Sinopse
«Quando os dinossauros governavam a Terra...». Pois A Oeste do Éden ainda governam.
A catástrofe cósmica que os exterminou há 65 milhões de anos nunca chegou a acontecer. O grande cometa nunca caiu, nunca chegou a provocar aquilo a que, no nosso universo, Carl Sagan chamaria Inverno Nuclear. A permanência de condições climatéricas indefinidamente estáveis permitiu que os grandes répteis continuassem a evoluir, com o cérebro sempre a aumentar, o polegar a tornar-se oponível, até culminarem nas Yilanè, a raça sauróide mais inteligente da Terra. A sua complexa civilização, baseada em sofisticadas técnicas de engenharia genética, transformou se num milagre de estabilidade social e integração ecológica. Fez surgir cidades «orgânicas» por toda a África, Europa e Ásia. Modificou todos os ecossistemas à sua imagem e semelhança.
Subitamente, pressões climatéricas, o advento de uma microidade glaciar, fazem diminuir radicalmente os recursos energéticos e alimentares. Sob a ameaça do extermínio total da sua civilização, as Yilanè são forçadas a explorar o que designamos por oceano Atlântico e a colonizar o Novo Mundo.
E ali, nas costas da Florida, dominando o topo de um ecossistema incompreensível, encontram uma espécie desconhecida de mamíferos inteligentes, agressivos, selvagens. Mamíferos que se deslocam erectos, assentes nos dois membros posteriores, que possuem o dom da palavra e se servem de utensílios rudimentares de pedra. Mamíferos que odeiam instintivamente toda e qualquer yilanè. Um ódio que é recíproco...
Quando peguei neste livro, para o começar a ler, confesso que tinha alguma expectativa e curiosidade. No entanto, nada previa que se tornasse num dos livros mais fantásticos que li nos últimos tempos.
Resumidamente pode-se dizer que “A Oeste do Éden” conta-nos a história de um rapaz, Kerrick, pertencente a uma tribo de nómadas e que vê o seu sammad (grupo de pessoas que vivem em comunidade) ser totalmente destruído por uma raça desconhecida e que fazem dele seu prisioneiro, aos 8 anos de idade. Desta forma, Kerrick, conhece as Yilanè e a sua sociedade altamente desenvolvida. Com a curiosidade que lhe é característica ele aprende a linguagem, costumes e a organização da cidade onde vive por uns 7 anos. Quando reencontra o seu povo fica dividido, sentindo-se que não pertence nem a um nem a outro. Ele não é mais o mesmo, mas o ódio pelas Yilanè vence, levando-o a vingar a destruição de vários sammad e a respectiva morte dos seus membros, até á destruição da cidade onde cresceu.
Este livro, tem tanto conteúdo que me agradou, que é difícil, conseguir transmitir-vos tudo o que dele retive.
Por um lado, o realismo antropológico e a descrição das primeiras sociedades humanas no tempo da idade da Pedra. A descoberta do fogo e todo o seu potencial, á passagem das tribos nómadas ao sedentarismo, as primeiras comunidades/cidades destes povos, a descoberta da agricultura, a arte rupestre e o próprio aperfeiçoamento dos utensílios e armas de caça e ou guerra.
Por outro lado a sociedade muitíssimo desenvolvida das Yilanè que dominam magistralmente vários campos da biologia e outras ciências. Povo descendente dos dinossauros cuja evolução permitiu um conjunto de modificações genéticas, nomeadamente o desenvolvimento de polegares oponíveis. Por forma a combater a escassez de alimentos e a defenderem dos predadores os animais destinados à alimentação, criaram cidades com barreiras biológicas para o exterior. As transformações genéticas e a biotecnologia utilizadas no desenvolvimento das cidades onde vivem, são magistralmente criadas pelo autor.
Ainda a ambiguidade dos sentimentos em Kerrick, que se sente preso a um povo, o seu, mas que ao mesmo tempo se sente deslumbrado pela evolução e conforto que o mundo das Yilanè lhe proporcionam. A sua crescente vontade de evoluir face ao conhecimento que aprendeu com as suas sequestradoras em oposição ao seu povo de caçadores-recolectores.
A zoologia incrível que o autor cria e apresenta num conjunto de seres, em que alguns mais reais são antepassados dos existentes nos nossos dias, mas outros que são mutações genéticas oriundas do desenvolvimento das Yilanè e que servem para a sua subsistência.
A riqueza da narrativa aliada ao realismo das personagens, transformam este livro numa obra verdadeiramente fantástica.
Um livro que junta todos estes factores de que falei anteriormente e que se revelou, na minha opinião, verdadeiramente espantoso.
Livro a não perder. Aconselho vivamente.