terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quem é Shaun Tan ?





Nasceu em Fremantle, Austrália ocidental, em 1974 e desde muito cedo, na infância, que o seu mundo foi invadido por lápis e tintas devido á profissão do pai (arquitecto). No entanto era a sua mãe que lhe contava histórias que se tornaram mais tarde referências no seu trabalho de ilustrador / escritor, nomeadamente a obra de Orwell e na adolescência Ray Bradbury. 

Desde pequeno que se distinguia, na escola, pelos seus desenhos originais sobre dinossauros, robots e naves espaciais. Aos 16 anos, Tan publica a sua primeira ilustração na revista australiana Aurealis (1990). Um pouco indeciso, dado o seu enorme gosto por biotecnologia, acabou por se formar em Artes Plásticas e Literatura Inglesa na Universidade da Austrália Ocidental.

O desenho e a pintura levaram-no a enveredar pelo caminho da ilustração e é actualmente um conceituado ilustrador e autor de livros, considerados infantis, e de ficção especulativa. 

Inicialmente os seus desenhos eram, essencialmente a preto e branco, uma vez que as reproduções também o eram. No entanto os materiais utilizados eram diversos: canetas, tintas, carvão, fotocópias entre outros.


Actualmente Shaun Tan, inicia os seus trabalhos com uma base monocromática, normalmente utiliza um lápis de grafite para fazer esboços que são reproduzidos várias vezes, com diferentes versões, adicionando ou removendo partes. Utiliza muito a técnica de recorte e termina as suas obras utilizando outro tipo de materiais e técnicas variadas – pintura a óleo e tinta acrílica, guache, grafite, canetas hidrocor, colagem e outras.

Iniciou a sua carreira como ilustrador de revistas de Ficção Cientifica e mais tarde enveredou pelo mundo da literatura infantil. 


Shaun considera-se como “um tradutor de ideias” , sendo que as ilustrações “são o principal texto” dos seus livros. A pesquisa é fundamental, e constitui um alicerce importante na sua obra:, refere que “As boas ideias não aparecem, você precisa procurá-las”. Entre suas principais referências estão os artistas Edward Hopper, Smart Jeffrey e Hieronymus Bosch.

Hoje, com onze títulos publicados e muitos prémios no currículo, tornou-se mundialmente conhecido por seu estilo narrativo inconfundível e pela versatilidade de seu traço. 


Em 2010, Shaun Tan foi o artista convidado de honra da 68º Convenção Mundial de Ficção Científica, realizada em Melbourne, na Austrália.

Pela sua contribuição na literatura infantil e juvenil internacional Tan ganhou em 2011 o Prémio Astrid Lindgren Memorial do Conselho de Artes Sueco, o maior prémio a nível da literatura infantil




A partir do seu livro The Lost Thing (A coisa perdida), realizou em parceria com Andrew Ruhemann a curta-metragem de animação que foi vencedora do Óscar desta categoria de 2011.


Actualmente vive em Melbourne.

Grande parte das suas histórias são classificadas de infanto /juvenis, no entanto isto não significa que a sua obra esteja destinada somente a este público. A fronteira entre esta literatura infanto-juvenil e a literatura adulta é muito ténue, pois o próprio adulto poder-se-á deslumbrar com as suas fantásticas ilustrações , bem como com os textos simples que nos tocam interiormente. Por vezes Shaun Tan envereda pela literatura fantástica, criando lugares secretos e seres que mais parecem provenientes de galáxias distantes.




segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Shaun Tan


Esta semana vou dedicar este espaço à divulgação do trabalho desenvolvido por este incrível ilustrador / escritor que é Shaun Tan.
Numa primeira abordagem irei dar-vos a conhecer o autor e em seguida comentarei cada um dos seus livros editados em Portugal, na nossa língua.


Através do desenho a lápis, da pintura e do texto, Shaun Tan consegue "pincelar" emoções, sentimentos e palavras que nos tocam e apaixonam.
Desde o desenho simples, ao mais trabalhado, passando por recortes de papel ilustrados que se colam e que revelam, na  união feliz  do texto com o papel, a narrativa pretendida.
São histórias simples, temas banais do quotidiano mesclados com o fantástico e o absurdo, mas cujo resultado encanta qualquer geração.
Espero conseguir transmitir-vos, tudo aquilo que este autor conseguiu despertar em mim através dos seus traços e palavras.


Uma boa semana com        Shaun Tan





sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A linha recta do Corvo de Manuel Alves


Sinopse:


Lince teria uma vida relativamente despreocupada se não fosse a pequena questão de ser perseguido por assassinos, e tudo só porque chateou certas pessoas por ter testemunhado algo que não devia. Felizmente, os corvos avisavam Lince sempre que um assassino se aproximava. Infelizmente, os corvos não o ajudavam a escapar. Uma boa maneira de matar um assassino é tornar-se um assassino melhor. Pelo menos, foi o que Lince pensou. 


Confesso muito sinceramente que foi dos contos de Manuel Alves, o que menos gostei (dos que li até agora). No entanto, deixem-me referir que este meu primeiro comentário baseia-se apenas no meu gosto pessoal, sobre o tema do conto e nada mais. 


De resto, é mais um conto que mostra bem a versatilidade do autor, nos temas escolhidos e na excelente adequação dos estilos e linguagem escrita aos mesmos.

Recheado de uma certa dose de humor negro do início ao fim, bem como as expressões irónicas e sarcásticas que povoam os diálogos entre Lince e os seus opositores levam-nos a sorrir ao longo de todo o texto. Uma leitura fácil e agradável.

Ficam, no entanto, um conjunto de pontas soltas: o que terá levado a este “herói” do deserto ser tão perseguido pelos assassinos e se bem que o final parece claro , será que o sabemos mesmo?

É verdade que o facto de estas pontas ficarem misteriosamente escondidas, dão alguma graça e curiosidade que nos leva a ler com gosto todo o conto. Se tudo se conhecesse sobre este personagem e sobre o seu destino, não cativaria tanto, na minha opinião. É o tamanho certo , com a informação certa para o meu gosto, claro.

Resumindo, apesar de como referi, não ser um tema que me agrade particularmente, reconheço que está muito bem escrito, com uma mistura de ingredientes que o tornam interessante e divertido. Passei um bom momento, com a sua leitura.

Este conto pode ser encontrado gratuitamente, pelo menos até à data, em  https://www.smashwords.com/books/view/256021



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

“Os livros que devoraram o meu pai” de Afonso Cruz

“Olho para os meus filhos e para os meus netos e penso em que diabo de histórias se meterão eles e o que é que eles poderão um dia contar. Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias”. 



Sinopse
Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo.
Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá, qual Telémaco, à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.


Elias Bonfim descobre, no dia em que faz doze anos que afinal o seu pai não tinha morrido de doença de coração, como lhe tinham contado, mas, na verdade, entrara dentro de um livro e nunca mais ninguém soubera dele. A sua avó revela-lhe este segredo, no dia seguinte ao seu aniversário, ao mesmo tempo que lhe entrega, de prenda de anos, a chave do sótão onde se encontra a biblioteca do seu pai.

A partir desse dia, o jovem parte em viagem pelo mundo dos livros, seguindo as “pegadas” do pai, Vivaldo Bonfim. Começando pelos livros mais ligeiros, vai percorrendo os mundos descritos de vários autores, tentando encontrar vestígios e pequenos sinais, sempre na esperança de um encontro. Alguns dias mais tarde, começa a ler outros autores e entra verdadeiramente na sua aventura e procura pela “A ilha do Dr. Moreau” de H.G.Wells, passando para Stevenson, Dostoievski, Italo Calvino, Bradbury ou Jorge Luís Borges, entre outros.

Paralelamente a este desfolhar da biblioteca situada no sótão da sua avó, vamos acompanhando as suas aventuras de jovem adolescente com a mãe, avó, os amigos e até mesmo com a sua apaixonada. Aqui, na vida real, é o seu melhor amigo Bombo, que o apresenta a Lao Tse, mítico filósofo chinês, criador do Taoísmo.

Este livro, através da sua escrita simples e ligeira, permite a leitura de um público extremamente diversificado. Desde os mais jovens aos adultos, ou mesmo desde o leitor menos ávido ao mais apaixonado pela leitura, todos eles se sentem atraídos pela história do jovem Elias, possibilitando vários níveis de leitura, conforme a idade e a experiência do leitor.

A linguagem cativa-nos quer pela sua simplicidade, quer pela sua prosa poética, que surge nas caracterizações e descrições ao longo do livro.

“E no dia seguinte lá fui, depois das aulas, ter com a minha avó. Ela disse-me para me sentar, fez um gesto com a mão engelhada em direção ao sofá das riscas. Sento-me sempre nessas riscas, sempre que a visito. Ela também se sentou com a sua lentidão e um vestido florido. Passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a voz e os óculos. Por vezes a voz dela fica um pouco amarrotada, quando se senta, quando acaba de fazer um esforço. Explicou-me – enquanto eu mastigava um bolo – que eu já era um homenzinho e que começava a ter responsabilidades. Estava na altura de saber a verdade. As palavras dela vinham cheias de cabelos brancos, podia sentir que havia nelas muita vida vivida. (…)”

Elias Bonfim, vai crescendo enquanto pessoa, neste livro, atrás da ideia de que as histórias, a literatura, são constituintes integrantes do ser humano e dele fazem parte. “As personagens de carne são exatamente como nós, os de papel e letras negras” afirma Raskolnikov. (protagonista de “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Paralelamente ele aprende duras lições na vida real, onde os sentimentos de culpa e arrependimento chegam tarde demais.

Um livro muito bom, que devoramos num ápice, completamente absorvidos pelo desfolhar das páginas sem darmos conta deste facto. 

Afonso Cruz é um excelente escritor, do qual vou querer ler muito mais.

Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.”

sábado, 20 de julho de 2013

Os Comedores de Pérolas de João Aguiar

Sinopse

Jornalista de profissão e escritor nas horas vagas, Adriano descobre-se, de repente, na meia-idade. A vida não passa de um jogo extremamente cruel e ele dá consigo "sentado à beira da água opaca, a fumar o cachimbo e a morder um caule de erva que sabia a fénico"… O resultado do choque é um suicídio frustrado e uma fuga, sem esperança para Macau.

Em Macau, descobre um passado de que nunca suspeitara e descobre também a angústia sorridente da próxima reintegração na China. Mas a "pérola do Oriente" reserva-lhe uma outra surpresa: mergulhado brutalmente numa intriga que já fez vários mortos, Adriano é obrigado a esquecer as reflexões pessimistas sobre a vida e o mundo, para ceder ao instinto primitivo de lutar pela sua própria sobrevivência.


Confesso, o que para muitos já não é novidade, que gosto bastante de ler João Aguiar. O que tenho lido deste autor torna-se sempre uma agradável surpresa. Por mais que conheça o seu estilo e muitos dos seus livros, acabo por ser surpreendida cada vez que começo a ler um. Não sendo esta uma das suas obras mais destacadas e conhecidas, constituiu uma leitura simples mas agradável, que nos agarra ao longo de toda a história.

Desta vez “Os comedores de pérolas”, escrito em 1992, levam-nos até Macau, nas vésperas da transferência da administração portuguesa para a China. Este território que muitos apelidavam de “a pérola” do oriente, é aqui comparado à anedota histórica da Cleópatra em que esta dissolveu em vinagre uma pérola e depois bebeu esta mistura para provar a Marco António que era mais gastadora do que ele. Aqui a alegoria visa recordar-nos da ausência de esforço por parte dos nossos governantes em salvaguardar esta pérola através dos tempos, acabando por nos termos convertido em “comedores de pérolas” imitando a rainha egípcia.

A escrita é-nos apresentada em forma de diário onde Adriano, tal como o próprio autor, jornalista e romancista, nos vai dando a conhecer, todo o desenrolar de uma investigação, aparentemente simples, mas que se revela um poço de segredos incómodos para muitos.

A recuperar de um esgotamento, chega a Macau para investigar o espólio do comendador Wang Wu, que viveu no século XIX. Com o desenrolar do estudo, verifica-se que Wang Wu e a sua esposa não eram quem se pensava. A investigação paga pelo neto de Wang Wu, um milionário que vive em Hong Kong, acaba por se revelar um jogo de interesses em que Adriano vai descobrindo a mesquinhez da alma humana num sonho oriental. 

Um verdadeiro cenário de intriga policial que nos mantém presos até ao fim, à espera da resolução de todos os enigmas.

Este é o primeiro volume de uma trilogia, que se segue com “O Dragão de Fumo” e “A Catedral Verde”. No entanto qualquer um deles pode ser lido isoladamente. Todos os três livros contam episódios da vida de Adriano Correia e passam-se todos em Macau, em épocas distintas.

domingo, 14 de julho de 2013

Contos do Nascer da Terra de Mia Couto

“Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.”


Falar de um livro de Mia Couto, ou melhor escrever sobre um livro de Mia Couto é uma tarefa complicada. Não há forma de transmitir o sentimento que nos invade ao lermos os seus contos escritos naquele linguajar tipicamente moçambicano. Quem lá esteve, é invadido pela nostalgia dessas falas, dessas ligações entre gentes e entre terras.

Neste livro “Contos do Nascer da Terra” são-nos apresentados 35 contos, de tradição popular, que nos falam de um povo, da sua identidade e sobretudo das suas raízes e da sua ligação à terra. 

São histórias que nos despertam um sorriso e que nos fazem pensar na beleza natural do mundo. Mia Couto consegue captar estes fragmentos naturais, ingénuos e belos, transformando-os em palavras que nos deliciam.

Um livro para ir lendo devagar, conto a conto, degustando cada história sem pressas, sem limites.

Deixo-vos mais um conto:

“Miudádivas, pensatempos

(Para Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias)

Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui na margem de uma floresta em Niassa, me desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas de flor. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é a minha hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, vermelhos desocupados pelo dia.

Nesse entardecer de tudo vou empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda onde me resguardo me chegam, soltas e dispares, desvisões, pensatempos, proesias. Assim, em miudádivas ao poeta:

A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
Adquire a forma do nada.
Enquanto o ramo vai transitando para camaleão.

Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
A aranha confunde madrugada com sótão,
artefactando materiais de orvalho.
Ela se mantimenta de esperas.
Minha tenda se engrandece a teia.

Uma mosca se inadverte na armadilha.
Igual o amor
que rouba mecanismos de viver.

Formigas transportam infinitamente a terra.
Estarão mudando eternamente de planeta?
Estarão engolindo o mundo?

Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vela.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o total inicio,
redundante gravidez do mundo.

Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estômago não entender poesias.

Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento?
Instantâneas aves,
pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo
Só a coruja atrapalha a eternidade.

Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos, derrames de céu.
Parecem-me luas e são lábios.
Lembranças da minha amada.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.

Escuto, depois a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa á margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.
Meu sonho está cega para razões.
Sei só escrever palavras que não há.

Depois, o sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.”


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Lili de Manuel Alves

Sinopse

Lili acabara mesmo de mudar de casa. Novamente. Era a segunda vez, em menos de um mês, que os pais encaixotavam tudo para voltarem a desencaixotar. Na primeira casa, ficaram quase duas semanas, e Lili já começava a conhecer todos os cantos secretos. Só lhe faltava explorar a cave. Mas voltaram a encaixotar tudo dois dias depois de a mãe ter começado a escrever o livro novo. Durante duas noites seguidas, Lili acordou a gritar com um pesadelo horrível. Sonhou com um homem alto muito baixo que tinha tanto de gordo como de magro. Lili chamou-lhe o Homem Que Muda. No pesadelo, aparecia-lhe cego, mas olhava-a nos olhos. Era mudo, mas falava. Dizia sempre a mesma coisa: não desças à cave.

Mais um conto de Manuel Alves. E atrevo-me a dizer que, até agora, foi o que gostei mais de tudo o que li deste autor. 

A sinopse refere o essencial da história, falar mais sobre ela é contar o que não se deve e estragar a surpresa a quem lê. Por esta razão não o vou fazer.

Vou apenas comentar o porquê de ter gostado tanto desta pequena história que nos fala de sonhos, pesadelos, de amizade e de confiança. E sobretudo de medos, de vencermos os nossos medos, porque todos os temos.

Para muitos “A Invenção de um conto de fadas” do autor, é uma referência e é muito bom. Já no meu comentário sobre o mesmo, referi o quanto tinha gostado, a história está muito bem desenvolvida. Mas não me identifiquei com os personagens, não criei empatia com as suas opções, com o seu modo de vida. 

É verdade que cada um tem a sua maneira própria de ser e de se identificar com determinadas situações ou histórias. Eu gosto bastante de contos e de contos infantis, pelo que todo o tema me seduziu de imediato.

Este conto vem acompanhado de uns desenhos bem engraçados feitos pelo próprio autor.

Em ” Lili”, achei fascinante a dualidade do Homem Que Muda, e toda a construção da história na história que se vai construindo. O final é importante para a mensagem que se pretende passar e está bem conseguida. A linguagem é deliciosa, os diálogos são carinhosos e ao mesmo tempo cheios de subtilezas.

É uma história positiva, em todos os aspectos, na minha opinião e é essa a imagem que temos de passar às nossas crianças, quer as mais pequenas, quer aquelas que vivem dentro de nós. 

Deixo-vos um pequeno excerto (sem spoilers) : 

"Lili manteve um sorriso até a mãe fechar a porta. Subiu o queixo e estudou a variedade de cinzentos que separavam as nuvens boazinhas das zangadas. As nuvens de tonalidades clarinhas eram boazinhas. As nuvens mais carregadas eram zangadas. Eram as que faziam chover muito tempo até aborrecerem dias inteiros.
— Não há só coisas boas por cima da cabeça — disse ela, num sussurro quase tão secreto como um pensamento que lhe fez mover os lábios.
Sentiu o toque de uma mão cuidadosa no ombro e um sussurro chegou-lhe ao ouvido.
— Não subas ao sótão — disse o Homem Que Muda.
Lili voltou-se num susto de curiosidade. O Homem que Muda desapareceu como névoa que ela dissipou com a meia volta do corpo. O Homem Que Muda falava-lhe sempre com voz de canela. Cada palavra lembrava-lhe o cacau quente que a mãe fazia, uma receita secreta herdada da avó, que polvilhava o creme na superfície do cacau com uma pitadinha de canela que deixava um cheirinho bom no ar. Era assim a voz do Homem Que Muda. A única coisa nele que nunca mudava."

Este conto encontra-se gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/331723