terça-feira, 28 de maio de 2013

Feira do Livro



A Feira do Livro de Lisboa é sempre, nesta altura do ano, um destino quase que obrigatório para mim. Mesmo que não possa gastar muito gosto de passear por aquelas bancas, ver os livros, as novidades e claro se for com boa companhia ainda melhor.

Este ano foi o que aconteceu, um grupo pequeno, mas excelente em termos de companhia, proporcionou uma tarde muito agradável. Ouvi bons conselhos e discutiu-se um pouco sobre livros e gostos. Obrigado pela companhia Ana, Paulo (Fiacha), João (Ubik) e Rui.

Quanto aos gastos consegui não me esticar muito, uma vez que prometi a mim mesma não ir atrás de novidades (são sempre muito caras, mesmo na feira) e tentar trazer livros que me agradassem e que estivessem a um bom preço.

Assim deixo-vos um apanhado daquilo que veio no saco para casa, com as respectivas sinopses :

Contos do Dia e da Noite e outras histórias - Guy de Maupassant

"Uma recolha dos mais populares e exemplares contos de Maupassant, os quais reflectem a universalidade das suas criações como ficcionista.

O tema central da sua escrita é fundamentalmente a mulher, na sua vivência e em todas as vertentes da sua existência burguesa, a par com os pequenos-grandes dramas com o mundo dos homens, violento, mesquinho, encantador ou mesmo amoroso, onde sempre existe um culpado e uma vítima.

O «dia e a noite» reflectem isso mesmo, a insatisfação e a alegria, o claro-escuro em que toda a vida se transforma, quando observada com a simplicidade e a mestria narrativa de Maupassant."


Contos de Mistério – Arthur Conan Doyle

"Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) é universalmente conhecido como criador de Sherlock Holmes, o detective mais célebre do mundo, que tinha no Dr. Watson o seu Sancho Pança.

Além de criador de Sherlock Holmes, abordou, com idêntica mestria, muitos outros géneros literários. As histórias apresentadas neste volume

Nas histórias reunidas neste volume proporciona-nos uma viagem inesquecível ao universo do mistério e do fantástico, demonstrando o seu talento e a sua versatilidade."

O Tesouro - Selma Lagerlöf

"O Senhor Arne fora um dos homens mais ricos e mais respeitados da região. Contudo foi tragicamente morto juntamente com todos os seus criados e uma sobrinha com menos de catorze anos. A velha mansão de família foi incendiada e o tesouro foi levado.

A única sobrevivente foi a jovem orfã Elsalill que vivia com a sobrinha do Senhor Arne mas que não se lembra do que sucedeu.

Na pequena cidade costeira, os habitantes perguntam-se o que se passa com a natureza, estamos quase no Verão e o mar continua gelado. Três nobres viajantes esperam que o seu barco desencalhe para partir com o seu misterioso baú. Um deles, um homem elegante e bem vestido, reconhece a jovem Elsalill que tinha começado a trabalhar na estalagem. Elsalill não se lembra deste homem e entre eles nascem emoções fortes e inesperadas..."



A Hora do Sertório - João Aguiar

"De 80 a 72 a.C., à frente de uma confederação de povos ibéricos, Quinto Sertório enfrentou com êxito os numerosos exércitos que a "sua" Roma enviara para submeter as províncias hispanas.

A guerra de Sertório foi um episódio da longa e sangrenta agonia da República Romana, que, esgotada na sua força interior, sacrificou sistematicamente os homens que a poderiam salvar; Sertório foi provavelmente a mais ilustre das vítimas.

É essa época de crise — política, económica, mas, sobretudo, de valores — que este livro evoca, através das narrações de um filósofo grego, de um general romano e de um jovem lusitano, Medamo de seu nome."

O Dragão de Fumo - João Aguiar

"Retirado na sua casa de Vale de Monges, que herdou recentemente e de que fez o seu refúgio, Adriano entrega-se ao prazer simples de desvendar um pequeno segredo local e familar, quando, inesperadamente, recebe um apelo de Rita, a filha mais velha, que, tal como ele próprio anos atrás, partiu para Macau na esperança de se refazer de um divórcio que a deixou traumatizada.

Adriano acorre em auxílio da filha, o que é também um pretexto para visitar as suas memórias. Porém, Macau é um "dragão de fumo", uma realidade em constante mutação, e o passado não pode ser revivido. Em compensação, o presente reserva uma experiência nova e inquietante a este homem que, sentindo-se a envelhecer, procurava acima de tudo adaptar-se ao advento da terceira e última idade.

Pegando de novo no personagem principal de Os Comedores de Pérolas (romance já traduzido em Itália e na Alemanha), João Aguiar regressa também ele a Macau e ao sortilégio de um mundo que se prepara para mudar."


Bill o Herói Galáctico – Harry Harrison 

"Sem saber bem como, Bill alista-se nas poderosas forças do Império Galáctico. Sem saber como vai parar ao labirinto de aço que é o planeta Heliar, o centro daquela Idade Negra do Espaço. Sem saber como, vê-se envolvido numa tremenda batalha interstelar. E sem saber como, vê-se tornado num herói, depois do que volta ao seu pobre planeta, à sua pobre aldeia, para convencer outros jovens a alistarem-se – sem saberem como, nem para onde, nem porquê. Bill, o Herói Galáctico é uma das mais interessantes obras de Harry Harrison, um dos mais célebres autores de FC – uma obra em que o militarismo, a burocracia e a hipocrisia são objecto de uma critica tão severa, quanto divertida. Uma critica que dá muito que pensar porque, situando-se no futuro, olha para o presente."


A Linguagem é a Minha Pátria – Jorge Semprún

"No Verão de 2010, Jorge Semprún dedicou-sea uma série de conversas com Franck Appréderis, seu amigo de há décadas, que deu origem a um programa emitido pela France Télévisions.

De modo simultaneamente íntimo e pudico, Jorge Semprún regressa ao conjunto da sua obra, tanto literária como cinematográfica, e ao seu percurso político: resistente comunista deportado para Buchenwald (campo de concentração nazi, de onde só saiu em 1945), militante clandestino em luta contra o franquismo e ministro da Cultura de Felipe González.

Testemunha e actor das convulsões da história do século XX, fala com franqueza e simplicidade: “Tenho mais recordações do que se tivesse mil anos.”

O relato ímpar da vida de um homem extraordinário.

Uma revisitação do século XX por um dos mais empenhados protagonistas da história recente da Europa."


Para além destes livros, foram-me oferecidos mais três pelo amigo Paulo (Fiacha), a quem agradeço muito. Foram eles :

Diálogos com o Ultimo Guardião do Tesouro dos Templários em Valcros de França de Luís Rivera Gonçalves

O Castelo de Lorde Valentine e O Castelo de Lorde Valentine 2 de Robert Silverberg

Por fim o dia terminou muito bem.

Á noite uma sessão fantástica com o contador de histórias Rui Ramos na GATAfunho (Livraria no Bairro Alto) em que, para além de um conjunto de histórias muito engraçadas na mente, trouxe uma pequena ovelha:

Selma de Jutta Bauer




sábado, 18 de maio de 2013

A Invenção de um Conto de Fadas - Manuel Alves




Sinopse:

Seria bom que todas as histórias entre duas pessoas que se gostam terminassem em verdadeiros contos de fadas. A vida é outra coisa. 

Se querem uma história em linha recta, não leiam este romance. No ínicio, é uma chama que arde lenta. No meio, fala de amor como apenas o amor sabe falar de si. No fim, umas coisas acabam e outras começam. É um fim um bocado mentiroso.






A Invenção de um conto de fadas é um livro que nos presenteia com uma realidade diária, mas que surge de uma forma simples e extraordinariamente agradável. Fala-nos de afectos, de experiências de vida que nos vão conquistando ao longo das páginas. 

Página a página, vamos conhecendo as personagens, as suas vidas e criando um empatia com os seus erros, angustias, medos, percas e tantas outras emoções. Casos iguais a tantos que se cruzam connosco, mas que aqui se encontram descritos de uma forma carinhosa. 

Cinco “casais”, cinco gerações diferentes, cinco relacionamentos onde a palavra afecto (como o próprio autor Manuel Alves afirma) é a palavra-chave. 

A infância, repleta da magia própria desta idade, descobre um sentimento que acompanha o ser humano até ao fim da sua vida, vive as suas primeiras descobertas e a forma como agradar a quem lhe agrada. 

A adolescência divide-se entre o afecto e aquilo que o mundo lhe apresenta. Há um vida inteira lá fora por descobrir, como se pode ficar agarrado a algo que esteve ali ao nosso lado diariamente? 

O jovem adulto divide-se entre a "prisão" de um afecto, a dúvida,  que poderá condicionar (pensa ele) o seu desenvolvimento e projecção no mundo, a carreira profissional, os outros, o mundo inteiro ainda por viver. 

O casal adulto que preso na sua rotina, não percebe o afastamento que começa a surgir. Surge a dúvida, o questionar do sentido de toda uma vida que se viveu em função de algo ou de alguém e essencialmente surge a falta de diálogo que provoca um desabar de todo um conjunto de situações. A figura materna, que quando os filhos crescem, vê-se perante a sensação de uma vida que parece não ter sentido, perante uma vida que nunca foi vivida no seu verdadeiro sentido da palavra. 

Por fim o Sr. Agostinho, o avô que adoptamos logo no início do livro. O chegar de um fim, a solidão face a uma vida riquíssima a dois, mas que tenta ultrapassar numa doação total aos outros ouvindo-os, ajudando-os através do seu chá divinal.

A escrita simples e cativante, pontuada de um humor característico leva-nos a percorrer as páginas com um sorriso nos lábios e por vezes uma lágrima a espreitar no canto do olho. 

Um livro muito agradável que recomendo a qualquer leitor. 

Apenas uma crítica mais mordaz (desculpem a expressão) e muito pessoal. Não me considero uma feminista, pois o Homem e a Mulher, na minha opinião, não são de forma alguma iguais, devem sim ter direitos iguais, assim como qualquer ser humano independentemente do seu sexo ou cor da pele. A figura feminina nesta história é de certa forma “a traidora do afecto”, é nela que surgem as grandes dúvidas, as grandes hesitações e os erros, a dificuldade na expressão do sentimento esbarra com a dificuldade da mulher em compreende-lo. Não me parece que, mesmo sendo nós uns “seres” muito complicados, seja sempre assim na vida real, também não o deveria ser num Conto de Fadas mesmo que inventado.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Urbania de Carlos Silva




Sinopse :
Que influência terá sobre Lisboa a cidade em movimento, onde os sonhos e a lucidez se vendem como um mero produto? As duas cidades estão em rota de colisão e Hugo sabe que é a única oportunidade de alguma vez conseguir passar de uma para a outra, mas para isso terá de compreender o que os Lobos lhe dizem. Um romance sobre ciclos que se cruzam e entrecruzam, onde a única constante é a mudança


Carlos Silva é um jovem autor português que começa a divulgar a sua obra e que tive o prazer de ler o seu livro “Urbania” numa leitura conjunta.
Urbania é um livro composto por sete capítulos que funcionam quase como contos interligados entre si.
Inicialmente o livro deixa-nos meio confusos, ou melhor a mim deixou-me. São-nos apresentados o Ricardo e a Laura, a noite de Lisboa e os lobos, que não se entende muito bem, inicialmente, quem são e qual o seu papel. Surge um livro preto, ou melhor um caderno preto, peça fundamental no destino dos lobos, em que cada um tem de copiar e interiorizar o seu conteúdo.
Em seguida, no capítulo seguinte, deparamo-nos com o Hugo Maltês e a semiotologia. A história começa aqui a desenhar-se muito mais claramente e a deixar-nos com um laivo de entusiasmo crescente. Somos espicaçados, pela mudança e pela necessidade de mudança.
A temática das cidades paralelas que se cruzam algures num espaço, a chave, os lobos e a mudança face a uma rotina constante começam a ser as peças fundamentais deste puzzle que o Carlos Silva criou.
Surgem novas personagens, o professor Castilho e a Inês. Novamente os lobos, onde se começa a ver a ligação fundamental numa cidade estática com uma cidade em constante mudança, Urbania, a cidade móvel paralela
A procura da chave, simbolicamente a chave pode significar abertura, iniciação. Aqui será também esse o significado, certamente. A chave que é entregue a Hugo Maltês, abre-lhe uma nova dimensão da vida.
Urbania surge como a cidade colorida, despretensiosa, habituada a um ritmo que de repente é alterado e que cria o pânico entre os seus governantes. Novo capitulo, novas personagens e duas facetas nesta história, para mim fantásticas: o prédio vivo e o caçador de sonhos ( a minha personagem favorita). A estrutura de mudança de Urbania está genial e a dicotomia de incerteza : é o nevoeiro que engole Urbania ou é Urbania que foge do nevoeiro? Se de facto o nevoeiro avança sobre a cidade, como existem prédios vivos que acompanham a deslocação da mesma?
A memória, outro aspecto fundamental numa cidade em constante mudança. O registo das mesmas, o arquivista reformado, outra vertente que não falta neste mundo em mudança.
As várias personagens começam a interligar-se, criando como que uma teia que se estende de uma cidade a outra, infiltrando-se mesmo pelo nevoeiro com o surgimento do povo das brumas.
Os acontecimentos finais surgem a um ritmo rápido e o desenlace final cai de rompante, muito forte, deixando-me de certa forma meia atordoada.
Um livro muito interessante, cuja história nos vai prendendo a cada página que se vai desfolhando, passo a passo até ao auge onde tudo termina repentinamente.
No entanto, tenho de referir alguns aspectos que penso que deverão ser corrigidos.
Como já tive oportunidade de referir ao autor, no âmbito da leitura conjunta, surgem alguns erros ortográficos, em que alguns serão lapsos, mas outros talvez não. Nada que não aconteça a qualquer um que escreva, deve-se talvez pedir a mais do que uma pessoa para fazer uma revisão, por forma a evitar deixar passar algo a que os nossos olhos já se habituaram.
Na minha opinião, e esta é logicamente baseada no meu gosto pessoal, o ritmo do livro não é constante. Ou seja, o ritmo vai-se acentuando consoante o desenrolar da história, no entanto se inicialmente pouco acontece, existem algumas descrições mais detalhadas e mais pormenorizadas, no final o ritmo é muito intenso e tudo acontece rapidamente, parece que tem de terminar de imediato.
Resumidamente, poderei afirmar que a história e o tema são muito bons e estão muito bem desenvolvidos, no entanto em termos de escrita penso que o autor precisa de “amadurecer” um pouco mais.
Mas é com certeza um escritor com potencial, e com ideias fantásticas que deve explorar e transmiti-las em formas de contos e livros. Quanto mais escrever, na minha opinião mais aperfeiçoará a sua técnica, e os resultados serão melhores.
É, para finalizar, uma leitura agradável que recomendo tanto mais pela ideia genial da sua história.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Contos do Insólito de Guy de Maupassant



“Meu Deus! Meu Deus! Vou portanto escrever, enfim, o que me aconteceu! Mas poderei fazê-lo? Atrever-me-ei? Isto é tão estranho, tão inexplicável, tão incompreensível, tão louco!

Se não tivesse a certeza do que vi, a certeza de que não existiu nos meus raciocínios, nenhum desfalecimento, nenhum erro nas minhas comprovações, nenhuma lacuna na série inflexível das minhas observações, julgar-me-ia um simples alucinado, o joguete de uma estranha visão.
 Afinal, quem sabe?
Encontro-me hoje numa casa de saúde; mas entrei voluntariamente por prudência, por medo.
Um único ser conhece a minha história. O médico daqui. Vou escrever-lhe. Não sei lá muito bem porquê. Para me desembaraçar disto, porque o sinto dentro de mim como um intolerável pesadelo.”


Guy de Maupassant (1850 – 1893), foi um escritor francês que se debruçou fortemente sobre situações psicológicas e crítica social.
Escreveu romances e peças de teatro. No entanto, foi com os contos que se notabilizou, sendo considerado a par de Tchekov como um dos melhores contistas de todos os tempos.
Era um homem solitário, nutrindo alguma aversão à sociedade. Viajava bastante e em cada viagem, trazia novas obras.
Dos seus romances destacam-se Bel-Ami e Pierre et Jean, sendo este último considerado por muitos como o seu melhor romance.
Dos 300 contos que escreveu, destacam-se  A Pensão Tellier e O Horla
O medo da morte atormentava-o, veio a falecer no manicómio, pouco antes de completar os 43 anos de idade, após tentativa de suicídio, provocado por perturbações mentais causadas pela sífilis que o atormentou por uma década.

O livro Contos do Insólito é uma coletânea de 21 contos que têm em comum o fantástico e o sobrenatural.
Não podemos esquecer que são escritos, no século XIX, quando se começa a falar em magnetismo, hipnotismo e a sua ligação aos fatores psíquicos e ao paranormal. Neles o impossível alia-se ao fantástico, criando situações insólitas em que o factor surpresa é uma constante.
Escritos num tom muito pessoal, em que o autor cria um elo muito forte com as personagens, sendo em muitos casos o próprio protagonista da história que desenvolve, o amigo próximo ou mesmo o médico que o assiste.
A linguagem intimista cativa-nos e leva-nos a percorrer este mundo insólito e perturbador, conto após conto, identificando-nos, de uma forma emotiva, com as relações de amor, ódio, perseguição ou mesmo com a presença da morte.
Não vou fazer uma análise detalhada dos contos, uma vez que são pequenos e acabaria por lhes retirar o factor surpresa que atinge o leitor de rompão ao iniciar a sua leitura.
Apenas refiro que a escrita é viciante, para quem gostar do género, e que rapidamente nos damos conta que o livro chegou ao fim e o mistério fica no ar.
Gostei muito e recomendo a quem gostar do género 


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Perguntas-me? de Manuel Alves


"É o que te digo, ar, sorriu a rapariga. Um sorriso é fácil de imaginar. Um traço com curva e duas ou três pintinhas. Tolices cá minhas.

O ar beijou o rosto da raparia com um sopro. Ela sorriu e baixou o rosto, como se tivesse acabado de conhecer o primeiro amor da sua vida. O ar fê-la corar. O ar sabia-lhe os pensamentos. E, em alguns deles, havia muito descaramento.

 Sabes, ar, gosto de te escolher para conversar, disse a rapariga. Ouves sem esperar pela tua vez de falar. Dás tempo de sorrir. De imaginar. E o que é mesmo bom é que não tenho de te pedir para ficar.

A rapariga encheu mais um balão de pensamento e deixou-se estar, encostada à folha de papel-parede, a sorrir com toda a vontade que se pode imaginar."

 Manuel Alves – Perguntas-me?

 
Uma obra composta por 46 pequenos textos, dos quais alguns poemas. Todos eles são questões ilustradas com aguarelas, desenhos do próprio autor. Inicialmente comecei a “folhear” algumas páginas e deparei-me com algo que não esperava (não sei porquê, uma vez que o autor me era completamente desconhecido e não deveria de haver nada a esperar…).
Estes pequenos textos são todos eles questões, com que o autor nos presenteia de uma forma sublime. Sentimentos de amizade, amor, ódio, raiva ou mesmo de uma leve indiferença sentida no seu íntimo, que nos transportam para o seu mundo, numa mistura de cores e sentidos. É impossível ficar indiferente perante as suas palavras.
Estas são escritas como se de pensamentos se tratassem, mas com um ritmo poético. Basicamente, palavras simples que questionam, somente por questionar, sem esperar respostas, num ritmo envolvente e poético, muito doce e amargo por vezes.
Este livro encontra-se disponível em:
 







sábado, 13 de abril de 2013

A Oeste do Éden de Harry Harrison



Sinopse

«Quando os dinossauros governavam a Terra...». Pois A Oeste do Éden ainda governam. 

A catástrofe cósmica que os exterminou há 65 milhões de anos nunca chegou a acontecer. O grande cometa nunca caiu, nunca chegou a provocar aquilo a que, no nosso universo, Carl Sagan chamaria Inverno Nuclear. A permanência de condições climatéricas indefinidamente estáveis permitiu que os grandes répteis continuassem a evoluir, com o cérebro sempre a aumentar, o polegar a tornar-se oponível, até culminarem nas Yilanè, a raça sauróide mais inteligente da Terra. A sua complexa civilização, baseada em sofisticadas técnicas de engenharia genética, transformou se num milagre de estabilidade social e integração ecológica. Fez surgir cidades «orgânicas» por toda a África, Europa e Ásia. Modificou todos os ecossistemas à sua imagem e semelhança. 

Subitamente, pressões climatéricas, o advento de uma microidade glaciar, fazem diminuir radicalmente os recursos energéticos e alimentares. Sob a ameaça do extermínio total da sua civilização, as Yilanè são forçadas a explorar o que designamos por oceano Atlântico e a colonizar o Novo Mundo. 

E ali, nas costas da Florida, dominando o topo de um ecossistema incompreensível, encontram uma espécie desconhecida de mamíferos inteligentes, agressivos, selvagens. Mamíferos que se deslocam erectos, assentes nos dois membros posteriores, que possuem o dom da palavra e se servem de utensílios rudimentares de pedra. Mamíferos que odeiam instintivamente toda e qualquer yilanè. Um ódio que é recíproco...


Quando peguei neste livro, para o começar a ler, confesso que tinha alguma expectativa e curiosidade. No entanto, nada previa que se tornasse num dos livros mais fantásticos que li nos últimos tempos. 

Resumidamente pode-se dizer que “A Oeste do Éden” conta-nos a história de um rapaz, Kerrick, pertencente a uma tribo de nómadas e que vê o seu sammad (grupo de pessoas que vivem em comunidade) ser totalmente destruído por uma raça desconhecida e que fazem dele seu prisioneiro, aos 8 anos de idade. Desta forma, Kerrick, conhece as Yilanè e a sua sociedade altamente desenvolvida. Com a curiosidade que lhe é característica ele aprende a linguagem, costumes e a organização da cidade onde vive por uns 7 anos. Quando reencontra o seu povo fica dividido, sentindo-se que não pertence nem a um nem a outro. Ele não é mais o mesmo, mas o ódio pelas Yilanè vence, levando-o a vingar a destruição de vários sammad e a respectiva morte dos seus membros, até á destruição da cidade onde cresceu. 

Este livro, tem tanto conteúdo que me agradou, que é difícil, conseguir transmitir-vos tudo o que dele retive. 

Por um lado, o realismo antropológico e a descrição das primeiras sociedades humanas no tempo da idade da Pedra. A descoberta do fogo e todo o seu potencial, á passagem das tribos nómadas ao sedentarismo, as primeiras comunidades/cidades destes povos, a descoberta da agricultura, a arte rupestre e o próprio aperfeiçoamento dos utensílios e armas de caça e ou guerra. 

Por outro lado a sociedade muitíssimo desenvolvida das Yilanè que dominam magistralmente vários campos da biologia e outras ciências. Povo descendente dos dinossauros  cuja evolução permitiu um conjunto de modificações genéticas, nomeadamente o desenvolvimento de polegares oponíveis. Por forma a combater a escassez de alimentos e a defenderem dos predadores os animais destinados à alimentação, criaram cidades com barreiras biológicas para o exterior. As transformações genéticas e a biotecnologia utilizadas no desenvolvimento das cidades onde vivem, são magistralmente criadas pelo autor. 

Ainda a ambiguidade dos sentimentos em Kerrick, que se sente preso a um povo, o seu, mas que ao mesmo tempo se sente deslumbrado pela evolução e conforto que o mundo das Yilanè lhe proporcionam. A sua crescente vontade de evoluir face ao conhecimento que aprendeu com as suas sequestradoras em oposição ao seu povo de caçadores-recolectores. 

A zoologia incrível que o autor cria e apresenta num conjunto de seres, em que alguns mais reais são antepassados dos existentes nos nossos dias, mas outros que são mutações genéticas oriundas do desenvolvimento das Yilanè e que servem para a sua subsistência. 

A riqueza da narrativa aliada ao realismo das personagens, transformam este livro numa obra verdadeiramente fantástica. 

Um livro que junta todos estes factores de que falei anteriormente e que se revelou, na minha opinião, verdadeiramente espantoso. 

Livro a não perder. Aconselho vivamente.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Contos DN - fase 2

Mais um conjunto de contos que li e sobre os quais dou a minha opinião


David Machado – Acho que posso ajudar

Sinopse:"Acho que posso ajudar" é a história de uma menina que acredita estar ao seu alcance resolver os problema de qualquer pessoa, monstro ou bruxa no mundo. Mas ela não sabe que cada gesto seu pode provocar uma cadeia de acontecimentos que deixará tudo pior do que estava.
Conto infantil, bastante engraçado, que nos conta a história de uma menina de oito anos que resolve ajudar a sua avó. No entanto a resolução do problema desencadeia outro que faz com que uma série de acontecimentos surjam. A menina querendo ajudar acaba por fazer com que os seus problemas deixem de existir, mas criando outros que alteram o rumo normal da vida no local onde mora.
A escrita é muito fluida e agradável. Gostei muito
                                      Nota: 4/5


Rui Zink – Um romance

Sinopse: Anos 80. O narrador improvável. Um restaurante ao lado de uma sala de cinema. Ele, Artur. Ela, Carolina. Cannelloni e lasagna. Romance anunciado? Já agora, também a vida.

Um conto, cuja história é perfeitamente banal, sem nada a acrescentar de novo ou de entusiasmante.  Uma história de amor que começa mal e termina igualmente mal, pois os preconceitos gritam mais alto. No entanto gostei  da escrita, da forma como o escritor se dirige ao leitor, de uma forma directa, contando, como quem fala com um amigo, o desfecho de uma história de amor, num jantar romântico, a que ele assistiu num restaurante enquanto aguardava  a chegada do Aristides.
Nota: 3,5/5


Dulce Maria Cardoso – Coisas que acarinho e me morrem entre os dedos
Sinopse: Uma mulher tem um encontro marcado com um desconhecido. O desconhecido tem sempre tanto de sedutor quanto de ameaçador. Que fazer? A mulher demora-se, frente ao computador. Atrasa-se. Talvez se afunde nos abismos que um psicólogo garantiu existirem no seu interior. Talvez se perca no outro lado do mundo, em Bangladesh, onde nunca faz frio. Ou talvez, ainda, se entregue nos braços de Machina ex Deus.

Uma história que nos fala sobre o conhecimento do Outro, sobre o que perdemos ao longo da vida: pessoas, bens, países, entre outras coisas. Uma escrita confusa, com demasiados recursos a informação da net, num texto desta dimensão, e que em nada contribui para a sua melhoria. Não gostei.
Nota: 1/5

Gonçalo M. Tavares – A moeda

Sinopse: Kartopeck, homem rude, avesso à cidade, vê o seu rosto desfigurado por manchas enigmáticas que lhe causam um enorme desconforto. Pensa que vai morrer. A prostituta que lhe vende os serviços conta-lhe as moedas, mas também as manchas. E ri-se.

Um homem cujo rosto se vai desfigurando, para além do admissível socialmente, acreditando que lhe resta pouco tempo de vida, vê-se confrontado com a noticia de que se encontra de perfeita saúde, sendo o seu problema apenas um factor externo ao organismo. Pouco habituado aos costumes da cidade, encontra-se desenquadrado e irritado consigo próprio por não conseguir integrar-se neste meio.
A escrita é fluida e bem delineada, mas a história não apresenta nada de novo, um pouco sem interesse.
Nota: 2/5


João Tordo – A cidade liquida


Sinopse : O conto Cidade Líquida recupera as personagens de um outro conto do autor, Águas Passadas, que decorre em Veneza. Agora em Lisboa, as mesmas personagens - o narrador e Roque dos Santos, um realizador de cinema - tornam a encontrar-se.

Um conto estranho que fala de um relacionamento que termina, de um realizador e do seu filme e dos sentimentos que assolam um professor de filosofia. Essencialmente, fala-nos de enganos e de aparências. Nem tudo o que parece existe na realidade, as pessoas não são aquilo que aparentam ser e no fundo tudo funciona como numa tela de cinema, a multidão não significa nada e no final o sentimento de solidão persiste. Esta é a mensagem que tirei deste conto, não sei se corresponde ao que o autor quis transmitir. No entanto, há várias incoerências no conto, nomeadamente água furtadas com vizinhos por cima.
Gostei bastante da escrita, muito embora a história seja uma mistura de situações que já referi e que não cativa. A nota atribuída é exclusivamente pela escrita.
Nota :  3/5