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domingo, 29 de dezembro de 2013

Acontamentos de Lendas e Relendas de Thomas Bakk






Thomas Bakk, um excelente contador de histórias, que para além de muitos outros ofícios, tem a particularidade de transformar todas as histórias, que conta, em versos. Ao mesmo tempo que o faz, dá-lhes um toque de magia misturada com um humor muito próprio e que nos cativa desde o primeiro instante.









“Acontamentos de Lendas e Relendas” é um pequeno livro da sua autoria, em que Thomas conta três histórias baseadas em lendas conhecidas. No entanto a adaptação feita pelo autor, revela-nos versões bem divertidas e cheia de duplos sentidos que podem ser interpretadas à luz do contexto social e económico do nosso país. 

A “Lenda do Punhal” fala-nos de um pescador que certo dia, na sua faina piscatória, vê no meio das águas um punhal reluzente e brilhante. Ambicioso, tenta apoderar-se do mesmo, pensando, unicamente, no valor que ele poderá ter no mercado. A partir daí um conjunto de peripécias sucedem-se até ao final completamente inesperado para o próprio pescador.

“O Cavaleiro Justo” é uma história baseada na Lenda de S. Martinho, e fala-nos de um certo homem sem abrigo que sonha em ser rico. Tudo faz para atingir o seu objectivo, desde trabalhar, roubar ou mesmo reinar, mas nada vale e termina como começou, apenas com mais a metade de uma capa.

“O Pastor e as três filhas” , inspirado na lenda de S.Nicolau, conta as aventuras e desventuras de um pastor pobre, que ao ver a sua filha mais nova apaixonado por um rico mercador, pretende arranjar dinheiro para o seu dote.

No final do livro somos presenteados com um caderno de apontamentos, onde podemos "expor as nossas reflexões e opiniões acerca do que lemos e retivemos em cada história.

Todas as histórias são divertidas e proporcionam-nos um bom momento. A eterna ambição humana pelo valor do dinheiro e do poder é aqui apresentada como uma caricatura desenvolvida com mestria.

Uma leitura muito divertida que recomendo sem qualquer dúvida.

É possível obter o livro através do seguinte endereço electrónico:


O Último Conto de Rodolfo Castro





“Ninguém se lembrava do dia em que Jacinto havia contado o seu primeiro conto debaixo da árvore. No bairro, dizia-se que sempre estivera ali. Alguns anciãos afirmavam que apenas os contos eram anteriores a ele. E havia ainda quem afirmasse que a árvore, as casas e tudo o resto só existiam porque Jacinto os narrava. Todos acreditavam que os seus contos seriam escutados para sempre…”







“O Último Conto” é o mais recente livro de Rodolfo Castro editado em Portugal. Foi apresentado no passado dia 30 de Novembro na Gatafunho, loja de livros , numa sessão de contos em que Rodolfo apelidou de O último serão de contos de 2013.

O trabalho entre o escritor e o ilustrador mexicano Enrique Torralba, foi muito bem conseguido, pois o livro é magnificamente ilustrado, com imagens de página inteira que marcam significativamente a história. Poder-se-á dizer que elas são parte integrante da história, complementando-a, dando-lhe vida e enchendo-a de sentimentos.

“Jacinto era um bom contador de histórias. A sua voz equilibrava-se entre a serenidade e a fúria.”

Rodolfo Castro apresenta-nos Jacinto, um contador de histórias que era a vida e força da cidade, que sempre existira ali, debaixo de uma árvore. 

Todos escutavam as suas palavras, minutos cheios de fantasia a que ninguém conseguia resistir… e pensavam que a sua voz, as suas histórias durariam para sempre… até que chega um dia em que o silêncio envolve a cidade, um silêncio tão denso que nada nem ninguém consegue reagir.

Só após um estrondo do avião, e com o passar do tempo,  é que tudo vai regressando à normalidade, até que junto à velha árvore, onde Jacinto contava as histórias, algo acontece…

Um livro lindo que vale muito a pena ler uma, duas ou mais vezes.

Mais uma excelente aposta da Editora GATAfunho.



Rudolfo Castro é argentino e vive actualmente em Portugal. É um contador de histórias, formador e escritor entre muitos outros ofícios. Como ele próprio diz é:

“Professor de ensino básico, futebolista insucesso, actor constante, pedreiro e carteiro, vendedor ambulante, escritor e leitor, assobiador e migrante, curioso, melancólico e contador de histórias. Nasci e cresci em Buenos Aires, formei-me no México, hoje vivo em Lisboa, Portugal.http://www.rodolfocastro.com/


sábado, 28 de dezembro de 2013

Selma de Jutta Bauer


Sinopse

O formato é pequeno, delicado, assim como as ilustrações da autora Jutta Bauer. Mas a questão que permeia a obra é densa - 'O que é felicidade?'. Selma traz a resposta. A rotina da ovelha Selma é aparentemente comum - comer grama, ensinar as crianças a falar, praticar um pouco de esporte, conversar com a vizinha, dormir profundamente. A diferença está na satisfação com que ela realiza essas atividades - Selma vê beleza nas coisas mais simples e cotidianas. Ela aprecia a vida em sua essência. Com frases curtas e diretas, dá o seu recado não somente aos pequenos. Best-seller da alemã Jutta Bauer, 'Selma' já foi lançado em mais de dez idiomas e ultrapassou a marca de 400 mil exemplares vendidos. A autora manuscreveu o livro em português, assim como as versões em inglês, japonês, hebraico e outras publicadas pelo mundo. Na Alemanha, a ovelha é protagonista de um desenho animado na TV



Este pequeno livro apresenta-nos a Selma e uma questão que nos preocupa a todos: “O que é a felicidade?”

Selma é uma ovelha igual a tantas outras, ensina e conversa com os seus filhos, pratica desporto, conversa com a vizinha, come erva e dorme profundamente.



Se ganhasse a lotaria e passasse a ser uma ovelha extremamente rica, o que mudaria na sua vida? 

Ela apenas conversaria mais com os seus filhos, praticaria mais desporto, comeria mais erva e dormiria mais profundamente e claro conversaria muito mais com a sua vizinha.

Ela só quer feliz, e a felicidade está mesmo ali, desfrutando totalmente todas as coisas que estão a seu lado, nada mais importa. A vida tranquila feliz que sua pacata vida lhe proporciona é a felicidade. Para quê ter mais, se isso é suficiente?


Este pequeno livro, leva-nos a questionar o que de facto procuramos quando queremos ser felizes. 

O que é a felicidade?

Selma ensina-nos a valorizar as coisas simples da vida e que nos rodeiam diariamente. 

A vida é simples e por vezes somos nós que querendo demais acabamos por nunca ser felizes.

As ilustrações criam uma imagem afectiva que nos prende e liga a esta ovelha sábia, levando-nos a ler uma e mais outra vez este livro.

Um livro excelente editado pela editora GATAfunho 

Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz

“Fazal Elahi não erraria na sua premonição, o universo gosta de equilíbrios completamente desequilibrados, é feito de opostos de mãos dadas, um homem enorme a segurar a mão de uma menina pequenina.”

Sinopse:
“A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem, pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
- E já sabe? - perguntou Fazal Elahi.
- Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.”

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos ter sido o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca. Um magnifico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.


Afonso Cruz já me habituou a esperar muito em cada vez que pego num livro dele. A sua escrita é fantasticamente simples e melodiosamente atraente. 

Este livro conta-nos a história de Elahi, um comerciante de tapetes, e das pessoas que vivem com ele, Bibi a sua esposa que andava com os cabelos soltos como pássaros, o filho Salim, o seu primo Badini poeta mudo, a irmã Aminah e Isa.

Desde as primeiras folhas, somos atraídos, quais abelhas pelo néctar das flores, pelas suas palavras, pelas personagens, pelas histórias e sobretudo pela sua filosofia de vida que docemente surge nos diálogos, nas descrições e em todos os sentimentos transpostos nos seus livros.

“Para onde vão os guarda-chuvas” é mais um exemplo notável do seu trabalho. Depois de uma primeira “História de Natal para crianças que já não acreditam no Pai Natal” (sobre a qual não vou comentar nada, porque as imagens são sarcasticamente marcantes) entramos num mundo oriental marcado por preconceitos sociais e religiosos, onde a história de Elahi, comerciante de tapetes, se vai tecendo ponto a ponto “tudo ligado como se fosse um tapete, o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros.” 

Vamos caminhando lado a lado com as personagens, vamos entrando nas suas vidas e vamos sentido a dor, a mágoa, a tristeza (porque o livro está inundado de tristeza e de solidão) e quando termina ficamos sem saber verdadeiramente como reagir. 

“E Elahi perguntava-se como seria possível que a tradução daquilo que se passava dentro dele fossem apenas umas quantas lágrimas. Que coisa tão mal feita, pensava. Com tanto sofrimento, com licença, deveríamos chorar estrelas, para mostrar como tudo o resto é pequenino comparado com tudo o que nos dói.”

Somos todas peças de xadrez na vida real, ou na história de Elahi, e como num jogo há vitoriosos e derrotados, nem sempre a justiça prevalece, nem sempre vence o melhor e as reacções às consequências destes factos são por vezes terrivelmente desastrosas para os peões do jogo.

A violência encontra expressão em algumas personagens, em alguns acontecimentos e sob algumas formas que marcam a história de um oriente muito mais real que a nossa imaginação pode alcançar. O perdão em Elahi é uma constante, ele sofre e perdoa, esquece e sofre novamente, perdoando e procurando alcançar uma resposta para a sua revolta , nunca deixando de se questionar sobre o “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” existente no mundo.

A angústia que nos torna o coração bem apertado, está patente do início ao fim deste livro. Somos pequenos face a uma sociedade em que os poderosos são os vitoriosos, nada podemos fazer contra eles, apenas deixar que a vida corra, apenas guardar dentro de nós a dor e a solidão.

“Somos mais pesados quando fechamos os olhos. Isso acontece porque o nosso mundo interior é maior do que exterior, pensava Fazal Elahi. A nossa dor não existe fora de nós, o mundo não suportaria esse peso, seria impossível, imagine-se a dor de todos os homens a existir no mundo exterior. Seria uma calamidade e não haveria gravidade capaz de fazer os planetas andar à volta das estrelas. Nós somos muito mais pesados do que o universo que nos rodeia. Temos a dor.”

Um excelente livro que recomendo, deixando-nos a pensar em que mundo realmente vivemos!



domingo, 17 de novembro de 2013

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo de Haruki Murakami


Sinopse

Em 1982, ao mesmo tempo que abandonava o lugar à frente dos destinos do clube de jazz e que tomava a decisão de se dedicar à escrita, Haruki Murakami começava a correr. No ano seguinte, abalançou-se a percorrer sozinho o trajecto que separa Atenas da cidade de Maratona. 
Depois de participar em dezenas de provas de longa distância e em triatlos, o romancista reflecte neste livro sobre o que significa para ele correr e como a corrida se reflectiu na sua maneira de escrever. Os treinos diários, a sua paixão pela música, a consciência da passagem do tempo (lembram-se desse poema urbano chamado Afterdark – Os Passageiros da Noite?), os lugares por onde viaja acompanham-no ao longo de um relato em que escrever e correr se traduzem numa forma de estar na vida.
Diário, ensaio autobiográfico, elogio da corrida, de tudo um pouco podemos encontrar aqui. Haruki Murakami abre o livro das confidências (e a sua alma) e dá a ler aos seus fiéis leitores uma meditação luminosa sobre esse ser bípede em permanente busca de verdade que é o homem.


Tenho a certeza de que já referi por várias vezes que Haruki Murakami caminha claramente para se tornar num dos meus escritores favoritos. Sem querer repetir-me sucessivamente, o certo é que a cada livro que leio deste autor, mais este facto se acentua. 

Neste livro, autobiográfico , Murakami revela-se perante os seus leitores. No seu estilo muito próprio ele descreve-nos as razões que o levaram, a partir de 1982, a tornar-se um corredor de fundo e começar a correr sistematicamente uma hora por dia, (em média 10km /dia, 60 Km/semana, 260km/mês). Participa numa maratona por ano, em vários locais pelo mundo, e mais tarde tornou-se adepto do triatlo.

O que é para ele a corrida? O que pensa enquanto corre? São algumas das questões que lhe colocam e sobre as quais ele reflecte e partilha com os seus leitores.

“Vendo bem, em que penso eu, exactamente, enquanto corro? Para dizer a verdade, não tenho a mínima ideia.
Corro, só isso. Corro no vazio. Dito de outro modo: corro para atingir o vazio. No entanto, há sempre um pensamento ou outro que acaba por se introduzir nesse vazio. O espírito humano não pode ser um vazio completo. As emoções dos homens não se revelam suficientemente fortes ou consistentes, ao ponto de albergarem o vazio. Quero com isto dizer que os pensamentos e ideias que invadem o meu espírito enquanto corro permanecem subordinados a esse espaço oco. Na medida em que lhes falta conteúdo, mais não são do que pensamentos ao correr da pena que têm como eixo a natureza do próprio vazio.

As coisas que me vêm à cabeça enquanto corro são como nuvens no céu. Nuvens das mais diferentes formas e de diferentes tamanhos, que vão e vêm enquanto o céu permanece o mesmo de sempre. As nuvens não passam de convidados. Aproximam-se a passo, para depois se afastarem e desaparecerem no horizonte. Fica apenas o céu. Existe, ao mesmo tempo que não existe, o céu. Tem substância e ao mesmo tempo não tem. E nós limitamo-nos a aceitar a existência desse recipiente incomensurável tal como ele é e deixamo-nos envolver por ele.
….
Enquanto corro, vou dizendo a mim mesmo para pensar num rio. Pensa nas nuvens, digo. Mas no fundo não estou a pensar em nada de concreto. Continuo, pura e simplesmente, a correr nesse confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio. E isso é qualquer coisa de profundamente maravilhoso. Digam o que disserem.”

Paralelamente às suas descrições e dissertações sobre a corrida, Murakami numa linguagem muito directa, vai divagando sem rodeios. Fala-nos na sua vida, nas suas opções enquanto ser humano, como e porquê começou a escrever e como a escrita se tornou fundamental para a sua vida, dos seus sentimentos, da sua maneira de ser e de pensar e de que forma as suas atitudes afectam os seus romances.

Página a página, num ritmo sempre cativante, o leitor vai conhecendo um pouco mais do homem que está por detrás do escritor. O que sente enquanto corre, o que sente quando escreve e o que sente enquanto pessoa.

“Vejo este livro como uma espécie de memórias. Seria exagerado dizer que se trata das minhas memórias pessoais, mas, ao mesmo tempo, também não posso, em boa verdade, colar o rótulo de ensaio. Volto a repetir o que escrevi no prólogo. Através do acto da escrita, tive a intenção de ordenar os meus pensamentos, à minha maneira, e descobrir de que forma vivi durante os últimos vinte e cinco anos, como escritor e como ser humano igual aos outros. Quando se discute os critérios que estabelecem até que ponto o romancista se deve cingir ao romance e quanto deverá revelar da sua verdadeira voz, as opiniões variam de individuo para individuo, não podemos cair em generalizações. Ao escrever este livro, tinha esperança de ser capaz de descobrir qual é, no meu caso, esse padrão. Não tenho confiança suficiente para dizer se fiz (ou não) um bom trabalho, mas, assim que acabei de o escrever, posso dizer-vos que soube o que era libertar-me do peso que carregara aos ombros durante bastante tempo. “

Um livro diferente, mas muito bom. Um conjunto de opiniões sobre a importância da escrita e conselhos a quem procura ingressar nesta tarefa árdua e emocionante que é criar uma história e deixá-la correr pelo papel como um rio que corre pelas montanhas até desaguar no mar.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Livro do Novo Sol de Gene Wolfe




Ao começar a ler os livros que compõem “O Livro do Novo Sol”, fiquei com uma dúvida que se prende com esta tarefa de tecer um comentário aos mesmos. Iria comentar em separado, isto é livro a livro ou faria um comentário no final? Optei, como já repararam, pela segunda opção e não me arrependo, uma vez que na minha opinião os livros são um só.

No entanto torna-se importante fazer uma síntese inicial para explicar quais os livros que compõem esta magnifica saga.

“O Livro do Novo Sol” é composto por cinco volumes, sendo que inicialmente eram apenas quatro. Alguns comentadores referem que o quinto volume, editado mais tarde, não fará parte de “O Livro do Novo Sol” ao contrário de outras opiniões. Para mim faz todo o sentido que esteja englobado no seu conjunto, pelo que o tratarei como tal.

Para ficarem com uma pequeníssima ideia apresento as sinopses respectivas:


1 - A Sombra do Torturador


A Sombra do Torturador é um excelente livro de ficção científica extremamente enriquecido pelo recurso a figuras e estilos literários próprios de grandes autores clássicos de literatura. A história de um jovem torturador, pertencente a uma organização que está encarregue de torturar pessoas que lhe são enviadas, num tempo tão longínquo do nosso, onde o sol já está a morrer e a precisar de ser substituído por um novo sol. Existem imensas passagens extremamente ricas e a fazer lembrar outros autores, como por exemplo uma cena de cemitério ao estilo de Dickens, uma máquina de tortura Kafkiana, uma mágica biblioteca do universo de Borges. A ficção científica mistura-se com a fantasia, ambos se misturam com tiradas filosóficas e existencialistas.



2 - A Garra do Conciliador


Severian tem em sua posse uma pedra preciosa, que se crê ser "a garra do conciliador", poderosa relíquia do Mestre do Poder, uma figura lendária de proporções míticas. Com a Espada e a Garra como armas, Severian prossegue a sua viagem para Thrax, a cidade do exilio. No caminho encontra maravilhas como as criaturas simiescas, de corpos irradiantes e peludos e inteligência humana no olhar, que combatem Severian com um ardor e forças tais que é forçoso que o matem; como o bizarro ritual canibalistico que infunde em Severian as memórias e pensamentos de Thecla, a sua amada morta; como a sala de superfícies semelhantes a espelhos, na qual desaparece Jonas, o companheiro de Severian; e como a perturbadora Fonte Vática, à qual Severian atira uma oferenda a fim de conhecer o seu destino.



3 - A Espada do Lictor

Severian, exilado pelo "pecado" da misericórdia, chegou já à Thrax, a Cidade sem Janelas, para onde havia sido enviado como lictor. Mas coisas perturbadoras começaram a acontecer. Severian é perseguido por uma fera mortífera e dirige-se para as montanhas depois de ter sobrevivido a um novo encontro com Agia. Prossegue a fuga acompanhado por um rapazinho, cujos pais tinham sucumbido ao ataque de um alzabo. Mais adiante penetram numa enorme cidade deserta, onde Severian mata um velho inimigo do Conciliador, satisfazendo assim uma velha dívida de vingança daquele que está na origem da sua arma secreta: a garra.
Mas na batalha final, Severian perde o controlo do corpo e vagueia sem consciência, pelo seu próprio e ainda imprevisível futuro.


4 - A Cidadela do Autarca



Severian viaja pelas terras de Urth e é empurrado para o norte por personagens estranhas e terríveis: salamandras, criaturas de luz, nótulos. E, no fim, espera-o o destino supremo que não pode recusar, já que o futuro de Urth depende do regresso do Conciliador, o Novo Sol, há tanto desejado.





5 – Urth do Novo Sol

Severian, agora autarca de Urth, parte a bordo de uma nave do alienígena Hierodules para empreender uma viagem através do espaço e do tempo e enfrentar o supremo desafio: tornar-se no legendário Novo Sol ou morrer.





O Livro do Novo Sol conta-nos a história de Severian, habitante de um mundo a que o autor apelidou de Urth (provavelmente uma distorção de Earth, a Terra). Escrito pelo “seu” próprio punho, Severian leva-nos a empreender uma viagem desde a sua infância, um aprendiz de torturador, até ao seu derradeiro final.

Uma viagem que passa pelo conhecimento do seu mundo e consequentemente pela história do seu próprio planeta. É também, na minha opinião, uma viagem pessoal, à sua voz interior ou às mil vozes que o compõem. Quem é este homem, dono de uma memória infalível, como ele próprio tantas vezes afirma, é a questão que colocamos desde o início até ao fim de cada livro.

Com o desenrolar da história de livro para livro, a narrativa torna-se mais complexa e mais elaborada. As viagens no tempo surgem juntamente com estranhos seres do futuro e alienígenas.

No quinto livro, Severian é confrontado num julgamento do qual depende a vida do seu planeta.

Severian vai desenvolvendo a sua personagem à medida que a sua viagem progride, ele vai aprendendo a cada passo que dá nesse mundo misterioso e a cada mistério que resolve. O seu mundo defronta-se com um problema grave: o que acontecerá se o Sol se apagar definitivamente? É com esta dúvida presente que Severian, no meio de personagens densas e tão fortes quanto ele e no meio de um mundo dos mais complexos e criativos que já vi na escrita de FC ou de fantasia, vai crescendo.

É nesta viagem, que acabamos por acompanhar avidamente, que começamos a descobrir o verdadeiro valor de Gene Wolfe. Na pele de Severian, (personagem riquíssima da qual ficamos aprisionados desde o primeiro instante) o escritor vai-nos enfeitiçando com a sua narrativa, transmitindo-nos um mundo de sensações, de impressões quase fotográficas do mundo exterior, de descrições belíssimas, de cores e sons a cada página.

No entanto, a sua escrita, quase poética, cheia de significados e simbolismos, obriga-nos a uma leitura atenta, o que nos coloca face às realidades descritas no tempo e no espaço e aí somos confrontados entre estas e as memórias infalíveis no nosso personagem. Neste ponto não podemos deixar de reparar que nem sempre elas são coincidentes, o que nos leva a pensar: “ qual a verdade? O que de facto aconteceu?” e aí estamos perante a genialidade e as capacidades estilísticas do escritor. O mundo descrito por Severian, será o verdadeiro mundo de Urth? Quem é quem? E quem é o próprio Severian?

Não me quero alongar muito, nem baralhar ainda mais quem lê este meu comentário e não conhece a obra de Gene Wolfe, pois quem a conhece entenderá perfeitamente o que quero dizer.

A sua escrita é bastante complexa, no entanto fascina-me a sua linguagem e a sua interação com o leitor.

Olhando para trás na história, não consigo situar o que aconteceu em cada um dos livros, mas consigo ver uma história linear, no entanto chegando ao fim, as dúvidas levam-me atrás no enredo e voltei a última pagina a pensar: “vou ter que ler tudo outra vez!”.

Muitíssimo bom, excelente mesmo. Uma das melhores sagas que li até hoje.

domingo, 13 de outubro de 2013

The Merchant and the Alchemist's Gate de Ted Chiang




 Breve resumo da história: 

Fuwaad ibn Abbas é um comerciante de tecidos que, num belo dia, procura um presente para um parceiro de negócios, numa zona comercial em Bagdad. Nesta procura descobre uma nova loja com uma variedade de artigos bastante interessantes. Impressionado com a qualidade e características dos artigos expostos Fuwaad conversa com o proprietário, Bashaarat, e descobre que este é o criador de todos os objectos fantásticos expostos na sua loja.

A determinada altura Bashaarat convida-o para ver um aparelho, criado por ele, que se encontra nas traseiras da loja e Fuwaad encontra um aparelho constituído por um arco de pedra negra misteriosa. Este aparelho, segundo o informa o seu autor, permite fazer viagens no tempo, quer ao passado, quer ao futuro. Uma pessoa pode viajar no futuro e conhecer o seu próprio “eu” mais velho. Perante a hesitação de Fuwaad, Bashaarat conta-lhe três histórias de pessoas que já viajaram no futuro através daquela “porta”.

Convencido deste fantástico aparelho, Fuwaad não quer viajar no futuro, mas sim no passado, 20 anos atrás para tentar corrigir um erro que cometeu. Sabendo que o negociante tem um outro portal, que permite viajar no passado, no Cairo, desloca-se de imediato para aquela cidade. 

A minha opinião: 

Este pequeno conto foi a minha estreia com Ted Chiang. E confesso-vos que adorei. As histórias surgem, através do portal do tempo, dentro da história principal em que Fuwaad ibn Abbas é o protagonista. Faz-nos recordar os ambientes das Mil e Uma Noites, mas algo mais futurista, mais ambicioso em termos de ficção.

A escrita é na primeira pessoa, uma vez que tudo começa com o nosso protagonista preso pela guarda do califa e a contar a história que lhe aconteceu, ao próprio califa. Uma escrita extremamente agradável, cativante, e sobretudo muito bem redigida.

As viagens no tempo mostram as personagens mais velhas ou mais novas do que na vida real, mas Chiang soube, com muita mestria, conjugar a possibilidade de alteração dos factos ocorridos em diferentes tempos, com a conservação da capacidade de decisão individual. 

São as pequenas histórias entrelaçadas na história principal, que levam a que, nós leitores, fiquemos a pensar qual o poder, que face a uma possibilidade de nos deslocarmos a um passado ou futuro, poderíamos ter na alteração dos acontecimentos e quais as implicações que essas possíveis alterações poderiam ter em nós. É claro que isto não passa de utopia, mas quantas vezes já pensámos: “Se pudesse voltar atrás, não faria isto ou aquilo da mesma maneira!”

Resta-me dizer que este conto ganhou vários prémios internacionais, nomeadamente foi vencedor do Prêmio Nebula 2007 na categoria novela, vencedor do Hugo Award 2008 na categoria novela, e ficou entre os finalistas para BSFA Award 2007 na categoria ficção curta.

É pena que alguém com tanto talento, não mereça o respeito por uma qualquer editora portuguesa a fim de que as suas obras sejam publicadas na nossa língua. Bem sei que os contos não são dos géneros literários mais lidos em Portugal, mas mesmo assim acho que seria uma excelente aposta.

Quero ainda referir, que será um escritor do qual irão certamente ver mais comentários meus, porque me conquistou seguramente. 

O próximo será “Understand”.


sábado, 21 de setembro de 2013

A Era Dourada de Pedro Cipriano








Sinopse


Uma guerra mundial pelos recursos energéticos mudou a face do planeta, levando a espécie humana perto da extinção. Cinco séculos, depois, a revolução industrial acontece pela segunda vez, fazendo ressurgir os mesmos desafios. Inclui os contos: - A Alvorada - A Escuridão - A Alergia - O Monstro e a Musa - O Fruto Proibido 







Mais uma vez me aventurei numa leitura conjunta. Falo em aventura, não pelos livros escolhidos, mas sim pelos prazos estabelecidos, perfeitamente correctos , mas que esbarram sempre em alguma dificuldade minha.

No entanto é sempre agradável poder ir discutindo o livro que se lê, com outros colegas de leitura, trocar opiniões. O ser humano é uma entidade tão complexa  e tão própria, que as opiniões divergem e nunca são iguais. A minha interpretação é tão somente minha como a de outro é dele e por vezes do cruzamento destas opiniões pode surgir algo valioso para um outro que lê, como para quem escreve.

Estou a divagar…. e afinal só queria comentar o livro do Pedro Cipriano!
Vamos lá …

Esta compilação dos Contos da Era Dourada apresenta-nos cinco contos: A Alvorada, A Escuridão, A Alergia, O Monstro e a Musa e O Fruto Proibido, conforme já referido na sinopse.

Todos eles focam a vida num planeta (infelizmente o nosso) num período apocalíptico do durante e o após de uma 3ª guerra mundial. A energia nuclear é uma constante e de facto a grande causadora do grande flagelo mundial.

De uma forma geral, pode-se verificar que em todos os contos, o autor preocupou-se em demonstrar as várias reacções do homem face ás adversidades de uma guerra nuclear e  perante o desespero de ver o seu mundo desaparecer diante dos seus olhos. Como referi no inicio deste comentário o ser humano é bastante complexo e único, pelo que as reacções são diferentes, chegando mesmo a levar a que cada um repense os seus valores face a um flagelo desta natureza.

Parece-me a mim, pelo menos assim o entendi, que este é o ponto fulcral de todos os contos, a par de todas as questões ligadas ao desenvolvimento sustentável ,  bem como a utilização de energias alternativas face ao esgotamento a que estão sujeitos os nossos recursos naturais.

Um tema bastante actual e que se não nos preocupa, deveria fazê-lo de forma a que repensemos alguns dos nossos hábitos e “filosofias” de vida.

Acontece porém, que o que senti ao ler os vários contos, foi que me soube a pouco. Num tema desta natureza, parece-me que haveria bastante para explorar e os vários contos acabam por ser repetitivos. Abordam as reacções humanas, mas de uma forma derrotista, não é que queira que os contos terminem todos bem, mas cheguei ao fim com a sensação de : Se um dia isto acontecer, e se houver um conjunto de sobreviventes, será que tudo terminará novamente por, desculpem-me a expressão,  “andarem todos á batatada uns aos outros” ou por perderem por completo a esperança.

Gostei da forma simples da escrita, simples e agradável. Apenas alguns erros que se vê serem lapsos de revisão.

Em tempos li um outro conto do Pedro Cipriano que me agradou muitíssimo. Talvez tenha colocada a expectativa  alta, e por isso ter esperado mais destes contos.


Para quem quiser ler e aconselho sempre a que o façam, pois a minha opinião é apenas a minha, podem fazê-lo através do seguinte endereço:


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A linha recta do Corvo de Manuel Alves


Sinopse:


Lince teria uma vida relativamente despreocupada se não fosse a pequena questão de ser perseguido por assassinos, e tudo só porque chateou certas pessoas por ter testemunhado algo que não devia. Felizmente, os corvos avisavam Lince sempre que um assassino se aproximava. Infelizmente, os corvos não o ajudavam a escapar. Uma boa maneira de matar um assassino é tornar-se um assassino melhor. Pelo menos, foi o que Lince pensou. 


Confesso muito sinceramente que foi dos contos de Manuel Alves, o que menos gostei (dos que li até agora). No entanto, deixem-me referir que este meu primeiro comentário baseia-se apenas no meu gosto pessoal, sobre o tema do conto e nada mais. 


De resto, é mais um conto que mostra bem a versatilidade do autor, nos temas escolhidos e na excelente adequação dos estilos e linguagem escrita aos mesmos.

Recheado de uma certa dose de humor negro do início ao fim, bem como as expressões irónicas e sarcásticas que povoam os diálogos entre Lince e os seus opositores levam-nos a sorrir ao longo de todo o texto. Uma leitura fácil e agradável.

Ficam, no entanto, um conjunto de pontas soltas: o que terá levado a este “herói” do deserto ser tão perseguido pelos assassinos e se bem que o final parece claro , será que o sabemos mesmo?

É verdade que o facto de estas pontas ficarem misteriosamente escondidas, dão alguma graça e curiosidade que nos leva a ler com gosto todo o conto. Se tudo se conhecesse sobre este personagem e sobre o seu destino, não cativaria tanto, na minha opinião. É o tamanho certo , com a informação certa para o meu gosto, claro.

Resumindo, apesar de como referi, não ser um tema que me agrade particularmente, reconheço que está muito bem escrito, com uma mistura de ingredientes que o tornam interessante e divertido. Passei um bom momento, com a sua leitura.

Este conto pode ser encontrado gratuitamente, pelo menos até à data, em  https://www.smashwords.com/books/view/256021



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

“Os livros que devoraram o meu pai” de Afonso Cruz

“Olho para os meus filhos e para os meus netos e penso em que diabo de histórias se meterão eles e o que é que eles poderão um dia contar. Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias”. 



Sinopse
Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo.
Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá, qual Telémaco, à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.


Elias Bonfim descobre, no dia em que faz doze anos que afinal o seu pai não tinha morrido de doença de coração, como lhe tinham contado, mas, na verdade, entrara dentro de um livro e nunca mais ninguém soubera dele. A sua avó revela-lhe este segredo, no dia seguinte ao seu aniversário, ao mesmo tempo que lhe entrega, de prenda de anos, a chave do sótão onde se encontra a biblioteca do seu pai.

A partir desse dia, o jovem parte em viagem pelo mundo dos livros, seguindo as “pegadas” do pai, Vivaldo Bonfim. Começando pelos livros mais ligeiros, vai percorrendo os mundos descritos de vários autores, tentando encontrar vestígios e pequenos sinais, sempre na esperança de um encontro. Alguns dias mais tarde, começa a ler outros autores e entra verdadeiramente na sua aventura e procura pela “A ilha do Dr. Moreau” de H.G.Wells, passando para Stevenson, Dostoievski, Italo Calvino, Bradbury ou Jorge Luís Borges, entre outros.

Paralelamente a este desfolhar da biblioteca situada no sótão da sua avó, vamos acompanhando as suas aventuras de jovem adolescente com a mãe, avó, os amigos e até mesmo com a sua apaixonada. Aqui, na vida real, é o seu melhor amigo Bombo, que o apresenta a Lao Tse, mítico filósofo chinês, criador do Taoísmo.

Este livro, através da sua escrita simples e ligeira, permite a leitura de um público extremamente diversificado. Desde os mais jovens aos adultos, ou mesmo desde o leitor menos ávido ao mais apaixonado pela leitura, todos eles se sentem atraídos pela história do jovem Elias, possibilitando vários níveis de leitura, conforme a idade e a experiência do leitor.

A linguagem cativa-nos quer pela sua simplicidade, quer pela sua prosa poética, que surge nas caracterizações e descrições ao longo do livro.

“E no dia seguinte lá fui, depois das aulas, ter com a minha avó. Ela disse-me para me sentar, fez um gesto com a mão engelhada em direção ao sofá das riscas. Sento-me sempre nessas riscas, sempre que a visito. Ela também se sentou com a sua lentidão e um vestido florido. Passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a voz e os óculos. Por vezes a voz dela fica um pouco amarrotada, quando se senta, quando acaba de fazer um esforço. Explicou-me – enquanto eu mastigava um bolo – que eu já era um homenzinho e que começava a ter responsabilidades. Estava na altura de saber a verdade. As palavras dela vinham cheias de cabelos brancos, podia sentir que havia nelas muita vida vivida. (…)”

Elias Bonfim, vai crescendo enquanto pessoa, neste livro, atrás da ideia de que as histórias, a literatura, são constituintes integrantes do ser humano e dele fazem parte. “As personagens de carne são exatamente como nós, os de papel e letras negras” afirma Raskolnikov. (protagonista de “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Paralelamente ele aprende duras lições na vida real, onde os sentimentos de culpa e arrependimento chegam tarde demais.

Um livro muito bom, que devoramos num ápice, completamente absorvidos pelo desfolhar das páginas sem darmos conta deste facto. 

Afonso Cruz é um excelente escritor, do qual vou querer ler muito mais.

Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.”

sábado, 20 de julho de 2013

Os Comedores de Pérolas de João Aguiar

Sinopse

Jornalista de profissão e escritor nas horas vagas, Adriano descobre-se, de repente, na meia-idade. A vida não passa de um jogo extremamente cruel e ele dá consigo "sentado à beira da água opaca, a fumar o cachimbo e a morder um caule de erva que sabia a fénico"… O resultado do choque é um suicídio frustrado e uma fuga, sem esperança para Macau.

Em Macau, descobre um passado de que nunca suspeitara e descobre também a angústia sorridente da próxima reintegração na China. Mas a "pérola do Oriente" reserva-lhe uma outra surpresa: mergulhado brutalmente numa intriga que já fez vários mortos, Adriano é obrigado a esquecer as reflexões pessimistas sobre a vida e o mundo, para ceder ao instinto primitivo de lutar pela sua própria sobrevivência.


Confesso, o que para muitos já não é novidade, que gosto bastante de ler João Aguiar. O que tenho lido deste autor torna-se sempre uma agradável surpresa. Por mais que conheça o seu estilo e muitos dos seus livros, acabo por ser surpreendida cada vez que começo a ler um. Não sendo esta uma das suas obras mais destacadas e conhecidas, constituiu uma leitura simples mas agradável, que nos agarra ao longo de toda a história.

Desta vez “Os comedores de pérolas”, escrito em 1992, levam-nos até Macau, nas vésperas da transferência da administração portuguesa para a China. Este território que muitos apelidavam de “a pérola” do oriente, é aqui comparado à anedota histórica da Cleópatra em que esta dissolveu em vinagre uma pérola e depois bebeu esta mistura para provar a Marco António que era mais gastadora do que ele. Aqui a alegoria visa recordar-nos da ausência de esforço por parte dos nossos governantes em salvaguardar esta pérola através dos tempos, acabando por nos termos convertido em “comedores de pérolas” imitando a rainha egípcia.

A escrita é-nos apresentada em forma de diário onde Adriano, tal como o próprio autor, jornalista e romancista, nos vai dando a conhecer, todo o desenrolar de uma investigação, aparentemente simples, mas que se revela um poço de segredos incómodos para muitos.

A recuperar de um esgotamento, chega a Macau para investigar o espólio do comendador Wang Wu, que viveu no século XIX. Com o desenrolar do estudo, verifica-se que Wang Wu e a sua esposa não eram quem se pensava. A investigação paga pelo neto de Wang Wu, um milionário que vive em Hong Kong, acaba por se revelar um jogo de interesses em que Adriano vai descobrindo a mesquinhez da alma humana num sonho oriental. 

Um verdadeiro cenário de intriga policial que nos mantém presos até ao fim, à espera da resolução de todos os enigmas.

Este é o primeiro volume de uma trilogia, que se segue com “O Dragão de Fumo” e “A Catedral Verde”. No entanto qualquer um deles pode ser lido isoladamente. Todos os três livros contam episódios da vida de Adriano Correia e passam-se todos em Macau, em épocas distintas.

domingo, 14 de julho de 2013

Contos do Nascer da Terra de Mia Couto

“Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.”


Falar de um livro de Mia Couto, ou melhor escrever sobre um livro de Mia Couto é uma tarefa complicada. Não há forma de transmitir o sentimento que nos invade ao lermos os seus contos escritos naquele linguajar tipicamente moçambicano. Quem lá esteve, é invadido pela nostalgia dessas falas, dessas ligações entre gentes e entre terras.

Neste livro “Contos do Nascer da Terra” são-nos apresentados 35 contos, de tradição popular, que nos falam de um povo, da sua identidade e sobretudo das suas raízes e da sua ligação à terra. 

São histórias que nos despertam um sorriso e que nos fazem pensar na beleza natural do mundo. Mia Couto consegue captar estes fragmentos naturais, ingénuos e belos, transformando-os em palavras que nos deliciam.

Um livro para ir lendo devagar, conto a conto, degustando cada história sem pressas, sem limites.

Deixo-vos mais um conto:

“Miudádivas, pensatempos

(Para Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias)

Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui na margem de uma floresta em Niassa, me desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas de flor. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é a minha hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, vermelhos desocupados pelo dia.

Nesse entardecer de tudo vou empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda onde me resguardo me chegam, soltas e dispares, desvisões, pensatempos, proesias. Assim, em miudádivas ao poeta:

A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
Adquire a forma do nada.
Enquanto o ramo vai transitando para camaleão.

Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
A aranha confunde madrugada com sótão,
artefactando materiais de orvalho.
Ela se mantimenta de esperas.
Minha tenda se engrandece a teia.

Uma mosca se inadverte na armadilha.
Igual o amor
que rouba mecanismos de viver.

Formigas transportam infinitamente a terra.
Estarão mudando eternamente de planeta?
Estarão engolindo o mundo?

Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vela.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o total inicio,
redundante gravidez do mundo.

Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estômago não entender poesias.

Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento?
Instantâneas aves,
pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo
Só a coruja atrapalha a eternidade.

Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos, derrames de céu.
Parecem-me luas e são lábios.
Lembranças da minha amada.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.

Escuto, depois a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa á margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.
Meu sonho está cega para razões.
Sei só escrever palavras que não há.

Depois, o sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.”


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Lili de Manuel Alves

Sinopse

Lili acabara mesmo de mudar de casa. Novamente. Era a segunda vez, em menos de um mês, que os pais encaixotavam tudo para voltarem a desencaixotar. Na primeira casa, ficaram quase duas semanas, e Lili já começava a conhecer todos os cantos secretos. Só lhe faltava explorar a cave. Mas voltaram a encaixotar tudo dois dias depois de a mãe ter começado a escrever o livro novo. Durante duas noites seguidas, Lili acordou a gritar com um pesadelo horrível. Sonhou com um homem alto muito baixo que tinha tanto de gordo como de magro. Lili chamou-lhe o Homem Que Muda. No pesadelo, aparecia-lhe cego, mas olhava-a nos olhos. Era mudo, mas falava. Dizia sempre a mesma coisa: não desças à cave.

Mais um conto de Manuel Alves. E atrevo-me a dizer que, até agora, foi o que gostei mais de tudo o que li deste autor. 

A sinopse refere o essencial da história, falar mais sobre ela é contar o que não se deve e estragar a surpresa a quem lê. Por esta razão não o vou fazer.

Vou apenas comentar o porquê de ter gostado tanto desta pequena história que nos fala de sonhos, pesadelos, de amizade e de confiança. E sobretudo de medos, de vencermos os nossos medos, porque todos os temos.

Para muitos “A Invenção de um conto de fadas” do autor, é uma referência e é muito bom. Já no meu comentário sobre o mesmo, referi o quanto tinha gostado, a história está muito bem desenvolvida. Mas não me identifiquei com os personagens, não criei empatia com as suas opções, com o seu modo de vida. 

É verdade que cada um tem a sua maneira própria de ser e de se identificar com determinadas situações ou histórias. Eu gosto bastante de contos e de contos infantis, pelo que todo o tema me seduziu de imediato.

Este conto vem acompanhado de uns desenhos bem engraçados feitos pelo próprio autor.

Em ” Lili”, achei fascinante a dualidade do Homem Que Muda, e toda a construção da história na história que se vai construindo. O final é importante para a mensagem que se pretende passar e está bem conseguida. A linguagem é deliciosa, os diálogos são carinhosos e ao mesmo tempo cheios de subtilezas.

É uma história positiva, em todos os aspectos, na minha opinião e é essa a imagem que temos de passar às nossas crianças, quer as mais pequenas, quer aquelas que vivem dentro de nós. 

Deixo-vos um pequeno excerto (sem spoilers) : 

"Lili manteve um sorriso até a mãe fechar a porta. Subiu o queixo e estudou a variedade de cinzentos que separavam as nuvens boazinhas das zangadas. As nuvens de tonalidades clarinhas eram boazinhas. As nuvens mais carregadas eram zangadas. Eram as que faziam chover muito tempo até aborrecerem dias inteiros.
— Não há só coisas boas por cima da cabeça — disse ela, num sussurro quase tão secreto como um pensamento que lhe fez mover os lábios.
Sentiu o toque de uma mão cuidadosa no ombro e um sussurro chegou-lhe ao ouvido.
— Não subas ao sótão — disse o Homem Que Muda.
Lili voltou-se num susto de curiosidade. O Homem que Muda desapareceu como névoa que ela dissipou com a meia volta do corpo. O Homem Que Muda falava-lhe sempre com voz de canela. Cada palavra lembrava-lhe o cacau quente que a mãe fazia, uma receita secreta herdada da avó, que polvilhava o creme na superfície do cacau com uma pitadinha de canela que deixava um cheirinho bom no ar. Era assim a voz do Homem Que Muda. A única coisa nele que nunca mudava."

Este conto encontra-se gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/331723


domingo, 30 de junho de 2013

O Legado Vermelho de Manuel Alves



Sinopse

Lantis é um jovem brilhante, e uma das pessoas mais inteligentes do mundo. Atly é o seu irmão mais novo, sempre metido no seu mundo de fantasia, constantemente a inventar histórias povoadas de criaturas lendárias. Quando o pai, um conceituado cientista, os leva à Reserva dos Dragões, para estudar fendas sísmicas, Atly descobre algo que ameaçará a existência do próprio planeta.


Intervalando com outras leituras, decidi ler toda a obra disponível de Manuel Alves. E, a cada livro/conto que leio, mais certa estou de que tomei a opção correcta. Para além da fértil imaginação que o autor possui, encontramos uma escrita cativante e bem humorada que nos vai conquistando ao longo das páginas. 

O Legado Vermelho é um conto muito interessante que nos seduz a cada página que lemos.

A história fala-nos de um cientista e do seu relacionamento com os dois filhos. Dois irmãos bastante diferentes, um que apresenta um QI de génio, cientista como o seu pai em que acreditam nos acontecimentos e teorias desde que devidamente provadas e o outro mais fantasista, acreditando na sua intuição e em figuras míticas.

Com o desenrolar do enredo, há uma questão que se coloca: devemos acreditar naquilo que os nossos olhos vêem, desde que devidamente provado? Ou devemos acreditar na nossa intuição?

Um final muito bom, verdadeiramente surpreendente.

Este conto encontra-se gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/255763


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Maktub! Estava Escrito de Malba Tahan


Uma breve nota sobre quem é Malba Tahan. 

Malba Tahan nasceu em 1885 na aldeia de Muzalit, Peninsula Arábica, perto da cidade de Meca, o centro religioso do islamismo. Estudou no Cairo e em Constantinopla, foi perfeito da cidade de El-Medina e aos 27 anos, iniciou uma viagem pelo Japão, Rússia e Índia, em virtude de ter recebido uma herança por parte do pai. Morreu em 1921 na luta pela libertação de uma tribo na Arábia Central.

Até aqui nada de extraordinário na vida deste escritor, a não ser o “simples” facto de que Malba Tahan foi criado por Júlio César de Mello e Souza, professor de matemática extremamente criativo, que nasceu no Rio de Janeiro em 1895. Como era um apaixonado pela cultura árabe e pelos contos das “Mil e uma noites”, criou o seu heterónimo que rapidamente conquistou bastante sucesso.

Júlio César de Mello e Souza viveu até aos 79 anos (faleceu em 1974), deixando um conjunto de 69 livros de contos, dos quais se destacam, pelo seu sucesso, “O Homem que calculava” e “Maktub! Estava escrito”


Sinopse :

“Em Maktub! Saberá como o jovem Fauzi Nalik foi forçado a fugir depois de ter pintado o retrato do rei Mahendra, que tinha um nariz disforme. Descobrirá o segredo do sábio da Efelogia, aquele que sabia tudo sobre as palavras iniciadas por F. Porque é que qualquer historiador que queria relacionar os soberanos cruéis que dominaram as terras do Islão teria forçosamente de incluir o nome do sultão Ali-Hassan El-Muttalid?...

E muito mais, em cerca de quarenta extraordinárias histórias, sempre surpreendentes, que revelam de um modo surpreendente o mistério do mundo árabe. “

Um livro de contos curtos, na sua maioria sobre a cultura árabe e o modo de pensar deste povo, mas de uma forma mais fantasiosa e afastada da realidade, aproximando-nos mais dos contos das mil e uma noite.

O seu nome significa, como se encontra referido no próprio livro:

“Maktub, particípio passado do verbo Ktab (escrever), é a expressão característica do fatalismo muçulmano. Maktub significa “estava escrito” ou “tinha de acontecer”.

Aliás, o conceito de fatalismo, no Alcorão, em nada difere da forma como se apresenta na Bíblia. Quando o árabe, nos momentos de angústia, exclama Maktub! não declara, com essa expressiva palavra, um grito de revolta contra o destino. Maktub é apenas uma fórmula clássica, perfeitamente ortodoxa, por meio da qual o crente reafirma que o seu espírito está plenamente conformado com os desígnios insondáveis da vontade de Deus.”


É uma leitura muito agradável, simples, leve e divertida, boa para uns momentos de distracção e relaxamento.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo de Haruki Murakami


Sinopse
“Duas histórias paralelas desenrolam-se em cenários sugestivos. Uma decorre numa misteriosa cidade murada - o Fim do Mundo. A outra, numa Tóquio futurista, num gélido e desapiedado país das maravilhas.

Ao chegar à cidade fechada nos confins do mundo, o narrador vê-se privado da sua sombra. As suas recordações começam, pouco a pouco, a desvanecer-se, à medida que assume a tarefa de leitor de sonhos num lugar povoado por habitantes possuidores de estranhas carências anímicas e percorrido por unicórnios dotados de uma pelagem que se torna dourada no outono.
Na segunda história, um informático com trinta e cinco anos, ao serviço de uma duvidosa entidade, envolve-se com um cientista que tem tanto de genial como de enigmático. Que representam de importante para o futuro da humanidade as misteriosas experiências que colocam em risco as cobaias? Quem são os obscuros Invisíveis? Qual o significado das criaturas rastejantes e malignas que escorregam dos buracos ocultos, vagueando pelos tenebrosos subterrâneos? É precisamente no fundo da sua mente que o herói encontrará a solução do mistério que liga as personagens destes dois mundos.

... Um acelerador de partículas narrativo percorre o romance, num movimento de zoom, aproximando-se e afastando-se de crânios de unicórnios e bibliotecárias vorazes. Wild Turkey e Bob Dylan. Charlie Parker e Lord Jim. Turguéniev e O Homem Tranquilo. Paixões em Fúria e Lauren Bacall. Dostoiévski e os Police. ‘Danny Boy’ e a música reggae. Há todo um mundo de referências nesta poderosa alegoria sobre os tempos modernos.”


No momento em que fechei a última página, fiquei a olhar para a contracapa onde surge o seguinte parágrafo:

“ – Consigo ler o teu coração. E vou conseguir uni-lo num todo. O teu coração deixará de ser um coração perdido e fragmentado em mil pedaços. Está aqui e ninguém vai poder arrebatar-to. – Tornei a pousar os lábios sobre as pálpebras dela. – Deixa-me aqui sozinho – pedi. – Quero ler o teu coração antes que a manhã chegue. A seguir, dormirei um pouco.”

Depois fiquei com a sensação de um vazio. Aquelas personagens, aquele mundo que me acompanhou por uns dias, enquanto durou a sua leitura, iria deixar de fazer parte do meu dia a dia. 

Um livro, na minha opinião, verdadeiramente fantástico. 

Escrito em 1985, vencedor do Prémio Tanizaki (um dos prémios literários mais prestigiados do Japão e é atribuído, desde 1965 a obras de ficção ou drama, escritas por profissionais) só recentemente chegou às nossas livrarias. Classificado como Ficção Cientifica. (se bem que por vezes me questiono onde fica a fronteira exacta, que classifica um livro, quando este não pertence claramente a um determinado género literário)

Como já se encontra referido na sinopse, este livro apresenta duas histórias em paralelo, uma nos capítulos pares e a outra nos capítulos ímpares. Ao longo das suas páginas vamos acompanhando dois mundos, duas sociedades e duas narrativas completamente independentes. Apenas uma característica comum: ambas são escritas na 1ª pessoa, dois homens sem raízes, que procuram a razão da sua existência, perdidos nos seus mundos, sem se cruzarem ao longo de toda a narrativa.

O País das Maravilhas apresenta-nos a cidade de Tóquio, numa realidade aparentemente normal, onde um informático é solicitado para desenvolver um trabalho junto de um velho cientista. Como todo o verdadeiro cientista, este “avô” tem a sua cota de genialidade bastante apurada. Sem perceber bem como, o nosso personagem vê-se envolvido num projecto altamente secreto, constituindo, ele próprio, um alvo de procura por parte das várias facções do poder, uma vez que o seu cérebro funciona como um processador de dados, capaz de registar e criptografar informação.

O Fim do Mundo apresenta-nos uma cidade, rodeada por uma muralha intransponível, onde as pessoas vivem despojadas dos seus corações e das suas sombras. Nesta, o homem chega e é-lhe atribuída a função de leitor de velhos sonhos em crânios de unicórnios, mas para tal vê-se privado do Sol e da sua sombra. Sem memórias, resta-lhe apenas o seu coração para compreender o que se passa ali.

Folha a folha, vamo-nos conectando com as suas vidas e com os simbolismos que o autor tanto gosta de utilizar nas suas obras. Surgem-nos as questões: o que significam os crânios, os unicórnios, a sombra, os velhos sonhos? Será que há algum relacionamento entre estes mundos paralelos? Muitas outras perguntas vão surgindo, mas Haruki faz-nos esperar pelo tempo certo para as respostas, nada é apresentado ao acaso, mas sim inserido numa trama que se vai desenrolando num tempo próprio ao longo de todo o livro.

A comida (há sempre quem coza esparguete), bem como as referências musicais são sempre uma constante nos seus livros, sendo que aqui acresce o gosto pelos clássicos da literatura.

No meio do desenvolvimento de toda a história, surge no nosso pensamento outro tipo de questões, de facto qual o papel da evolução nas nossas vidas, de que forma ela poderá condicionar-nos num futuro e quem somos, enquanto seres humanos providos de um coração, de sentimentos e sonhos. 

Como refere o velho cientista no inicio do livro: “uma evolução feliz é coisa que não existe.”

É muito difícil descrever a escrita de Haruki Murakami,. Acredito que ou se gosta bastante ou então não se gosta, e as duas opções são válidas.

A sua escrita apresenta-nos episódios divertidos, recheados de um humor muito próprio. Os diálogos são muito bons, fluem naturalmente. Escreve com uma ternura aliada a um misticismo que nos deixa sempre com um sorriso. 

Para mim como já referi mais do que uma vez Haruki Murakami tem uma escrita deliciosa e é um excelente contador de histórias.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner de Afonso Cruz



Sinopse

Com reflexões e histórias ignoradas noutras enciclopédias, o volume Arquivos de Dresner aborda, entre outras coisas, o caso de Ezequiel Vala, um maratonista que perdeu uma prova, nas Olimpíadas de 1928, por causa de uma flor (amaryllis/hippeastrum); fala do explorador Gomez Bota, que provou que a Terra não é redonda e descobriu, numa das suas viagens, a entrada para o Inferno tal como Dante a havia descrito; e relata os hábitos dos índios Abokowo, que dão saltos quando dizem palavras como «amor» e «amizade».


Esta é mais uma viagem lúdica pela História, remisturando conceitos, teorias e opiniões e lançando nova luz sobre uma panóplia de assuntos, desde a filosofia à religião, desde o misticismo à ciência.

«Um artista é alguém que, em vez de pintar uma paisagem tal como ela é, faz com que as pessoas vejam a paisagem tal como ele a vê.»
(Tsilia Kacev)



“Ler é uma maneira de ser. Tal como os homens usam roupa, a alma usa livros”
(Wihelm Möller)

Deste autor, apenas tinha lido um conto e alguns excertos das suas obras. Fiquei bastante curiosa e assim que tive oportunidade, agarrei-a e comecei por este volume da sua Enciclopédia da Estória Universal.

E devo-vos dizer que gostei muito. Esta enciclopédia, como o seu nome indica, apresenta-nos um conjunto de pequenas histórias, definições e um pouco de tudo aquilo que uma enciclopédia deve ter. 

No entanto, todos estes conceitos são “envoltos” numa escrita muito própria em que o autor utiliza quer a reflexão filosófica quer o saber místico, levando-nos a viajar nas páginas do seu universo sempre com um sorriso.

São pequenas histórias de tribos indígenas (os Abokowo), de tartarugas bicéfalas, de corredores olímpicos amantes de botânica, de exploradores que tentam provar que a Terra afinal não é redonda (Fernão Magalhães estava errado) entre outras, intercaladas com poesias soltas, pensamentos, provérbios e ditos populares. 

Neste livro a realidade e a ficção misturam-se de forma harmoniosa, levando-nos constantemente a questionar onde uma começa e onde a outra termina, ou se existe alguma verdade nestes pedacinhos de história, ou mesmo se os autores mencionados não serão apenas personagens criadas pela imensa imaginação do autor.

Um livro diferente no panorama nacional. Uma obra que me leva a querer saber muito mais sobre Afonso Cruz.

domingo, 2 de junho de 2013

Os Leões de Al-Rassan de Guy Gavriel Kay


Sinopse:

"Inspirado na História da Península Ibérica, Os Leões de Al-Rassan é uma épica e comovente história sobre amor, lealdades divididas e aquilo que acontece aos homens e mulheres quando crenças apaixonadas conspiram para refazer – ou destruir – o mundo. 


Lar de três culturas muito diferentes, Al-Rassan é uma terra de beleza sedutora e história violenta. A paz entre Jaditas, Asharitas e Kindates é precária e frágil, mas é precisamente a sombra que separa os povos que acaba por unir três personagens extraordinárias: o orgulhoso Ammar ibn Khairan – poeta, diplomata e soldado, o corajoso Rodrigo Belmonte – famoso líder militar, e a bela e sensual Jehane bet Ishak – física brilhante. Três figuras cuja vida se irá cruzar devido a uma série de eventos marcantes que levam Al-Rassan ao limiar da guerra."

Os Leões de Al-Rassan é um livro de ficção que tem por base uma determinada época da história da península ibérica, a ocupação islâmica e as reconquistas cristãs. São muitas as semelhanças, no entanto rapidamente se verifica que o mundo de Al-Rassan faz parte de um universo à parte. As duas luas que se erguem nos céus, uma branca outra azul são uma das notas elementares deste facto. 

A história passa-se em redor de três personagens que são a peça fundamental de todo o enredo, uma vez que eles representam as três frações religiosas deste mundo criado por Guy Gavriel Kay. (Este facto é mais uma das semelhanças à nossa história ibérica).

Ammar ibn Khairan , o homem que matou o último califa de Al-Rassan, poeta, diplomata e soldado representa o povo asharita que veneram Ashar o deus das estrelas e que ocupam a região de Al-Rassan, cuja capital é Cartada.

Rodrigo Belmonte , Capitão do exército, líder amado por todos os que combatem a seu lado, jadita, adorador do deus do Sol Jad, habitante de Esperaña, a norte da península, e que se encontra dividida em três reinos: Ruenda, Valledo e Jaloña.

Jehane bet Ishak , médica, filha de um dos mais prestigiados médicos de toda a península, Ishak bet Yonannon, pertencentes ao povo kindate, adoradores da duas luas, branca e azul, e que habitam por todo o território.

Para além destas personagens, existem outras igualmente interessantes e bem construídas. Alvar Pellino, um soldado jadita, vai crescendo imenso, enquanto personagem ao longo de toda a obra, surpreendendo-nos verdadeiramente.

A vontade de unificar esta península é um desejo de todos, aliado á vontade de expulsar/ matar os infiéis. Este é mesmo o objectivo para a guerra santa que os altos clérigos jaditas tentam levar a cabo.

Um rol imenso de intrigas, jogos de poder, seduções que formam uma teia que a todos apanha nos seus meandros políticos.

Três povos, três religiões diferentes que se interligam e que acabam por demonstrar que pode haver união e entendimento entre seres humanos com ideologias diferentes, prevalecendo o sentido de honra e justiça.

Relativamente á escrita, esta é simples, fluida e de certa forma cativante. Não sendo muito elaborada e por vezes surge alguma construção de frases que me levou a ficar na dúvida se era erro de tradução ou se seria da própria forma de escrever do autor. Sendo este o primeiro livro que leio deste autor, acabei por me inclinar para a primeira opção.

Em todo o caso, não sendo um livro excepcional, é interessante e recomendo.

sábado, 18 de maio de 2013

A Invenção de um Conto de Fadas - Manuel Alves




Sinopse:

Seria bom que todas as histórias entre duas pessoas que se gostam terminassem em verdadeiros contos de fadas. A vida é outra coisa. 

Se querem uma história em linha recta, não leiam este romance. No ínicio, é uma chama que arde lenta. No meio, fala de amor como apenas o amor sabe falar de si. No fim, umas coisas acabam e outras começam. É um fim um bocado mentiroso.






A Invenção de um conto de fadas é um livro que nos presenteia com uma realidade diária, mas que surge de uma forma simples e extraordinariamente agradável. Fala-nos de afectos, de experiências de vida que nos vão conquistando ao longo das páginas. 

Página a página, vamos conhecendo as personagens, as suas vidas e criando um empatia com os seus erros, angustias, medos, percas e tantas outras emoções. Casos iguais a tantos que se cruzam connosco, mas que aqui se encontram descritos de uma forma carinhosa. 

Cinco “casais”, cinco gerações diferentes, cinco relacionamentos onde a palavra afecto (como o próprio autor Manuel Alves afirma) é a palavra-chave. 

A infância, repleta da magia própria desta idade, descobre um sentimento que acompanha o ser humano até ao fim da sua vida, vive as suas primeiras descobertas e a forma como agradar a quem lhe agrada. 

A adolescência divide-se entre o afecto e aquilo que o mundo lhe apresenta. Há um vida inteira lá fora por descobrir, como se pode ficar agarrado a algo que esteve ali ao nosso lado diariamente? 

O jovem adulto divide-se entre a "prisão" de um afecto, a dúvida,  que poderá condicionar (pensa ele) o seu desenvolvimento e projecção no mundo, a carreira profissional, os outros, o mundo inteiro ainda por viver. 

O casal adulto que preso na sua rotina, não percebe o afastamento que começa a surgir. Surge a dúvida, o questionar do sentido de toda uma vida que se viveu em função de algo ou de alguém e essencialmente surge a falta de diálogo que provoca um desabar de todo um conjunto de situações. A figura materna, que quando os filhos crescem, vê-se perante a sensação de uma vida que parece não ter sentido, perante uma vida que nunca foi vivida no seu verdadeiro sentido da palavra. 

Por fim o Sr. Agostinho, o avô que adoptamos logo no início do livro. O chegar de um fim, a solidão face a uma vida riquíssima a dois, mas que tenta ultrapassar numa doação total aos outros ouvindo-os, ajudando-os através do seu chá divinal.

A escrita simples e cativante, pontuada de um humor característico leva-nos a percorrer as páginas com um sorriso nos lábios e por vezes uma lágrima a espreitar no canto do olho. 

Um livro muito agradável que recomendo a qualquer leitor. 

Apenas uma crítica mais mordaz (desculpem a expressão) e muito pessoal. Não me considero uma feminista, pois o Homem e a Mulher, na minha opinião, não são de forma alguma iguais, devem sim ter direitos iguais, assim como qualquer ser humano independentemente do seu sexo ou cor da pele. A figura feminina nesta história é de certa forma “a traidora do afecto”, é nela que surgem as grandes dúvidas, as grandes hesitações e os erros, a dificuldade na expressão do sentimento esbarra com a dificuldade da mulher em compreende-lo. Não me parece que, mesmo sendo nós uns “seres” muito complicados, seja sempre assim na vida real, também não o deveria ser num Conto de Fadas mesmo que inventado.