega um dia em que o silêncio envolve a cidade, um silêncio tão denso que nada nem ninguém consegue reagir.

Só após um estrondo do avião, e com o passar do tempo,  é que tudo vai regressando à normalidade, até que junto à velha árvore, onde Jacinto contava as histórias, algo acontece…

Um livro lindo que vale muito a pena ler uma, duas ou mais vezes.

Mais uma excelente aposta da Editora GATAfunho.



Rudolfo Castro é argentino e vive actualmente em Portugal. É um contador de histórias, formador e escritor entre muitos outros ofícios. Como ele próprio diz é:

“Professor de ensino básico, futebolista insucesso, actor constante, pedreiro e carteiro, vendedor ambulante, escritor e leitor, assobiador e migrante, curioso, melancólico e contador de histórias. Nasci e cresci em Buenos Aires, formei-me no México, hoje vivo em Lisboa, Portugal.http://www.rodolfocastro.com/


sábado, 28 de dezembro de 2013

Selma de Jutta Bauer


Sinopse

O formato é pequeno, delicado, assim como as ilustrações da autora Jutta Bauer. Mas a questão que permeia a obra é densa - 'O que é felicidade?'. Selma traz a resposta. A rotina da ovelha Selma é aparentemente comum - comer grama, ensinar as crianças a falar, praticar um pouco de esporte, conversar com a vizinha, dormir profundamente. A diferença está na satisfação com que ela realiza essas atividades - Selma vê beleza nas coisas mais simples e cotidianas. Ela aprecia a vida em sua essência. Com frases curtas e diretas, dá o seu recado não somente aos pequenos. Best-seller da alemã Jutta Bauer, 'Selma' já foi lançado em mais de dez idiomas e ultrapassou a marca de 400 mil exemplares vendidos. A autora manuscreveu o livro em português, assim como as versões em inglês, japonês, hebraico e outras publicadas pelo mundo. Na Alemanha, a ovelha é protagonista de um desenho animado na TV



Este pequeno livro apresenta-nos a Selma e uma questão que nos preocupa a todos: “O que é a felicidade?”

Selma é uma ovelha igual a tantas outras, ensina e conversa com os seus filhos, pratica desporto, conversa com a vizinha, come erva e dorme profundamente.



Se ganhasse a lotaria e passasse a ser uma ovelha extremamente rica, o que mudaria na sua vida? 

Ela apenas conversaria mais com os seus filhos, praticaria mais desporto, comeria mais erva e dormiria mais profundamente e claro conversaria muito mais com a sua vizinha.

Ela só quer feliz, e a felicidade está mesmo ali, desfrutando totalmente todas as coisas que estão a seu lado, nada mais importa. A vida tranquila feliz que sua pacata vida lhe proporciona é a felicidade. Para quê ter mais, se isso é suficiente?


Este pequeno livro, leva-nos a questionar o que de facto procuramos quando queremos ser felizes. 

O que é a felicidade?

Selma ensina-nos a valorizar as coisas simples da vida e que nos rodeiam diariamente. 

A vida é simples e por vezes somos nós que querendo demais acabamos por nunca ser felizes.

As ilustrações criam uma imagem afectiva que nos prende e liga a esta ovelha sábia, levando-nos a ler uma e mais outra vez este livro.

Um livro excelente editado pela editora GATAfunho 

Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz

“Fazal Elahi não erraria na sua premonição, o universo gosta de equilíbrios completamente desequilibrados, é feito de opostos de mãos dadas, um homem enorme a segurar a mão de uma menina pequenina.”

Sinopse:
“A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem, pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
- E já sabe? - perguntou Fazal Elahi.
- Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.”

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos ter sido o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca. Um magnifico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.


Afonso Cruz já me habituou a esperar muito em cada vez que pego num livro dele. A sua escrita é fantasticamente simples e melodiosamente atraente. 

Este livro conta-nos a história de Elahi, um comerciante de tapetes, e das pessoas que vivem com ele, Bibi a sua esposa que andava com os cabelos soltos como pássaros, o filho Salim, o seu primo Badini poeta mudo, a irmã Aminah e Isa.

Desde as primeiras folhas, somos atraídos, quais abelhas pelo néctar das flores, pelas suas palavras, pelas personagens, pelas histórias e sobretudo pela sua filosofia de vida que docemente surge nos diálogos, nas descrições e em todos os sentimentos transpostos nos seus livros.

“Para onde vão os guarda-chuvas” é mais um exemplo notável do seu trabalho. Depois de uma primeira “História de Natal para crianças que já não acreditam no Pai Natal” (sobre a qual não vou comentar nada, porque as imagens são sarcasticamente marcantes) entramos num mundo oriental marcado por preconceitos sociais e religiosos, onde a história de Elahi, comerciante de tapetes, se vai tecendo ponto a ponto “tudo ligado como se fosse um tapete, o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros.” 

Vamos caminhando lado a lado com as personagens, vamos entrando nas suas vidas e vamos sentido a dor, a mágoa, a tristeza (porque o livro está inundado de tristeza e de solidão) e quando termina ficamos sem saber verdadeiramente como reagir. 

“E Elahi perguntava-se como seria possível que a tradução daquilo que se passava dentro dele fossem apenas umas quantas lágrimas. Que coisa tão mal feita, pensava. Com tanto sofrimento, com licença, deveríamos chorar estrelas, para mostrar como tudo o resto é pequenino comparado com tudo o que nos dói.”

Somos todas peças de xadrez na vida real, ou na história de Elahi, e como num jogo há vitoriosos e derrotados, nem sempre a justiça prevalece, nem sempre vence o melhor e as reacções às consequências destes factos são por vezes terrivelmente desastrosas para os peões do jogo.

A violência encontra expressão em algumas personagens, em alguns acontecimentos e sob algumas formas que marcam a história de um oriente muito mais real que a nossa imaginação pode alcançar. O perdão em Elahi é uma constante, ele sofre e perdoa, esquece e sofre novamente, perdoando e procurando alcançar uma resposta para a sua revolta , nunca deixando de se questionar sobre o “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” existente no mundo.

A angústia que nos torna o coração bem apertado, está patente do início ao fim deste livro. Somos pequenos face a uma sociedade em que os poderosos são os vitoriosos, nada podemos fazer contra eles, apenas deixar que a vida corra, apenas guardar dentro de nós a dor e a solidão.

“Somos mais pesados quando fechamos os olhos. Isso acontece porque o nosso mundo interior é maior do que exterior, pensava Fazal Elahi. A nossa dor não existe fora de nós, o mundo não suportaria esse peso, seria impossível, imagine-se a dor de todos os homens a existir no mundo exterior. Seria uma calamidade e não haveria gravidade capaz de fazer os planetas andar à volta das estrelas. Nós somos muito mais pesados do que o universo que nos rodeia. Temos a dor.”

Um excelente livro que recomendo, deixando-nos a pensar em que mundo realmente vivemos!



domingo, 24 de novembro de 2013

Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami


Sinopse:


"Ambientado numa atmosfera japonesa, mas com um pé no noir americano, Murakami tece uma história detectivesca onde a realidade é palpável, dura e fria, e seria a verdade de qualquer um, não fosse um leve pormenor: é uma realidade absolutamente fantástica. Um publicitário divorciado, que tem um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes, vê-se envolvido, graças a uma fotografia publicitária, numa trama inesperada: alguém quer que ele encontre um carneiro! Mas não é um carneiro qualquer. É um animal que pode mudar o rumo da história. Um carneiro sobrenatural… 
Murakami dá a esta estranha história um tom que só um oriental pode imprimir a uma crença, fazendo-a figurar como um facto da realidade. Coloca, de uma forma genial, a fantasia na aridez do mundo real."


Este foi o terceiro livro de Haruki Murakami que li. Segundo algumas das criticas um dos mais fracos do autor. Na minha opinião, não causou tanto impacto como os anteriores (Suptnik, meu amor e Kafka á beira-mar) é verdade, mas de todos foi aquele que me deixou mais pensativa.

O livro é uma procura do princípio ao fim e que culmina, como todos os livros do autor, de uma forma surpreendente, que pelas razões obvias não poderei revelar. Tem a mesma escrita doce que me cativa, as personagens fantásticas e misteriosas, o gato que não podia faltar, o bar, a música e a magia própria de Murakami que vai surgindo nos diálogos, no percurso do narrador e nos acontecimentos estranhos, sobretudo na parte final do livro.

Como já referi anteriormente, este livro deixou-me a pensar na vida, na ambição pelo poder e o que este pode influenciar o ser humano. De facto de que forma é que o poder pode alterar por completo o ser humano, de forma a que este passe os dias da vida à sua procura e viva obcecado por isso. Quando se obtém esse poder sobre os outros e sobre a vida as transformações podem ser enormes e este individuo pode tornar-se irreconhecível, sendo que, quando se perde, este poder deixa um rasto amargo que provoca uma destruição aos poucos do que resta do ser humano. 

Somos seres humanos e cada um de nós é especial, na nossa maneira de ser, naquilo que queremos da vida, nas nossas recordações e amizades. Há algo que nos une e que prevalece nas amizades que criamos. Haruki marca este facto muito claramente neste livro, a amizade é algo muito forte que prevalece acima de tudo, até mesmo para lá da morte e é ela que acaba por vencer. 

O que me fascina neste autor é de facto de ele ser tão humano, ele joga de uma forma magistral com os sentimentos humanos, aqueles com que nos deparamos na nossa vida. Ele pega nestes sentimentos e através de imagens e situações fantásticas, acaba por nos envolver por completo.

Não sei se outras pessoas entenderão este livro da mesma forma que eu o senti. Mas deixo-vos a minha opinião, com uma certeza inabalável, para mim, este escritor, foi a grande revelação de 2012. Felizmente já tenho mais livros dele para ler!

Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 374
Editor: Casa das Letras
ISBN: 9789724617152

domingo, 17 de novembro de 2013

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo de Haruki Murakami


Sinopse

Em 1982, ao mesmo tempo que abandonava o lugar à frente dos destinos do clube de jazz e que tomava a decisão de se dedicar à escrita, Haruki Murakami começava a correr. No ano seguinte, abalançou-se a percorrer sozinho o trajecto que separa Atenas da cidade de Maratona. 
Depois de participar em dezenas de provas de longa distância e em triatlos, o romancista reflecte neste livro sobre o que significa para ele correr e como a corrida se reflectiu na sua maneira de escrever. Os treinos diários, a sua paixão pela música, a consciência da passagem do tempo (lembram-se desse poema urbano chamado Afterdark – Os Passageiros da Noite?), os lugares por onde viaja acompanham-no ao longo de um relato em que escrever e correr se traduzem numa forma de estar na vida.
Diário, ensaio autobiográfico, elogio da corrida, de tudo um pouco podemos encontrar aqui. Haruki Murakami abre o livro das confidências (e a sua alma) e dá a ler aos seus fiéis leitores uma meditação luminosa sobre esse ser bípede em permanente busca de verdade que é o homem.


Tenho a certeza de que já referi por várias vezes que Haruki Murakami caminha claramente para se tornar num dos meus escritores favoritos. Sem querer repetir-me sucessivamente, o certo é que a cada livro que leio deste autor, mais este facto se acentua. 

Neste livro, autobiográfico , Murakami revela-se perante os seus leitores. No seu estilo muito próprio ele descreve-nos as razões que o levaram, a partir de 1982, a tornar-se um corredor de fundo e começar a correr sistematicamente uma hora por dia, (em média 10km /dia, 60 Km/semana, 260km/mês). Participa numa maratona por ano, em vários locais pelo mundo, e mais tarde tornou-se adepto do triatlo.

O que é para ele a corrida? O que pensa enquanto corre? São algumas das questões que lhe colocam e sobre as quais ele reflecte e partilha com os seus leitores.

“Vendo bem, em que penso eu, exactamente, enquanto corro? Para dizer a verdade, não tenho a mínima ideia.
Corro, só isso. Corro no vazio. Dito de outro modo: corro para atingir o vazio. No entanto, há sempre um pensamento ou outro que acaba por se introduzir nesse vazio. O espírito humano não pode ser um vazio completo. As emoções dos homens não se revelam suficientemente fortes ou consistentes, ao ponto de albergarem o vazio. Quero com isto dizer que os pensamentos e ideias que invadem o meu espírito enquanto corro permanecem subordinados a esse espaço oco. Na medida em que lhes falta conteúdo, mais não são do que pensamentos ao correr da pena que têm como eixo a natureza do próprio vazio.

As coisas que me vêm à cabeça enquanto corro são como nuvens no céu. Nuvens das mais diferentes formas e de diferentes tamanhos, que vão e vêm enquanto o céu permanece o mesmo de sempre. As nuvens não passam de convidados. Aproximam-se a passo, para depois se afastarem e desaparecerem no horizonte. Fica apenas o céu. Existe, ao mesmo tempo que não existe, o céu. Tem substância e ao mesmo tempo não tem. E nós limitamo-nos a aceitar a existência desse recipiente incomensurável tal como ele é e deixamo-nos envolver por ele.
….
Enquanto corro, vou dizendo a mim mesmo para pensar num rio. Pensa nas nuvens, digo. Mas no fundo não estou a pensar em nada de concreto. Continuo, pura e simplesmente, a correr nesse confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio. E isso é qualquer coisa de profundamente maravilhoso. Digam o que disserem.”

Paralelamente às suas descrições e dissertações sobre a corrida, Murakami numa linguagem muito directa, vai divagando sem rodeios. Fala-nos na sua vida, nas suas opções enquanto ser humano, como e porquê começou a escrever e como a escrita se tornou fundamental para a sua vida, dos seus sentimentos, da sua maneira de ser e de pensar e de que forma as suas atitudes afectam os seus romances.

Página a página, num ritmo sempre cativante, o leitor vai conhecendo um pouco mais do homem que está por detrás do escritor. O que sente enquanto corre, o que sente quando escreve e o que sente enquanto pessoa.

“Vejo este livro como uma espécie de memórias. Seria exagerado dizer que se trata das minhas memórias pessoais, mas, ao mesmo tempo, também não posso, em boa verdade, colar o rótulo de ensaio. Volto a repetir o que escrevi no prólogo. Através do acto da escrita, tive a intenção de ordenar os meus pensamentos, à minha maneira, e descobrir de que forma vivi durante os últimos vinte e cinco anos, como escritor e como ser humano igual aos outros. Quando se discute os critérios que estabelecem até que ponto o romancista se deve cingir ao romance e quanto deverá revelar da sua verdadeira voz, as opiniões variam de individuo para individuo, não podemos cair em generalizações. Ao escrever este livro, tinha esperança de ser capaz de descobrir qual é, no meu caso, esse padrão. Não tenho confiança suficiente para dizer se fiz (ou não) um bom trabalho, mas, assim que acabei de o escrever, posso dizer-vos que soube o que era libertar-me do peso que carregara aos ombros durante bastante tempo. “

Um livro diferente, mas muito bom. Um conjunto de opiniões sobre a importância da escrita e conselhos a quem procura ingressar nesta tarefa árdua e emocionante que é criar uma história e deixá-la correr pelo papel como um rio que corre pelas montanhas até desaguar no mar.

sábado, 9 de novembro de 2013

Abençoa-me, Ultima de Rudolfo Anaya

Sinopse

“Nesta obra-prima da Literatura Mexicana-Americana surge-nos Ultima, La Grande, uma bruxa velha e sábia, cheia de segredos, que ajuda o pequeno Antonio a encontrar a sua identidade pessoal e étnica. 

Ultima ensina-lhe que as perguntas mais difíceis sobre a vida podem nunca ser respondidas por uma única religião ou por uma tradição cultural. As questões que Antonio coloca sobre o mal, o perdão, a verdade, a alma penas por ele poderão ser respondidas. Somente a combinação das águas dos dois rios (a religião Católica e os mitos e tradições indígenas) fará Antonio encontrar a sua identidade chicana. Por isso, num gesto simples, mas cheio de significado, Ultima oferece a Antonio o seu escapulário. Nele não há qualquer imagem da Virgem ou de um Jesus crucificado mas um grupo de pequenas plantas medicinais. Simbolicamente, Ultima transmite o seu conhecimento da terra a Antonio.

Ele entende que é essencial escutar as revelações da natureza, sentir o poder que emerge das planícies, acordar as maravilhas da criação e unidade universal. A aceitação das suas heranças conduzirá Antonio ao equilíbrio cultural, condição essencial para a formação da sua identidade. O segredo está em reunir o llano e o vale do rio, a lua e o mar, Deus e a carpa dourada e fazer algo novo. Finalmente Antonio compreende que nada é verdadeiramente irreconciliável e move-se de uma visão polarizada da realidade para o reconhecimento da unidade dos opostos, da harmonia do homem com a natureza.”

Este livro é o romance estreia do autor, que a Editora Nova Veja oferece ao público português. Faz parte de uma trilogia completada por Heart of Aztlan e Tortuga, que ainda não se encontram traduzidas para a língua nacional.

Como é referido na sinopse, este livro conta-nos a história de António “Tony” Marez, um garoto chicano que viveu nos anos 40 na zona de Santa Rosa, uma cidade localizada no estado americano do Novo México, no Condado de Guadalupe. 

Ele encontra-se dividido entre dois meios culturais que não compreende muito bem. A nova cultura norte-americana, (com a sua religião protestante, moderna) e a cultura transmitida pelos seus pais mexicanos (religião católica, conservadora). No entanto no meio desta divergência, surge Ultima, La Grande a tradicional feiticeira mexicana, velha, cheia de segredos, acompanhada de um mocho estranho, que lhe vai transmitir todo o conhecimento e linguagem da terra.

Um livro cheio de misturas étnicas, folclore indígena e deliciosas paisagens, marcado pelo choque de culturas, mas com uma linguagem muito acessível que nos transporta para um mundo mágico, onde a ligação do homem à natureza acaba por prevalecer. 

Espero, ansiosamente, que a editora Nova Veja traduza para a língua nacional os restantes livros desta trilogia.

Em resumo um livro diferente, marcante e muito bom, que nos transporta para um universo mágico do espírito humano e animal, da natureza das paisagens áridas do grande llano, do espaço e culturas de um povo simples marcado pela era da globalização.

Um livro do qual gostei bastante e recomendo a quem se interessar por este tema. 

Descobri, recentemente, que saiu  um filme baseado neste livro: