sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo de Haruki Murakami


Sinopse
“Duas histórias paralelas desenrolam-se em cenários sugestivos. Uma decorre numa misteriosa cidade murada - o Fim do Mundo. A outra, numa Tóquio futurista, num gélido e desapiedado país das maravilhas.

Ao chegar à cidade fechada nos confins do mundo, o narrador vê-se privado da sua sombra. As suas recordações começam, pouco a pouco, a desvanecer-se, à medida que assume a tarefa de leitor de sonhos num lugar povoado por habitantes possuidores de estranhas carências anímicas e percorrido por unicórnios dotados de uma pelagem que se torna dourada no outono.
Na segunda história, um informático com trinta e cinco anos, ao serviço de uma duvidosa entidade, envolve-se com um cientista que tem tanto de genial como de enigmático. Que representam de importante para o futuro da humanidade as misteriosas experiências que colocam em risco as cobaias? Quem são os obscuros Invisíveis? Qual o significado das criaturas rastejantes e malignas que escorregam dos buracos ocultos, vagueando pelos tenebrosos subterrâneos? É precisamente no fundo da sua mente que o herói encontrará a solução do mistério que liga as personagens destes dois mundos.

... Um acelerador de partículas narrativo percorre o romance, num movimento de zoom, aproximando-se e afastando-se de crânios de unicórnios e bibliotecárias vorazes. Wild Turkey e Bob Dylan. Charlie Parker e Lord Jim. Turguéniev e O Homem Tranquilo. Paixões em Fúria e Lauren Bacall. Dostoiévski e os Police. ‘Danny Boy’ e a música reggae. Há todo um mundo de referências nesta poderosa alegoria sobre os tempos modernos.”


No momento em que fechei a última página, fiquei a olhar para a contracapa onde surge o seguinte parágrafo:

“ – Consigo ler o teu coração. E vou conseguir uni-lo num todo. O teu coração deixará de ser um coração perdido e fragmentado em mil pedaços. Está aqui e ninguém vai poder arrebatar-to. – Tornei a pousar os lábios sobre as pálpebras dela. – Deixa-me aqui sozinho – pedi. – Quero ler o teu coração antes que a manhã chegue. A seguir, dormirei um pouco.”

Depois fiquei com a sensação de um vazio. Aquelas personagens, aquele mundo que me acompanhou por uns dias, enquanto durou a sua leitura, iria deixar de fazer parte do meu dia a dia. 

Um livro, na minha opinião, verdadeiramente fantástico. 

Escrito em 1985, vencedor do Prémio Tanizaki (um dos prémios literários mais prestigiados do Japão e é atribuído, desde 1965 a obras de ficção ou drama, escritas por profissionais) só recentemente chegou às nossas livrarias. Classificado como Ficção Cientifica. (se bem que por vezes me questiono onde fica a fronteira exacta, que classifica um livro, quando este não pertence claramente a um determinado género literário)

Como já se encontra referido na sinopse, este livro apresenta duas histórias em paralelo, uma nos capítulos pares e a outra nos capítulos ímpares. Ao longo das suas páginas vamos acompanhando dois mundos, duas sociedades e duas narrativas completamente independentes. Apenas uma característica comum: ambas são escritas na 1ª pessoa, dois homens sem raízes, que procuram a razão da sua existência, perdidos nos seus mundos, sem se cruzarem ao longo de toda a narrativa.

O País das Maravilhas apresenta-nos a cidade de Tóquio, numa realidade aparentemente normal, onde um informático é solicitado para desenvolver um trabalho junto de um velho cientista. Como todo o verdadeiro cientista, este “avô” tem a sua cota de genialidade bastante apurada. Sem perceber bem como, o nosso personagem vê-se envolvido num projecto altamente secreto, constituindo, ele próprio, um alvo de procura por parte das várias facções do poder, uma vez que o seu cérebro funciona como um processador de dados, capaz de registar e criptografar informação.

O Fim do Mundo apresenta-nos uma cidade, rodeada por uma muralha intransponível, onde as pessoas vivem despojadas dos seus corações e das suas sombras. Nesta, o homem chega e é-lhe atribuída a função de leitor de velhos sonhos em crânios de unicórnios, mas para tal vê-se privado do Sol e da sua sombra. Sem memórias, resta-lhe apenas o seu coração para compreender o que se passa ali.

Folha a folha, vamo-nos conectando com as suas vidas e com os simbolismos que o autor tanto gosta de utilizar nas suas obras. Surgem-nos as questões: o que significam os crânios, os unicórnios, a sombra, os velhos sonhos? Será que há algum relacionamento entre estes mundos paralelos? Muitas outras perguntas vão surgindo, mas Haruki faz-nos esperar pelo tempo certo para as respostas, nada é apresentado ao acaso, mas sim inserido numa trama que se vai desenrolando num tempo próprio ao longo de todo o livro.

A comida (há sempre quem coza esparguete), bem como as referências musicais são sempre uma constante nos seus livros, sendo que aqui acresce o gosto pelos clássicos da literatura.

No meio do desenvolvimento de toda a história, surge no nosso pensamento outro tipo de questões, de facto qual o papel da evolução nas nossas vidas, de que forma ela poderá condicionar-nos num futuro e quem somos, enquanto seres humanos providos de um coração, de sentimentos e sonhos. 

Como refere o velho cientista no inicio do livro: “uma evolução feliz é coisa que não existe.”

É muito difícil descrever a escrita de Haruki Murakami,. Acredito que ou se gosta bastante ou então não se gosta, e as duas opções são válidas.

A sua escrita apresenta-nos episódios divertidos, recheados de um humor muito próprio. Os diálogos são muito bons, fluem naturalmente. Escreve com uma ternura aliada a um misticismo que nos deixa sempre com um sorriso. 

Para mim como já referi mais do que uma vez Haruki Murakami tem uma escrita deliciosa e é um excelente contador de histórias.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner de Afonso Cruz



Sinopse

Com reflexões e histórias ignoradas noutras enciclopédias, o volume Arquivos de Dresner aborda, entre outras coisas, o caso de Ezequiel Vala, um maratonista que perdeu uma prova, nas Olimpíadas de 1928, por causa de uma flor (amaryllis/hippeastrum); fala do explorador Gomez Bota, que provou que a Terra não é redonda e descobriu, numa das suas viagens, a entrada para o Inferno tal como Dante a havia descrito; e relata os hábitos dos índios Abokowo, que dão saltos quando dizem palavras como «amor» e «amizade».


Esta é mais uma viagem lúdica pela História, remisturando conceitos, teorias e opiniões e lançando nova luz sobre uma panóplia de assuntos, desde a filosofia à religião, desde o misticismo à ciência.

«Um artista é alguém que, em vez de pintar uma paisagem tal como ela é, faz com que as pessoas vejam a paisagem tal como ele a vê.»
(Tsilia Kacev)



“Ler é uma maneira de ser. Tal como os homens usam roupa, a alma usa livros”
(Wihelm Möller)

Deste autor, apenas tinha lido um conto e alguns excertos das suas obras. Fiquei bastante curiosa e assim que tive oportunidade, agarrei-a e comecei por este volume da sua Enciclopédia da Estória Universal.

E devo-vos dizer que gostei muito. Esta enciclopédia, como o seu nome indica, apresenta-nos um conjunto de pequenas histórias, definições e um pouco de tudo aquilo que uma enciclopédia deve ter. 

No entanto, todos estes conceitos são “envoltos” numa escrita muito própria em que o autor utiliza quer a reflexão filosófica quer o saber místico, levando-nos a viajar nas páginas do seu universo sempre com um sorriso.

São pequenas histórias de tribos indígenas (os Abokowo), de tartarugas bicéfalas, de corredores olímpicos amantes de botânica, de exploradores que tentam provar que a Terra afinal não é redonda (Fernão Magalhães estava errado) entre outras, intercaladas com poesias soltas, pensamentos, provérbios e ditos populares. 

Neste livro a realidade e a ficção misturam-se de forma harmoniosa, levando-nos constantemente a questionar onde uma começa e onde a outra termina, ou se existe alguma verdade nestes pedacinhos de história, ou mesmo se os autores mencionados não serão apenas personagens criadas pela imensa imaginação do autor.

Um livro diferente no panorama nacional. Uma obra que me leva a querer saber muito mais sobre Afonso Cruz.

domingo, 2 de junho de 2013

Os Leões de Al-Rassan de Guy Gavriel Kay


Sinopse:

"Inspirado na História da Península Ibérica, Os Leões de Al-Rassan é uma épica e comovente história sobre amor, lealdades divididas e aquilo que acontece aos homens e mulheres quando crenças apaixonadas conspiram para refazer – ou destruir – o mundo. 


Lar de três culturas muito diferentes, Al-Rassan é uma terra de beleza sedutora e história violenta. A paz entre Jaditas, Asharitas e Kindates é precária e frágil, mas é precisamente a sombra que separa os povos que acaba por unir três personagens extraordinárias: o orgulhoso Ammar ibn Khairan – poeta, diplomata e soldado, o corajoso Rodrigo Belmonte – famoso líder militar, e a bela e sensual Jehane bet Ishak – física brilhante. Três figuras cuja vida se irá cruzar devido a uma série de eventos marcantes que levam Al-Rassan ao limiar da guerra."

Os Leões de Al-Rassan é um livro de ficção que tem por base uma determinada época da história da península ibérica, a ocupação islâmica e as reconquistas cristãs. São muitas as semelhanças, no entanto rapidamente se verifica que o mundo de Al-Rassan faz parte de um universo à parte. As duas luas que se erguem nos céus, uma branca outra azul são uma das notas elementares deste facto. 

A história passa-se em redor de três personagens que são a peça fundamental de todo o enredo, uma vez que eles representam as três frações religiosas deste mundo criado por Guy Gavriel Kay. (Este facto é mais uma das semelhanças à nossa história ibérica).

Ammar ibn Khairan , o homem que matou o último califa de Al-Rassan, poeta, diplomata e soldado representa o povo asharita que veneram Ashar o deus das estrelas e que ocupam a região de Al-Rassan, cuja capital é Cartada.

Rodrigo Belmonte , Capitão do exército, líder amado por todos os que combatem a seu lado, jadita, adorador do deus do Sol Jad, habitante de Esperaña, a norte da península, e que se encontra dividida em três reinos: Ruenda, Valledo e Jaloña.

Jehane bet Ishak , médica, filha de um dos mais prestigiados médicos de toda a península, Ishak bet Yonannon, pertencentes ao povo kindate, adoradores da duas luas, branca e azul, e que habitam por todo o território.

Para além destas personagens, existem outras igualmente interessantes e bem construídas. Alvar Pellino, um soldado jadita, vai crescendo imenso, enquanto personagem ao longo de toda a obra, surpreendendo-nos verdadeiramente.

A vontade de unificar esta península é um desejo de todos, aliado á vontade de expulsar/ matar os infiéis. Este é mesmo o objectivo para a guerra santa que os altos clérigos jaditas tentam levar a cabo.

Um rol imenso de intrigas, jogos de poder, seduções que formam uma teia que a todos apanha nos seus meandros políticos.

Três povos, três religiões diferentes que se interligam e que acabam por demonstrar que pode haver união e entendimento entre seres humanos com ideologias diferentes, prevalecendo o sentido de honra e justiça.

Relativamente á escrita, esta é simples, fluida e de certa forma cativante. Não sendo muito elaborada e por vezes surge alguma construção de frases que me levou a ficar na dúvida se era erro de tradução ou se seria da própria forma de escrever do autor. Sendo este o primeiro livro que leio deste autor, acabei por me inclinar para a primeira opção.

Em todo o caso, não sendo um livro excepcional, é interessante e recomendo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Feira do Livro



A Feira do Livro de Lisboa é sempre, nesta altura do ano, um destino quase que obrigatório para mim. Mesmo que não possa gastar muito gosto de passear por aquelas bancas, ver os livros, as novidades e claro se for com boa companhia ainda melhor.

Este ano foi o que aconteceu, um grupo pequeno, mas excelente em termos de companhia, proporcionou uma tarde muito agradável. Ouvi bons conselhos e discutiu-se um pouco sobre livros e gostos. Obrigado pela companhia Ana, Paulo (Fiacha), João (Ubik) e Rui.

Quanto aos gastos consegui não me esticar muito, uma vez que prometi a mim mesma não ir atrás de novidades (são sempre muito caras, mesmo na feira) e tentar trazer livros que me agradassem e que estivessem a um bom preço.

Assim deixo-vos um apanhado daquilo que veio no saco para casa, com as respectivas sinopses :

Contos do Dia e da Noite e outras histórias - Guy de Maupassant

"Uma recolha dos mais populares e exemplares contos de Maupassant, os quais reflectem a universalidade das suas criações como ficcionista.

O tema central da sua escrita é fundamentalmente a mulher, na sua vivência e em todas as vertentes da sua existência burguesa, a par com os pequenos-grandes dramas com o mundo dos homens, violento, mesquinho, encantador ou mesmo amoroso, onde sempre existe um culpado e uma vítima.

O «dia e a noite» reflectem isso mesmo, a insatisfação e a alegria, o claro-escuro em que toda a vida se transforma, quando observada com a simplicidade e a mestria narrativa de Maupassant."


Contos de Mistério – Arthur Conan Doyle

"Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) é universalmente conhecido como criador de Sherlock Holmes, o detective mais célebre do mundo, que tinha no Dr. Watson o seu Sancho Pança.

Além de criador de Sherlock Holmes, abordou, com idêntica mestria, muitos outros géneros literários. As histórias apresentadas neste volume

Nas histórias reunidas neste volume proporciona-nos uma viagem inesquecível ao universo do mistério e do fantástico, demonstrando o seu talento e a sua versatilidade."

O Tesouro - Selma Lagerlöf

"O Senhor Arne fora um dos homens mais ricos e mais respeitados da região. Contudo foi tragicamente morto juntamente com todos os seus criados e uma sobrinha com menos de catorze anos. A velha mansão de família foi incendiada e o tesouro foi levado.

A única sobrevivente foi a jovem orfã Elsalill que vivia com a sobrinha do Senhor Arne mas que não se lembra do que sucedeu.

Na pequena cidade costeira, os habitantes perguntam-se o que se passa com a natureza, estamos quase no Verão e o mar continua gelado. Três nobres viajantes esperam que o seu barco desencalhe para partir com o seu misterioso baú. Um deles, um homem elegante e bem vestido, reconhece a jovem Elsalill que tinha começado a trabalhar na estalagem. Elsalill não se lembra deste homem e entre eles nascem emoções fortes e inesperadas..."



A Hora do Sertório - João Aguiar

"De 80 a 72 a.C., à frente de uma confederação de povos ibéricos, Quinto Sertório enfrentou com êxito os numerosos exércitos que a "sua" Roma enviara para submeter as províncias hispanas.

A guerra de Sertório foi um episódio da longa e sangrenta agonia da República Romana, que, esgotada na sua força interior, sacrificou sistematicamente os homens que a poderiam salvar; Sertório foi provavelmente a mais ilustre das vítimas.

É essa época de crise — política, económica, mas, sobretudo, de valores — que este livro evoca, através das narrações de um filósofo grego, de um general romano e de um jovem lusitano, Medamo de seu nome."

O Dragão de Fumo - João Aguiar

"Retirado na sua casa de Vale de Monges, que herdou recentemente e de que fez o seu refúgio, Adriano entrega-se ao prazer simples de desvendar um pequeno segredo local e familar, quando, inesperadamente, recebe um apelo de Rita, a filha mais velha, que, tal como ele próprio anos atrás, partiu para Macau na esperança de se refazer de um divórcio que a deixou traumatizada.

Adriano acorre em auxílio da filha, o que é também um pretexto para visitar as suas memórias. Porém, Macau é um "dragão de fumo", uma realidade em constante mutação, e o passado não pode ser revivido. Em compensação, o presente reserva uma experiência nova e inquietante a este homem que, sentindo-se a envelhecer, procurava acima de tudo adaptar-se ao advento da terceira e última idade.

Pegando de novo no personagem principal de Os Comedores de Pérolas (romance já traduzido em Itália e na Alemanha), João Aguiar regressa também ele a Macau e ao sortilégio de um mundo que se prepara para mudar."


Bill o Herói Galáctico – Harry Harrison 

"Sem saber bem como, Bill alista-se nas poderosas forças do Império Galáctico. Sem saber como vai parar ao labirinto de aço que é o planeta Heliar, o centro daquela Idade Negra do Espaço. Sem saber como, vê-se envolvido numa tremenda batalha interstelar. E sem saber como, vê-se tornado num herói, depois do que volta ao seu pobre planeta, à sua pobre aldeia, para convencer outros jovens a alistarem-se – sem saberem como, nem para onde, nem porquê. Bill, o Herói Galáctico é uma das mais interessantes obras de Harry Harrison, um dos mais célebres autores de FC – uma obra em que o militarismo, a burocracia e a hipocrisia são objecto de uma critica tão severa, quanto divertida. Uma critica que dá muito que pensar porque, situando-se no futuro, olha para o presente."


A Linguagem é a Minha Pátria – Jorge Semprún

"No Verão de 2010, Jorge Semprún dedicou-sea uma série de conversas com Franck Appréderis, seu amigo de há décadas, que deu origem a um programa emitido pela France Télévisions.

De modo simultaneamente íntimo e pudico, Jorge Semprún regressa ao conjunto da sua obra, tanto literária como cinematográfica, e ao seu percurso político: resistente comunista deportado para Buchenwald (campo de concentração nazi, de onde só saiu em 1945), militante clandestino em luta contra o franquismo e ministro da Cultura de Felipe González.

Testemunha e actor das convulsões da história do século XX, fala com franqueza e simplicidade: “Tenho mais recordações do que se tivesse mil anos.”

O relato ímpar da vida de um homem extraordinário.

Uma revisitação do século XX por um dos mais empenhados protagonistas da história recente da Europa."


Para além destes livros, foram-me oferecidos mais três pelo amigo Paulo (Fiacha), a quem agradeço muito. Foram eles :

Diálogos com o Ultimo Guardião do Tesouro dos Templários em Valcros de França de Luís Rivera Gonçalves

O Castelo de Lorde Valentine e O Castelo de Lorde Valentine 2 de Robert Silverberg

Por fim o dia terminou muito bem.

Á noite uma sessão fantástica com o contador de histórias Rui Ramos na GATAfunho (Livraria no Bairro Alto) em que, para além de um conjunto de histórias muito engraçadas na mente, trouxe uma pequena ovelha:

Selma de Jutta Bauer




sábado, 18 de maio de 2013

A Invenção de um Conto de Fadas - Manuel Alves




Sinopse:

Seria bom que todas as histórias entre duas pessoas que se gostam terminassem em verdadeiros contos de fadas. A vida é outra coisa. 

Se querem uma história em linha recta, não leiam este romance. No ínicio, é uma chama que arde lenta. No meio, fala de amor como apenas o amor sabe falar de si. No fim, umas coisas acabam e outras começam. É um fim um bocado mentiroso.






A Invenção de um conto de fadas é um livro que nos presenteia com uma realidade diária, mas que surge de uma forma simples e extraordinariamente agradável. Fala-nos de afectos, de experiências de vida que nos vão conquistando ao longo das páginas. 

Página a página, vamos conhecendo as personagens, as suas vidas e criando um empatia com os seus erros, angustias, medos, percas e tantas outras emoções. Casos iguais a tantos que se cruzam connosco, mas que aqui se encontram descritos de uma forma carinhosa. 

Cinco “casais”, cinco gerações diferentes, cinco relacionamentos onde a palavra afecto (como o próprio autor Manuel Alves afirma) é a palavra-chave. 

A infância, repleta da magia própria desta idade, descobre um sentimento que acompanha o ser humano até ao fim da sua vida, vive as suas primeiras descobertas e a forma como agradar a quem lhe agrada. 

A adolescência divide-se entre o afecto e aquilo que o mundo lhe apresenta. Há um vida inteira lá fora por descobrir, como se pode ficar agarrado a algo que esteve ali ao nosso lado diariamente? 

O jovem adulto divide-se entre a "prisão" de um afecto, a dúvida,  que poderá condicionar (pensa ele) o seu desenvolvimento e projecção no mundo, a carreira profissional, os outros, o mundo inteiro ainda por viver. 

O casal adulto que preso na sua rotina, não percebe o afastamento que começa a surgir. Surge a dúvida, o questionar do sentido de toda uma vida que se viveu em função de algo ou de alguém e essencialmente surge a falta de diálogo que provoca um desabar de todo um conjunto de situações. A figura materna, que quando os filhos crescem, vê-se perante a sensação de uma vida que parece não ter sentido, perante uma vida que nunca foi vivida no seu verdadeiro sentido da palavra. 

Por fim o Sr. Agostinho, o avô que adoptamos logo no início do livro. O chegar de um fim, a solidão face a uma vida riquíssima a dois, mas que tenta ultrapassar numa doação total aos outros ouvindo-os, ajudando-os através do seu chá divinal.

A escrita simples e cativante, pontuada de um humor característico leva-nos a percorrer as páginas com um sorriso nos lábios e por vezes uma lágrima a espreitar no canto do olho. 

Um livro muito agradável que recomendo a qualquer leitor. 

Apenas uma crítica mais mordaz (desculpem a expressão) e muito pessoal. Não me considero uma feminista, pois o Homem e a Mulher, na minha opinião, não são de forma alguma iguais, devem sim ter direitos iguais, assim como qualquer ser humano independentemente do seu sexo ou cor da pele. A figura feminina nesta história é de certa forma “a traidora do afecto”, é nela que surgem as grandes dúvidas, as grandes hesitações e os erros, a dificuldade na expressão do sentimento esbarra com a dificuldade da mulher em compreende-lo. Não me parece que, mesmo sendo nós uns “seres” muito complicados, seja sempre assim na vida real, também não o deveria ser num Conto de Fadas mesmo que inventado.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Urbania de Carlos Silva




Sinopse :
Que influência terá sobre Lisboa a cidade em movimento, onde os sonhos e a lucidez se vendem como um mero produto? As duas cidades estão em rota de colisão e Hugo sabe que é a única oportunidade de alguma vez conseguir passar de uma para a outra, mas para isso terá de compreender o que os Lobos lhe dizem. Um romance sobre ciclos que se cruzam e entrecruzam, onde a única constante é a mudança


Carlos Silva é um jovem autor português que começa a divulgar a sua obra e que tive o prazer de ler o seu livro “Urbania” numa leitura conjunta.
Urbania é um livro composto por sete capítulos que funcionam quase como contos interligados entre si.
Inicialmente o livro deixa-nos meio confusos, ou melhor a mim deixou-me. São-nos apresentados o Ricardo e a Laura, a noite de Lisboa e os lobos, que não se entende muito bem, inicialmente, quem são e qual o seu papel. Surge um livro preto, ou melhor um caderno preto, peça fundamental no destino dos lobos, em que cada um tem de copiar e interiorizar o seu conteúdo.
Em seguida, no capítulo seguinte, deparamo-nos com o Hugo Maltês e a semiotologia. A história começa aqui a desenhar-se muito mais claramente e a deixar-nos com um laivo de entusiasmo crescente. Somos espicaçados, pela mudança e pela necessidade de mudança.
A temática das cidades paralelas que se cruzam algures num espaço, a chave, os lobos e a mudança face a uma rotina constante começam a ser as peças fundamentais deste puzzle que o Carlos Silva criou.
Surgem novas personagens, o professor Castilho e a Inês. Novamente os lobos, onde se começa a ver a ligação fundamental numa cidade estática com uma cidade em constante mudança, Urbania, a cidade móvel paralela
A procura da chave, simbolicamente a chave pode significar abertura, iniciação. Aqui será também esse o significado, certamente. A chave que é entregue a Hugo Maltês, abre-lhe uma nova dimensão da vida.
Urbania surge como a cidade colorida, despretensiosa, habituada a um ritmo que de repente é alterado e que cria o pânico entre os seus governantes. Novo capitulo, novas personagens e duas facetas nesta história, para mim fantásticas: o prédio vivo e o caçador de sonhos ( a minha personagem favorita). A estrutura de mudança de Urbania está genial e a dicotomia de incerteza : é o nevoeiro que engole Urbania ou é Urbania que foge do nevoeiro? Se de facto o nevoeiro avança sobre a cidade, como existem prédios vivos que acompanham a deslocação da mesma?
A memória, outro aspecto fundamental numa cidade em constante mudança. O registo das mesmas, o arquivista reformado, outra vertente que não falta neste mundo em mudança.
As várias personagens começam a interligar-se, criando como que uma teia que se estende de uma cidade a outra, infiltrando-se mesmo pelo nevoeiro com o surgimento do povo das brumas.
Os acontecimentos finais surgem a um ritmo rápido e o desenlace final cai de rompante, muito forte, deixando-me de certa forma meia atordoada.
Um livro muito interessante, cuja história nos vai prendendo a cada página que se vai desfolhando, passo a passo até ao auge onde tudo termina repentinamente.
No entanto, tenho de referir alguns aspectos que penso que deverão ser corrigidos.
Como já tive oportunidade de referir ao autor, no âmbito da leitura conjunta, surgem alguns erros ortográficos, em que alguns serão lapsos, mas outros talvez não. Nada que não aconteça a qualquer um que escreva, deve-se talvez pedir a mais do que uma pessoa para fazer uma revisão, por forma a evitar deixar passar algo a que os nossos olhos já se habituaram.
Na minha opinião, e esta é logicamente baseada no meu gosto pessoal, o ritmo do livro não é constante. Ou seja, o ritmo vai-se acentuando consoante o desenrolar da história, no entanto se inicialmente pouco acontece, existem algumas descrições mais detalhadas e mais pormenorizadas, no final o ritmo é muito intenso e tudo acontece rapidamente, parece que tem de terminar de imediato.
Resumidamente, poderei afirmar que a história e o tema são muito bons e estão muito bem desenvolvidos, no entanto em termos de escrita penso que o autor precisa de “amadurecer” um pouco mais.
Mas é com certeza um escritor com potencial, e com ideias fantásticas que deve explorar e transmiti-las em formas de contos e livros. Quanto mais escrever, na minha opinião mais aperfeiçoará a sua técnica, e os resultados serão melhores.
É, para finalizar, uma leitura agradável que recomendo tanto mais pela ideia genial da sua história.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Contos do Insólito de Guy de Maupassant



“Meu Deus! Meu Deus! Vou portanto escrever, enfim, o que me aconteceu! Mas poderei fazê-lo? Atrever-me-ei? Isto é tão estranho, tão inexplicável, tão incompreensível, tão louco!

Se não tivesse a certeza do que vi, a certeza de que não existiu nos meus raciocínios, nenhum desfalecimento, nenhum erro nas minhas comprovações, nenhuma lacuna na série inflexível das minhas observações, julgar-me-ia um simples alucinado, o joguete de uma estranha visão.
 Afinal, quem sabe?
Encontro-me hoje numa casa de saúde; mas entrei voluntariamente por prudência, por medo.
Um único ser conhece a minha história. O médico daqui. Vou escrever-lhe. Não sei lá muito bem porquê. Para me desembaraçar disto, porque o sinto dentro de mim como um intolerável pesadelo.”


Guy de Maupassant (1850 – 1893), foi um escritor francês que se debruçou fortemente sobre situações psicológicas e crítica social.
Escreveu romances e peças de teatro. No entanto, foi com os contos que se notabilizou, sendo considerado a par de Tchekov como um dos melhores contistas de todos os tempos.
Era um homem solitário, nutrindo alguma aversão à sociedade. Viajava bastante e em cada viagem, trazia novas obras.
Dos seus romances destacam-se Bel-Ami e Pierre et Jean, sendo este último considerado por muitos como o seu melhor romance.
Dos 300 contos que escreveu, destacam-se  A Pensão Tellier e O Horla
O medo da morte atormentava-o, veio a falecer no manicómio, pouco antes de completar os 43 anos de idade, após tentativa de suicídio, provocado por perturbações mentais causadas pela sífilis que o atormentou por uma década.

O livro Contos do Insólito é uma coletânea de 21 contos que têm em comum o fantástico e o sobrenatural.
Não podemos esquecer que são escritos, no século XIX, quando se começa a falar em magnetismo, hipnotismo e a sua ligação aos fatores psíquicos e ao paranormal. Neles o impossível alia-se ao fantástico, criando situações insólitas em que o factor surpresa é uma constante.
Escritos num tom muito pessoal, em que o autor cria um elo muito forte com as personagens, sendo em muitos casos o próprio protagonista da história que desenvolve, o amigo próximo ou mesmo o médico que o assiste.
A linguagem intimista cativa-nos e leva-nos a percorrer este mundo insólito e perturbador, conto após conto, identificando-nos, de uma forma emotiva, com as relações de amor, ódio, perseguição ou mesmo com a presença da morte.
Não vou fazer uma análise detalhada dos contos, uma vez que são pequenos e acabaria por lhes retirar o factor surpresa que atinge o leitor de rompão ao iniciar a sua leitura.
Apenas refiro que a escrita é viciante, para quem gostar do género, e que rapidamente nos damos conta que o livro chegou ao fim e o mistério fica no ar.
Gostei muito e recomendo a quem gostar do género