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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Urbania de Carlos Silva




Sinopse :
Que influência terá sobre Lisboa a cidade em movimento, onde os sonhos e a lucidez se vendem como um mero produto? As duas cidades estão em rota de colisão e Hugo sabe que é a única oportunidade de alguma vez conseguir passar de uma para a outra, mas para isso terá de compreender o que os Lobos lhe dizem. Um romance sobre ciclos que se cruzam e entrecruzam, onde a única constante é a mudança


Carlos Silva é um jovem autor português que começa a divulgar a sua obra e que tive o prazer de ler o seu livro “Urbania” numa leitura conjunta.
Urbania é um livro composto por sete capítulos que funcionam quase como contos interligados entre si.
Inicialmente o livro deixa-nos meio confusos, ou melhor a mim deixou-me. São-nos apresentados o Ricardo e a Laura, a noite de Lisboa e os lobos, que não se entende muito bem, inicialmente, quem são e qual o seu papel. Surge um livro preto, ou melhor um caderno preto, peça fundamental no destino dos lobos, em que cada um tem de copiar e interiorizar o seu conteúdo.
Em seguida, no capítulo seguinte, deparamo-nos com o Hugo Maltês e a semiotologia. A história começa aqui a desenhar-se muito mais claramente e a deixar-nos com um laivo de entusiasmo crescente. Somos espicaçados, pela mudança e pela necessidade de mudança.
A temática das cidades paralelas que se cruzam algures num espaço, a chave, os lobos e a mudança face a uma rotina constante começam a ser as peças fundamentais deste puzzle que o Carlos Silva criou.
Surgem novas personagens, o professor Castilho e a Inês. Novamente os lobos, onde se começa a ver a ligação fundamental numa cidade estática com uma cidade em constante mudança, Urbania, a cidade móvel paralela
A procura da chave, simbolicamente a chave pode significar abertura, iniciação. Aqui será também esse o significado, certamente. A chave que é entregue a Hugo Maltês, abre-lhe uma nova dimensão da vida.
Urbania surge como a cidade colorida, despretensiosa, habituada a um ritmo que de repente é alterado e que cria o pânico entre os seus governantes. Novo capitulo, novas personagens e duas facetas nesta história, para mim fantásticas: o prédio vivo e o caçador de sonhos ( a minha personagem favorita). A estrutura de mudança de Urbania está genial e a dicotomia de incerteza : é o nevoeiro que engole Urbania ou é Urbania que foge do nevoeiro? Se de facto o nevoeiro avança sobre a cidade, como existem prédios vivos que acompanham a deslocação da mesma?
A memória, outro aspecto fundamental numa cidade em constante mudança. O registo das mesmas, o arquivista reformado, outra vertente que não falta neste mundo em mudança.
As várias personagens começam a interligar-se, criando como que uma teia que se estende de uma cidade a outra, infiltrando-se mesmo pelo nevoeiro com o surgimento do povo das brumas.
Os acontecimentos finais surgem a um ritmo rápido e o desenlace final cai de rompante, muito forte, deixando-me de certa forma meia atordoada.
Um livro muito interessante, cuja história nos vai prendendo a cada página que se vai desfolhando, passo a passo até ao auge onde tudo termina repentinamente.
No entanto, tenho de referir alguns aspectos que penso que deverão ser corrigidos.
Como já tive oportunidade de referir ao autor, no âmbito da leitura conjunta, surgem alguns erros ortográficos, em que alguns serão lapsos, mas outros talvez não. Nada que não aconteça a qualquer um que escreva, deve-se talvez pedir a mais do que uma pessoa para fazer uma revisão, por forma a evitar deixar passar algo a que os nossos olhos já se habituaram.
Na minha opinião, e esta é logicamente baseada no meu gosto pessoal, o ritmo do livro não é constante. Ou seja, o ritmo vai-se acentuando consoante o desenrolar da história, no entanto se inicialmente pouco acontece, existem algumas descrições mais detalhadas e mais pormenorizadas, no final o ritmo é muito intenso e tudo acontece rapidamente, parece que tem de terminar de imediato.
Resumidamente, poderei afirmar que a história e o tema são muito bons e estão muito bem desenvolvidos, no entanto em termos de escrita penso que o autor precisa de “amadurecer” um pouco mais.
Mas é com certeza um escritor com potencial, e com ideias fantásticas que deve explorar e transmiti-las em formas de contos e livros. Quanto mais escrever, na minha opinião mais aperfeiçoará a sua técnica, e os resultados serão melhores.
É, para finalizar, uma leitura agradável que recomendo tanto mais pela ideia genial da sua história.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Contos do Insólito de Guy de Maupassant



“Meu Deus! Meu Deus! Vou portanto escrever, enfim, o que me aconteceu! Mas poderei fazê-lo? Atrever-me-ei? Isto é tão estranho, tão inexplicável, tão incompreensível, tão louco!

Se não tivesse a certeza do que vi, a certeza de que não existiu nos meus raciocínios, nenhum desfalecimento, nenhum erro nas minhas comprovações, nenhuma lacuna na série inflexível das minhas observações, julgar-me-ia um simples alucinado, o joguete de uma estranha visão.
 Afinal, quem sabe?
Encontro-me hoje numa casa de saúde; mas entrei voluntariamente por prudência, por medo.
Um único ser conhece a minha história. O médico daqui. Vou escrever-lhe. Não sei lá muito bem porquê. Para me desembaraçar disto, porque o sinto dentro de mim como um intolerável pesadelo.”


Guy de Maupassant (1850 – 1893), foi um escritor francês que se debruçou fortemente sobre situações psicológicas e crítica social.
Escreveu romances e peças de teatro. No entanto, foi com os contos que se notabilizou, sendo considerado a par de Tchekov como um dos melhores contistas de todos os tempos.
Era um homem solitário, nutrindo alguma aversão à sociedade. Viajava bastante e em cada viagem, trazia novas obras.
Dos seus romances destacam-se Bel-Ami e Pierre et Jean, sendo este último considerado por muitos como o seu melhor romance.
Dos 300 contos que escreveu, destacam-se  A Pensão Tellier e O Horla
O medo da morte atormentava-o, veio a falecer no manicómio, pouco antes de completar os 43 anos de idade, após tentativa de suicídio, provocado por perturbações mentais causadas pela sífilis que o atormentou por uma década.

O livro Contos do Insólito é uma coletânea de 21 contos que têm em comum o fantástico e o sobrenatural.
Não podemos esquecer que são escritos, no século XIX, quando se começa a falar em magnetismo, hipnotismo e a sua ligação aos fatores psíquicos e ao paranormal. Neles o impossível alia-se ao fantástico, criando situações insólitas em que o factor surpresa é uma constante.
Escritos num tom muito pessoal, em que o autor cria um elo muito forte com as personagens, sendo em muitos casos o próprio protagonista da história que desenvolve, o amigo próximo ou mesmo o médico que o assiste.
A linguagem intimista cativa-nos e leva-nos a percorrer este mundo insólito e perturbador, conto após conto, identificando-nos, de uma forma emotiva, com as relações de amor, ódio, perseguição ou mesmo com a presença da morte.
Não vou fazer uma análise detalhada dos contos, uma vez que são pequenos e acabaria por lhes retirar o factor surpresa que atinge o leitor de rompão ao iniciar a sua leitura.
Apenas refiro que a escrita é viciante, para quem gostar do género, e que rapidamente nos damos conta que o livro chegou ao fim e o mistério fica no ar.
Gostei muito e recomendo a quem gostar do género 


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Perguntas-me? de Manuel Alves


"É o que te digo, ar, sorriu a rapariga. Um sorriso é fácil de imaginar. Um traço com curva e duas ou três pintinhas. Tolices cá minhas.

O ar beijou o rosto da raparia com um sopro. Ela sorriu e baixou o rosto, como se tivesse acabado de conhecer o primeiro amor da sua vida. O ar fê-la corar. O ar sabia-lhe os pensamentos. E, em alguns deles, havia muito descaramento.

 Sabes, ar, gosto de te escolher para conversar, disse a rapariga. Ouves sem esperar pela tua vez de falar. Dás tempo de sorrir. De imaginar. E o que é mesmo bom é que não tenho de te pedir para ficar.

A rapariga encheu mais um balão de pensamento e deixou-se estar, encostada à folha de papel-parede, a sorrir com toda a vontade que se pode imaginar."

 Manuel Alves – Perguntas-me?

 
Uma obra composta por 46 pequenos textos, dos quais alguns poemas. Todos eles são questões ilustradas com aguarelas, desenhos do próprio autor. Inicialmente comecei a “folhear” algumas páginas e deparei-me com algo que não esperava (não sei porquê, uma vez que o autor me era completamente desconhecido e não deveria de haver nada a esperar…).
Estes pequenos textos são todos eles questões, com que o autor nos presenteia de uma forma sublime. Sentimentos de amizade, amor, ódio, raiva ou mesmo de uma leve indiferença sentida no seu íntimo, que nos transportam para o seu mundo, numa mistura de cores e sentidos. É impossível ficar indiferente perante as suas palavras.
Estas são escritas como se de pensamentos se tratassem, mas com um ritmo poético. Basicamente, palavras simples que questionam, somente por questionar, sem esperar respostas, num ritmo envolvente e poético, muito doce e amargo por vezes.
Este livro encontra-se disponível em:
 







sábado, 13 de abril de 2013

A Oeste do Éden de Harry Harrison



Sinopse

«Quando os dinossauros governavam a Terra...». Pois A Oeste do Éden ainda governam. 

A catástrofe cósmica que os exterminou há 65 milhões de anos nunca chegou a acontecer. O grande cometa nunca caiu, nunca chegou a provocar aquilo a que, no nosso universo, Carl Sagan chamaria Inverno Nuclear. A permanência de condições climatéricas indefinidamente estáveis permitiu que os grandes répteis continuassem a evoluir, com o cérebro sempre a aumentar, o polegar a tornar-se oponível, até culminarem nas Yilanè, a raça sauróide mais inteligente da Terra. A sua complexa civilização, baseada em sofisticadas técnicas de engenharia genética, transformou se num milagre de estabilidade social e integração ecológica. Fez surgir cidades «orgânicas» por toda a África, Europa e Ásia. Modificou todos os ecossistemas à sua imagem e semelhança. 

Subitamente, pressões climatéricas, o advento de uma microidade glaciar, fazem diminuir radicalmente os recursos energéticos e alimentares. Sob a ameaça do extermínio total da sua civilização, as Yilanè são forçadas a explorar o que designamos por oceano Atlântico e a colonizar o Novo Mundo. 

E ali, nas costas da Florida, dominando o topo de um ecossistema incompreensível, encontram uma espécie desconhecida de mamíferos inteligentes, agressivos, selvagens. Mamíferos que se deslocam erectos, assentes nos dois membros posteriores, que possuem o dom da palavra e se servem de utensílios rudimentares de pedra. Mamíferos que odeiam instintivamente toda e qualquer yilanè. Um ódio que é recíproco...


Quando peguei neste livro, para o começar a ler, confesso que tinha alguma expectativa e curiosidade. No entanto, nada previa que se tornasse num dos livros mais fantásticos que li nos últimos tempos. 

Resumidamente pode-se dizer que “A Oeste do Éden” conta-nos a história de um rapaz, Kerrick, pertencente a uma tribo de nómadas e que vê o seu sammad (grupo de pessoas que vivem em comunidade) ser totalmente destruído por uma raça desconhecida e que fazem dele seu prisioneiro, aos 8 anos de idade. Desta forma, Kerrick, conhece as Yilanè e a sua sociedade altamente desenvolvida. Com a curiosidade que lhe é característica ele aprende a linguagem, costumes e a organização da cidade onde vive por uns 7 anos. Quando reencontra o seu povo fica dividido, sentindo-se que não pertence nem a um nem a outro. Ele não é mais o mesmo, mas o ódio pelas Yilanè vence, levando-o a vingar a destruição de vários sammad e a respectiva morte dos seus membros, até á destruição da cidade onde cresceu. 

Este livro, tem tanto conteúdo que me agradou, que é difícil, conseguir transmitir-vos tudo o que dele retive. 

Por um lado, o realismo antropológico e a descrição das primeiras sociedades humanas no tempo da idade da Pedra. A descoberta do fogo e todo o seu potencial, á passagem das tribos nómadas ao sedentarismo, as primeiras comunidades/cidades destes povos, a descoberta da agricultura, a arte rupestre e o próprio aperfeiçoamento dos utensílios e armas de caça e ou guerra. 

Por outro lado a sociedade muitíssimo desenvolvida das Yilanè que dominam magistralmente vários campos da biologia e outras ciências. Povo descendente dos dinossauros  cuja evolução permitiu um conjunto de modificações genéticas, nomeadamente o desenvolvimento de polegares oponíveis. Por forma a combater a escassez de alimentos e a defenderem dos predadores os animais destinados à alimentação, criaram cidades com barreiras biológicas para o exterior. As transformações genéticas e a biotecnologia utilizadas no desenvolvimento das cidades onde vivem, são magistralmente criadas pelo autor. 

Ainda a ambiguidade dos sentimentos em Kerrick, que se sente preso a um povo, o seu, mas que ao mesmo tempo se sente deslumbrado pela evolução e conforto que o mundo das Yilanè lhe proporcionam. A sua crescente vontade de evoluir face ao conhecimento que aprendeu com as suas sequestradoras em oposição ao seu povo de caçadores-recolectores. 

A zoologia incrível que o autor cria e apresenta num conjunto de seres, em que alguns mais reais são antepassados dos existentes nos nossos dias, mas outros que são mutações genéticas oriundas do desenvolvimento das Yilanè e que servem para a sua subsistência. 

A riqueza da narrativa aliada ao realismo das personagens, transformam este livro numa obra verdadeiramente fantástica. 

Um livro que junta todos estes factores de que falei anteriormente e que se revelou, na minha opinião, verdadeiramente espantoso. 

Livro a não perder. Aconselho vivamente.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Contos DN - fase 2

Mais um conjunto de contos que li e sobre os quais dou a minha opinião


David Machado – Acho que posso ajudar

Sinopse:"Acho que posso ajudar" é a história de uma menina que acredita estar ao seu alcance resolver os problema de qualquer pessoa, monstro ou bruxa no mundo. Mas ela não sabe que cada gesto seu pode provocar uma cadeia de acontecimentos que deixará tudo pior do que estava.
Conto infantil, bastante engraçado, que nos conta a história de uma menina de oito anos que resolve ajudar a sua avó. No entanto a resolução do problema desencadeia outro que faz com que uma série de acontecimentos surjam. A menina querendo ajudar acaba por fazer com que os seus problemas deixem de existir, mas criando outros que alteram o rumo normal da vida no local onde mora.
A escrita é muito fluida e agradável. Gostei muito
                                      Nota: 4/5


Rui Zink – Um romance

Sinopse: Anos 80. O narrador improvável. Um restaurante ao lado de uma sala de cinema. Ele, Artur. Ela, Carolina. Cannelloni e lasagna. Romance anunciado? Já agora, também a vida.

Um conto, cuja história é perfeitamente banal, sem nada a acrescentar de novo ou de entusiasmante.  Uma história de amor que começa mal e termina igualmente mal, pois os preconceitos gritam mais alto. No entanto gostei  da escrita, da forma como o escritor se dirige ao leitor, de uma forma directa, contando, como quem fala com um amigo, o desfecho de uma história de amor, num jantar romântico, a que ele assistiu num restaurante enquanto aguardava  a chegada do Aristides.
Nota: 3,5/5


Dulce Maria Cardoso – Coisas que acarinho e me morrem entre os dedos
Sinopse: Uma mulher tem um encontro marcado com um desconhecido. O desconhecido tem sempre tanto de sedutor quanto de ameaçador. Que fazer? A mulher demora-se, frente ao computador. Atrasa-se. Talvez se afunde nos abismos que um psicólogo garantiu existirem no seu interior. Talvez se perca no outro lado do mundo, em Bangladesh, onde nunca faz frio. Ou talvez, ainda, se entregue nos braços de Machina ex Deus.

Uma história que nos fala sobre o conhecimento do Outro, sobre o que perdemos ao longo da vida: pessoas, bens, países, entre outras coisas. Uma escrita confusa, com demasiados recursos a informação da net, num texto desta dimensão, e que em nada contribui para a sua melhoria. Não gostei.
Nota: 1/5

Gonçalo M. Tavares – A moeda

Sinopse: Kartopeck, homem rude, avesso à cidade, vê o seu rosto desfigurado por manchas enigmáticas que lhe causam um enorme desconforto. Pensa que vai morrer. A prostituta que lhe vende os serviços conta-lhe as moedas, mas também as manchas. E ri-se.

Um homem cujo rosto se vai desfigurando, para além do admissível socialmente, acreditando que lhe resta pouco tempo de vida, vê-se confrontado com a noticia de que se encontra de perfeita saúde, sendo o seu problema apenas um factor externo ao organismo. Pouco habituado aos costumes da cidade, encontra-se desenquadrado e irritado consigo próprio por não conseguir integrar-se neste meio.
A escrita é fluida e bem delineada, mas a história não apresenta nada de novo, um pouco sem interesse.
Nota: 2/5


João Tordo – A cidade liquida


Sinopse : O conto Cidade Líquida recupera as personagens de um outro conto do autor, Águas Passadas, que decorre em Veneza. Agora em Lisboa, as mesmas personagens - o narrador e Roque dos Santos, um realizador de cinema - tornam a encontrar-se.

Um conto estranho que fala de um relacionamento que termina, de um realizador e do seu filme e dos sentimentos que assolam um professor de filosofia. Essencialmente, fala-nos de enganos e de aparências. Nem tudo o que parece existe na realidade, as pessoas não são aquilo que aparentam ser e no fundo tudo funciona como numa tela de cinema, a multidão não significa nada e no final o sentimento de solidão persiste. Esta é a mensagem que tirei deste conto, não sei se corresponde ao que o autor quis transmitir. No entanto, há várias incoerências no conto, nomeadamente água furtadas com vizinhos por cima.
Gostei bastante da escrita, muito embora a história seja uma mistura de situações que já referi e que não cativa. A nota atribuída é exclusivamente pela escrita.
Nota :  3/5


domingo, 10 de março de 2013

Contos DN – Fase 1

Encontram-se disponíveis em formato digital no site do Diário de Noticias (DN) vários contos de autores portugueses em formato digital gratuitos, basta apenas registar-se e fazer o respectivo download. 
Apresento a minha opinião sobre aqueles que vou lendo. Esta primeira fase contempla um grupo de cinco contos .

 Afonso Cruz – A queda de um anjo


Sinopse: Uma octogenária descontente com o Paraíso, pois não tem junto a si a pessoa que mais ama, decide viajar para o Inferno. Para ela, o Paraíso pode ser infernal e, ao contrário, o Inferno poderá ser uma fonte de felicidade.

Primeira obra que leio deste autor e gostei muito. A escrita simples e cuidada, transmite-nos as sensações, as emoções da personagem, levando-nos a criar um elo de ligação com ela.

A descida ao Inferno através de sete patamares, á procura da pessoa que ama e da qual não quer estar separada, é vivida através de recordações do tempo em que a vida era sempre a dois, coisas simples e banais são recordadas com carinho e emoção. O autor consegue levar-nos a percorrer estas etapas criando uma empatia com a personagem.

Um texto divertido desde  o sétimo andar até ao r/c terminando de uma forma inesperada e que nos leva de novo ao sétimo para repensar toda uma vida da personagem.

Recomendo a sua leitura e quanto a mim, vou querer ler sem qualquer dúvida mais obras deste escritor que já me tinha sido recomendado, anteriormente, por um amigo.
Nota:  4,5/5 


João Barreiros – A Mina do Deus Morto


Sinopse : Algures nos anos sessenta do século passado, num universo que não é o nosso, mil metros abaixo das colheitas de volfrâmio nas Minas da Panasqueira realizadas pela companhia Beralt in Wolfram, existem outras minas, secretas, terríveis, brutais, onde se recolhe grão a grão as partículas que provam a existência e a agonia final de Deus: as Minas do Deus Morto.

Uma vez mais, as partículas divinas ou as partículas de Deus surgem como algo demasiadamente ambicionado pelo Homem. Neste conto, elas constituem pequeníssimos resquícios de pó de um Deus que morreu “há vinte e cinco biliões de anos, pela hora do chá”.

Numa Europa globalizada, dominada pela Alemanha, o ser humano vê-se reduzido a ser dominado pela tecnologia que lhe retira todas as suas faculdades mentais, dia após dia, ano após ano. Só quando desce ás profundezas da mina, em contacto indirecto com as partículas divinas, ele recupera as suas faculdades, os seus sonhos, que se vão no momento em que ele regressa á superfície.

Os temas abordados, não são novidades, as partículas de Deus, a  perca de identidade dos pequenos países europeus, transformação tecnológica que nos transforma em robots e  a descida ao abismo para encontrar  de novo a nossa “alma”, os nossos sonhos.  No entanto a escrita, não sendo simples, conseguiu prender-me e levar-me a ler com agrado todo o conto.

O final deixou-me a pensar em quantas vezes, nós passamos a vida a sonhar com algo, mas que completamente absorvidos pela sociedade e pelo progresso, não conseguimos concretiza-lo. Não sei se era essa a intenção do autor, mas foi o que em mim ficou.

Sem ser um conto excelente, é bom e recomendo. Fiquei curiosa em ler mais deste autor.
Nota 3/5



David Soares – No muro


Sinopse : No Muro é um conto que reflete sobre a finitude do conhecimento, através de um não-leitor que herda a coleção de livros do pai. Encontramo-nos quando achamos livros e perdemo-nos quando os esquecemos.

Nunca tinha lido nada deste autor, apesar de já ter ouvido falar bastante dele. Com este conto não fiquei com vontade de ler outras obras dele.

Uma escrita demasiadamente complicada, utilizando palavras completamente desconhecidas para a grande maioria dos leitores que acabam por criar obstáculos á continuidade da história.

Para mim um escritor deve criar um elo com um leitor, deve escrever de forma a cativar e a aproximar-se do publico que procura nas suas obras uma história que o prenda e que o faça integrar-se nos seus meandros. Neste conto isso não acontece, na minha opinião, o leitor perde-se  na linguagem, procura avançar para tropeçar logo em seguida novamente.

A história que tem um bom início, o encontro da biblioteca do pai, se bem que por um motivo mais materialista, acaba por cativar o filho a conhecer o mundo dos livros, as suas histórias, a conhecer também um pouco mais  do seu pai. Ler e perceber o valor que ali tem, leva-o no entanto a tomar uma medida que acaba por contrariar esta sua descoberta. Ou seja esconde os livros de tal forma que nunca mais os poderá folhear, o que para quem descobre o gosto pela leitura, parece-me um pouco estranho.

Ma o que me leva a não gostar deste conto, é mesmo a escrita demasiadamente complexa, sem qualquer necessidade de o ser.
Nota: 2/5


Mário Carvalho – A porrada



Sinopse: Um bom amigo, de estirpes vetustas, fundadoras da Pátria, ou lá perto, contou-me que um fidalgo seu familiar, em certas noites, saía de casa só para a pancadaria.

Conto muito pobre. A história, se é que há história, gira em volta de um casal, da aristocracia portuguesa, em que todas as quintas-feiras, o marido sai de casa para passar um serão entre bebida e pancadaria. Não se entende muito bem o porquê, nem se desenvolve nenhuma ideia no texto.

Esperava mais de um escritor que já conheço e do qual já li várias obras: “Um Deus passeando pela Brisa da Tarde” , “A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho” e “Contos vagabundos”.

Para quem não conhece as obras de Mário Carvalho, espero que não se fique por este conto que não recomendo.
Nota : 2/5


Patrícia Portela  - Monólogo do Oriente


Sinopse: Era um sonho que eu tinha, ir à Escócia com a Elsa, íamos os dois de carro, atravessávamos o canal, apanhávamos um ferry, e depois outro, íamos juntos, a Elsa também tinha uma cena com a Escócia, falávamos os dois inglês, e íamos juntos, no verão, já estava tudo combinado, chegávamos lá no dia 8 de agosto, no dia do meu aniversário (...) mas depois, em maio, a Elsa acabou comigo depois de 12 anos juntos, saiu de casa, disse que estava confusa e que não se conseguia decidir e que por isso se ia embora. Nunca mais a vi.

Uma autora que não conhecia, um conto engraçado e divertido.  É verdadeiramente um monólogo, daqueles em que o nosso pensamento salta sucessivamente de problema em problema, sem parar de ritmo ou sem pausas pelo meio.

Muito real, leva-nos a pensar quantas vezes desejamos algo e que depois os nossos pensamentos nos levam a questionar tudo e acabamos por resolver algo completamente diferente da ideia inicial. A ansiedade, a hesitação, o medo do desconhecido levam a que as ideias se percam, e que os sonhos nunca se concretizem.

A escrita é fluida como é o pensamento, simples e directa. Recomendo.
Nota : 3,8/5


quinta-feira, 7 de março de 2013

O Livro das Lendas – Selma Lagerlöf




Sinopse:
Nos seus livros de contos, onde se inclui O Livro das Lendas, Selma Lagerlöf frequentemente confunde a fronteira entre sonhos e realidade.
Este título publicado originalmente em 1908, é composto pelos seguintes contos: “A Lenda de uma Divida”, “A Rapariga do Brejo Grande”, “A Mina de Prata”, “A Lenda da Rosa do Natal”, “A Marcha nupcial”, ”O Violinista”, “Uma Lenda de Jerusalém”, “Porque durou tanto o Papa” e “O Balão”.



Selma Lagerlöf apresenta neste livro um conjunto de contos escritos de uma forma simples e natural, em que as lendas e o folclore das regiões suecas se misturam com a vida diária das personagens, de uma forma sublime.

São contos agradáveis de ler, escrita fácil mas cuidada que relatam a vida em Vermlândia, província sueca onde Selma Lagerlöf passou a sua infância. As personagens são bem construídas e muito bem enquadradas no meio rural do início do século XX, revelando um misto de crença religiosa que se interliga com as crendices populares de um mundo muito rural.

No entanto, todas as histórias têm por trás algo mágico, um ténue véu que abre as portas ao mundo fantástico, deixando-o entrar de mansinho.“E pensa em todas as velhas narradoras de contos que habitam nas cabanas cinzentas à entrada da floresta e que me contavam tantas histórias do Neck, dos feiticeiros e das virgens roubadas pelo Troll. Foram elas, sem dúvida, que me ensinaram a traduzir a poesia da dura montanha e da floresta escura” (Excerto do conto "A lenda de uma divida")

No prefácio da edição portuguesa (2012), Paulo Arinos refere o seguinte: “ O poder de sedução de Selma Lagerlöf não reside propriamente na descoberta e personalização desses impulsos eternos que escravizam os homens. Está, sim, na sua extraordinária intuição analítica. O homem moderno, na sua dolorosa complexidade, deixou de ser a encarnação específica desta ou daquela tendência. Produto de mil avatares, traz na vida obscura das células todos os compromissos imagináveis com as potências intermédias entre o bem e o mal. Disputado ao mesmo tempo por atavismos contraditórios, toda a sua tortura se resume na eterna oscilação entre os extremos que o solicitam e o tentam. É então que ele reclama a assistência dos espíritos superiores. Selma Lagerlöf, desvendando o mistério das grandes tendências e a cada uma dando uma realidade distinta, vem colocar o Homem diante de si próprio, não já no seu complexo intraduzível, mas nas peças fundamentais que formam o seu carácter  Daí o fascínio com que a grande escritora vem exercendo sobre gerações e gerações.”



domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Conferência dos Pássaros de Farid Ud-Din Attar



Alguns de vós que lêem este comentário, saberão que eu tenho um gosto particular por tudo o que toca a Religiões. Gosto de perceber o que move cada uma, quais os seus princípios e no fim, na minha opinião, é claro, perceber que todas elas têm um caminho comum. 

Sinopse: 


"Poema místico-filosófico do poeta persa Farid ud-Din Attar, composto provavelmente na segunda metade do século XII, “A Conferência dos Pássaros” – cujo título original “Mantp ud-tair” é traduzido indiferentemente por “linguagem”, “conferência”, “fala”, “discurso” ou “parlamento dos pássaro – tem como tema uma assembleia de pássaros que decidem partir à procura de um rei ideal, Simurgh, o Grande Pássaro. 


Nessa alegoria está simbolizada a busca da divindade empreendida pela alma humana. Para guiá-los nessa peregrinação, os pássaros elegem como líder a poupa, que os incentiva a iniciar a longa e difícil viagem, da qual alguns pássaros logo se esquivam, alegando vários pretextos. Depois da desistência dos fracos, os restantes iniciam a jornada e, através de sete vales – os vales da busca, do amor, da compreensão, da independência, da unidade, da perplexidade e do aniquilamento - , conseguem encontrar Simurgh, no qual reconhecem a mais profunda essência de si mesmos. 

Sob essa roupagem exótica, sempre brilhante e profusamente sugestiva, Farid ud-Din Attar escreveu um dos textos poéticos fundamentais do sufismo persa. O Caminho sufi é mostrado aqui em histórias cheias de incidentes, entrelaçadas com rápidas considerações acerca do caracter das pessoase com interessantes vinhetas que ilustram a Pérsia do século XII. 

A tradução inglesa de C.S.Nott, que serve de base para esta edição, segue, na maior parte dos casos, a conhecida tradução francesa de Garcin de Tassy. O texto em português é de Octavio Mendes Cajado."



A Conferência dos Pássaros é uma narrativa poética construída através de simbologias que pretendem ensinar o desenvolvimento de um caminho interior, através dos ensinamentos da tradição Sufi. 

A história, como já foi em parte referido na sinopse, fala-nos da procura de um rei. Os pássaros do mundo reúnem-se na tentativa de eleger um rei, já que todos os povos o têm e estes não. No entanto a Poupa, o mais sábio de todos eles, afirma que eles devem encontrar Simurgh, o Grande Pássaro (também conhecido por Angha). 

Figura da mitologia persa / iraniana, o Simurgh era considerado o purificador da terra e das águas e, consequentemente, concedia a fertilidade. A criatura representava a união entre a terra e o céu, servindo como mediador e mensageiro entre os dois. O Simurgh abrigava-se na Gaokerena, o Hom (avéstico: Haoma), Árvore da Vida, que fica no meio do mundo marítimo Vourukhasa. 

A Poupa surge simbolizando um mestre sufi, que vai indicando o caminho e as provações que vão ter de enfrentar. Os pássaros vão representando, através das suas características, as vicissitudes e falhas da mente humana que impedem o homem de atingir a iluminação. 

Durante o percurso, muitos desistem da meta, pressionados pelas duras privações da viagem 

Esta alegoria contextualiza, nas figuras dos pássaros, o sentido da própria existência e a procura de um conhecimento prático sobre os processos de desenvolvimento do ser humano. Não se procura pregar uma moral, mas sim ensinar uma norma de actuação em determinadas situações que conduzem a uma nova ética perante a vida. 


"A Conferência dos Pássaros",

pintado por Habib Allah. 

A poupa no centro, à direita, instruí
os outros pássaros no caminho sufi.
Attar descreve esta viagem em busca do Simurgh, o rei que seria capaz de estabelecer a ordem e a paz, numa linguagem simples e cativante. Paralelamente ao desenrolar da viagem, o autor conta-nos diversas histórias que reflectem a doutrina sufi de que Deus não é externo ou separado do universo, e sim a totalidade da existência. Os trinta pássaros buscando o Simurgh percebem que o Simurgh nada mais é do que a sua totalidade transcendente. 

Para mim, a leitura desta obra revela-se como mais um passo, no sentido de que todos nós trilhamos um caminho, no qual a nossa procura passa essencialmente por um conhecimento pessoal e pela nossa auto-construção enquanto seres humanos. Na figura dos pássaros que expõem as suas fragilidades ou os seus defeitos, vemos muitas das situações, que ainda hoje atingem o ser humano e contra as quais devemos aprender a lutar. 

Não é um livro que recomende a qualquer um, uma vez que a sua temática é bastante filosófica e transcendental, nem todos certamente apreciam este tipo de literatura. Mas é muito interessante para quem se interesse por estas questões. 




Nota: O Sufismo é uma vertente do Islamismo que promove a meditação e reclusão. O seu nome provém, pensa-se, do grosso manto de lã envergado pelos seus seguidores (a palavra árabe para lã é suf). Os sufis acreditavam que Deus era, acima de tudo, um Deus afectuoso e dedicado com quem o homem poderia alcançar uma unicidade mística, contrastando fortemente com a imagem de um Deus exaltado e inacessível ao qual o homem devia submeter-se (islamismo). O sufismo não é uma tendência organizada e pode-se encontrar sufis quer entre muculmanos xiitas, quer entre os sunitas.







domingo, 3 de fevereiro de 2013

Drácula de Bram Stoker


Após uma leitura conjunta, que me agradou bastante, de um livro lido há muito tempo atrás, deixo-vos o meu comentário:




Bram Stoker um escritor irlandês, que viveu durante grande parte da sua vida em Inglaterra, no inicio do século XX, ficou mundialmente conhecido, até aos dias, pelo seu livro Drácula. 

Este tem sido por vezes colocado na prateleira e evitado por inúmeros leitores, porque não gostam de histórias de terror, no entanto este facto leva a um desconhecimento de uma história que na minha opinião, se encontra muito bem contada e que para além do tema, é um retrato de uma sociedade em plena época vitoriana. 

Não é a toa que alguns críticos consideram Bram Stoker como um habilidoso contador de histórias. 

Resumidamente a história relata-nos a viagem de um jovem advogado inglês que viaja até á Europa Central, Roménia, para negociar a venda de uma propriedade em Inglaterra a um nobre romeno conhecido como Conde Drácula. Rapidamente o jovem percebe que há qualquer coisa de anormal na vida deste seu anfitrião e vê-se encurralado num conjunto de acontecimentos aterrorizantes. Em Inglaterra o Conde chega, após uma viagem estranha e surgem uma série de acontecimentos que marcam de uma forma inesquecível todo um grupo de amigos ao qual, o jovem se encontra ligado pela mulher com quem irá casar. A partir daí toda a história se desenrola na organização de um método que combata e deite por terra, todo o plano maquiavélico deste estranho Conde. 

O livro é escrito em 1897 e não nos podemos esquecer deste facto, uma vez que ele retrata de uma forma bem vincada toda a sociedade da época. 

Durante vários anos, Bram Stoker, pesquisou o folclore europeu e tudo o que havia, na época, sobre Histórias mitológicas de vampiros. Neste livro, o autor cria a figura de um Conde romeno, Drácula que, segundo algumas teorias, seria inspirado no romeno Vlad Dracul, também conhecido por Vlad Tepes o Empalador. 

O autor, constrói a sua obra a partir do relacionamento entre o passado, as suas lendas, o obscuro, o mítico e a realidade do mundo moderno. Isto é, na excelente personagem de Van Helsing, a ciência, ou seja a racionalidade do espírito científico surge aliada ao desvendar de um passado obscuro e pagão. Os diálogos deste personagem são fantásticos, é um profundo conhecedor de medicina, da legislação, bem como da história europeia e da sua mitologia. As transfusões de sangue, as interpretações da mente humana, no doente psiquiátrico que acompanham, Renfield, aliadas ao uso de superstições como o alho e as suas flores e às de caracter religioso como a água benta, crucifixos e hóstias, transformam este personagem numa figura extremamente interessante e que dá vida a toda a obra. 

A sua escrita, através de diários, cartas, telegramas, noticias de jornais, torna-a mais cativante, na minha opinião claro, uma vez que desta forma permiti-nos conhecer de uma forma mais pessoal cada uma das personagens, os seus medos, os seus dramas, as suas reacções face a este estranho Conde que surge nas suas vidas de uma forma obscura e quase que fantasmagórica, pois raramente se deixa ver. 

A figura feminina surge nesta obra, muito ligada ao conceito da época. São personagens muito desejáveis, todas elas desde as vampiras que habitam o castelo do Conde, a própria Lucy e Mina. Exemplos típicos da beleza feminina, consideradas como o sexo mais fraco à época, e por isso mais corruptíveis pelo mal, sendo elas próprias o principal alvo do Conde, tornando-se depois disso levianas e sedutoras. No entanto Mina, na sua vontade de emancipação, mais liberal, acaba por conseguir desempenhar um papel fundamental no desenrolar de toda a história e no seu próprio desfecho. Mas no final do livro, o autor faz questão de lhe conceder o papel de mulher, na sociedade da época, que passa invariavelmente pelo papel de mãe. 



Drácula é um excelente livro, que recomendo vivamente.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


A Viagem ao País da Manhã - Hermann Hesse


Sinopse:

"O presente livro de Hermann Hesse leva-nos rumo ao País da Manhã, que não é “algo meramente geográfico, mas a Terra-Mãe e a Juventude da alma, (…) o ubíquo e o nenhures (…) a unificação de todos os tempos “. Ao longo de uma caminhada iniciática e simbólica, acompanhamos o narrados-autor na sua tentativa de contar uma aventura outrora vivida e que agora se transforma num percurso misterioso de descoberta do seu destino e da sua identidade, em união com um todo universal e infinito.
Esta pequena história , escrita em 1930-31, revela-se então, sobretudo, como uma reflexão sobre a escrita, mas também como observação dos desafios, desvios e iluminações da existência humana, numa peregrinação interior que busca a pureza da infância, a Unidade e a Luz.
Aludindo a outras obras e mesmo a dados biográficos do Autor, assim como a  condições históricas muito precisas (avizinhava-se o Terceiro Reich…), Viagem ao País da Manhã condensa em si os elementos fundamentais de toda a sua poética e torna-se assim, um percurso no labirinto da própria escrita de Hesse, cuja beleza e mestria foram premiadas em 1946 com o Prémio Nobel da Literatura."

Este livro relata-nos uma viagem iniciática em que o narrador, identificando-se com o próprio autor HH, percorre entre os membros de uma determinada Ordem. Esta viagem traça um caminho de auto conhecimento que se acaba por revelar um teste à fé, ao amor fraternal e às crenças espirituais de cada um.
Um desfecho inesperado leva-o a querer escrever esta aventura simbólica de  descobrimento do ser humano, tarefa que, no entanto, vê dificultada pela obrigatoriedade de manter secretas as cláusulas da Ordem. Esta tentativa leva-o novamente ao encontro da autenticidade, da pureza do espírito e da união com o todo universal.
A escrita e a estrutura da obra levam-nos a crer que estamos perante uma lenda antiga.Por vezes o texto transborda de frases simples e imagens coerentes que rapidamente passam a ideias confusas e complexas, poéticas e mesmo intransigentes. São as dúvidas  existenciais que assaltam a mente humana e que levam a uma incessante e eterna busca do conhecimento pessoal.
É um livro de leitura agradável, encantador e cheio de simbologias.
Deixo-vos um pequeno trecho:

“Entre as particularidades da Viagem ao País da Manhã também constava o facto de a Ordem perseguir com esta caminhada fins bem determinados e muito elevados (estes pertencem à esfera do segredo, não sendo portanto, comunicáveis), podendo, no entanto, cada um dos participantes ter o seu próprio objectivo-destino, sim, devendo mesmo tê-lo, porque não se levava ninguém que não fosse motivado por objectivos pessoais. E cada um de nós, parecendo seguir ideais e fins comuns e lutar sob uma mesma bandeira, levava individualmente no seu coração, como força mais intima e último consolo, o seu próprio sonho louco de infância. No que diz respeito ao meu próprio objectivo e destino de viajem, sobre o qual tinha sido interrogado pela Cátedra Suprema antes da minha admissão, era de natureza simples, ao passo que alguns outros irmãos se tinham colocados objectivos, que eu podia, evidentemente, respeitar bastante, mas não entender plenamente. Um, por exemplo, procurava tesouros e não tinha outra coisa na mente senão a conquista de um tesouro sublime, que ele chamava de “Tao”, um outro, no entanto, tinha mesmo metido na cabeça capturar uma certa serpente, á qual ele conferia poderes mágicos e que se chamava Kundalini. Em contrapartida, o meu próprio objectivo de viagem e vida, que já desde os anos tardios da adolescência se me apresentara em sonhos, era o seguinte: ver a bela princesa Fatme e, porventura conquistar o seu amor.”

Nota - 7/10


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013